
Entre a irreverência luminosa de Jenny Joseph e a lucidez serena de Wisława Szymborska, estas traduções de Nicolau Saião revelam-se como um raro exercício de escuta poética e de rigor estilístico, em que a língua portuguesa não apenas acolhe, mas também recria o sopro original dos textos. Saião traduz não só palavras, mas também cadências, ironias e silêncios — preservando, no poema de Joseph, a rebeldia tardia que desafia convenções com humor e dignidade, e, no de Szymborska, a meditação quase metafísica sobre a memória, a morte e a construção simbólica da grandeza. Há, nestas versões, uma fidelidade que não é servil, mas criativa: uma tradução que se torna ela própria gesto literário, devolvendo-nos dois universos distintos através de uma mesma e exemplar transparência verbal. Filamentos – artes e letras – agradece a colaboração.

JENNY JOSEPH (Birmingham 1932- 2018)
AVISO
Quando eu for velha irei usar um vestido roxo
e um chapéu vermelho que não combina com ele e não me favorece.
E irei gastar a minha pensão em conhaque e luvas de verão
e sandálias de cetim e direi que não há dinheiro para manteiga.
E vou sentar-me no chão quando me cansar
e devorar amostras nas lojas e accionar os alarmes
e vou passar a minha bengala sobre as grades públicas.
E compensarei a sobriedade da minha juventude.
Vou andar de chinelos na chuva
e cortar flores nos jardins de pessoas alheias
e vou aprender a cuspir.
Uma pessoa pode usar camisas horríveis e engordar
e comer três quilos de salsichas de uma só vez
ou apenas pão e picles durante toda a semana
e guardar canetas e lápis e porta-copos e outras coisas em caixas.
Mas agora devemos ter roupas que nos mantenham secos
e pagar a renda e não praguejar na rua
e ser um bom exemplo para as crianças.
Devemos ter amigos para jantar e ler o jornal.
Mas talvez eu deva praticar agora um bocadinho?
Para que os meus conhecidos não fiquem chocados
ou demasiadamente surpreendidos
quando de repente notarem que ela está velha
e começa a usar roxo.

Wislawa Szymborska (Kórnik, 1923 – Cracóvia, 2012)
A casa de um grande homem
Foi escrito no mármore em letras douradas:
aqui um grande homem viveu, trabalhou e morreu.
Ele colocou pessoalmente o cascalho para esses caminhos.
Este banco – não lhe toquem – esculpiu-o ele sozinho
E de pedra o fez.
E – cuidado, três etapas – vamos entrar.
Na hora certa chegou ele ao mundo.
Tudo o que tinha que passar, passou nesta casa.
Não num prédio alto,
não em metros quadrados, mobilado, mas vazio,
entre vizinhos desconhecidos,
nalgum décimo quinto andar,
onde é difícil arrastar excursões escolares.
Nesta sala ponderou,
nesta câmara dormia,
e aqui recebia convidados.
Retratos, uma poltrona, uma escrivaninha, um cachimbo, um globo, uma flauta,
um tapete surrado, um solário.
A partir daqui, trocou acenos com o seu alfaiate
e o seu sapateiro
que para ele trabalharam sob medida.
Isso não é o mesmo que fotografias em caixas,
canetas secas num copo de plástico
um guarda-roupa e um armário comprados numa loja,
uma janela, de onde se podem ver melhor as nuvens
do que as pessoas.
Feliz? Infeliz?
Isso aqui não é relevante.
Ele confiava ainda nas suas cartas,
sem pensar que seriam abertas nos seus
trajectos.
Ele mantinha ainda um diário detalhado e honesto,
sem receio de o perder durante uma
busca.
A passagem de um cometa preocupava-o mais.
A destruição do mundo estava apenas nas mãos
de Deus.
Ele conseguiu ainda não morrer no hospital,
atrás de uma tela branca, sabe-se lá qual.
Ainda havia alguém com ele que se lembrava
Das suas palavras murmuradas.
Ele participou da vida
como se fosse reutilizável:
enviou os seus livros para que fossem encadernados;
pois não iria riscar os sobrenomes dos mortos
do seu livro de endereços.
E as árvores que plantou no jardim por detrás
da casa
cresceram para ele como a Juglans Regia
e a Quercus Rubra e a Ulmus e a Larix
e a Fraxinus Excelsior.
Nicolau Saião, poeta e tradutor
