Nota de leitura por José do Carmo Francisco

Luís Alves Milheiro um livro especial

Uma viagem no tempo com o Padre Felicidade

Este livro de 236 páginas com capa de Ana Sofia Milheiro organiza-se sob o lema «cem anos – cem crónicas» de modo a retratar as viagens do Padre José da Felicidade Alves (1925-1998) que nos seus 73 anos de vida andou pelo Vale da Quinta, Salir de Matos, Caldas da Rainha, Santarém, Almada, Olivais, Cruz Quebrada, Paris e Roma – entre outros lugares. Mas a viagem que este livro testemunha e releva á a viagem interior do Padre, professor, escritor, editor e olisipógrafo ilustre com o Prémio Júlio de Castilho atribuído em 1995 pela Câmara Municipal de Lisboa. Os Cadernos GEDOC agitaram o País e deram origem a um julgamento de quatro dos responsáveis – Padre Felicidade Alves, Nuno Teotónio Pereira, Abílio Tavares Cardoso e Manuel Mendes Mourão – todos absolvidos pelo Tribunal. Uma nota pessoal: há três livros que nunca me abandonaram apesar de já ter mudado de casa 14 vezes. São eles «Católicos e Política De Humberto Delgado a Marcelo Caetano», «É preciso nascer de novo» e «Jesus de Nazaré». Luís Alves Milheiro o autor do livro (n.1962) tem aqui uma dupla inscrição: é licenciado em História e pertence à família do Padre Felicidade.  Esta dupla inscrição permite-lhe abordar o tema do livro biográfico com o rigor do historiador e com a força do afecto do familiar próximo. Livros, jornais, programas de televisão  e revistas forma lidos com toda a atenção e passados a pente fino ao mesmo tempo que a ligação familiar permitiu um olhar do lado de dentro do percurso de José da Felicidade Alves, o oposicionista militante. O mesmo é dizer o tempo pessoal do pároco de Belém, um homem grande e rico, surge em paralelo com o tempo púbico dum país pequeno e pobre. Uma nota pessoal – meu pai nasceu em 1927 no Zambujal que fica perto do Vale da Quinta – pelo meio há as Antas, a Cabeça Alta e as Cruzes. Eu nasci em 1951 em Santa Catarina que também fica perto do Vale da Quinta – pelo meio há o Carvalhal Bemfeito, a Cabeça Alta e as Cruzes. Acontece que as únicas vezes que o meu pai me falou do Padre Felicidade foi para repetir o que dizia a sua patroa, uma senhora rica que tinha uma quinta em Alcácer do Sal. Para ela o pároco de Belém era um malandro que se recusava a abençoar os soldados a caminho do Ultramar. Muitas vezes, quase sempre os superiores não são legítimos como diz um dos Mandamentos da Igreja. «Honrar pai e mãe e os outros legítimos superiores». Cá para mim honrar pai e mãe é uma coisa, os superiores já é outra conversa. Está de parabéns o autor deste livro. Seguiu uma ideia do filósofo Walter Benjamin (1882-1940): «Uma das principais responsabilidades do Homem é revelar o esquecido».

José do Carmo Francisco, escritor

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