A Pedra que Levita – Crónicas de Leonel Ventorim

Todas as nossas madrugadas por um sorriso iluminadas

3.21. Eu não durmo daqui tu não dormes daí. Que porcaria esta. 3.21 e eu vejo que tu vês o que eu postei numa rede social antes de me deitar, era cerca da meia noite. 3.21 e sei lá eu se tu estiveste com alguém ou até mesmo se estás neste momento e isso não me sai do pensamento tal verme a devorar o cérebro lentamente. Mas nesse momento em que estás na rede social, estás comigo, desse lado, em pensamento, às 3.21. Ainda não são 4.48 (Psychosis) nome da peça teatro da Sarah Kane, madrugada essa que é a parcela do relógio favorita dos suicidas para a sua última performance – os bem sucedidos suicidas diga-se – Sarah, ela própria suicida. Não tenho tendência para essa coisa de me matar, compreendo e respeito, mas sou demasiado criativo. Acontece que fiquei preso no teu mundo, ou preso numa ideia de felicidade, fiquei preso no nosso mundo e agora estou com sérias dificuldades em sair dele, tal como tu. Que porcaria esta. Com a maturidade sentimental e emocional só gosto do explícito e abomino o que é escondido. Gosto da declaração directa, da atitude concreta, o resto, é nega, dúvida ou mistério, e instabilidade não é o meu credo. Tudo em mim grita por mim e tudo em mim grita por ti, mas agora que sei da existência na tua vida de uma presença onde antes era ausência, essa presença não me amedontra, mas provoca interferência, e essa interferência faz-me recuar, não me imiscuir, não me repetir, não me inferiorizar em luta de macho alfa pois tenho inteligência e pouca paciência para isso e a absoluta certeza do teu amor por mim. Além disso, ironicamente, o problema não é esse outro, nem o ele estar por perto, o problema é maior, mais distante e cercado de água por todos os lados. O problema é a ilha, ainda a ilha. E serei eu mais forte que uma ilha? Não sei, sei que deveria quebrar o silêncio e a ausência e mais uma vez correr para ti porque tu também não me deixas partir. 3.21. Eu não durmo daqui tu não dormes daí, uma noite prenha de desejos um cometa rasga o espaço um gato rouba umas botas e amanhã será a apresentação do livro onde está um texto que escrevi para teatro, um dia muito importante para mim, e não sei se vais, e tenho uma borbulha cheia de pus no lado esquerdo do nariz. Que porcaria. Não tenho tendência para suicida mas queria ser a bolha e espremer-me até deixar de existir. Entretanto, há coisa de uns dias, fui jantar com uma amiga que durante o jantar fez uma profecia: disse que ficaremos juntos, que estamos ligados um ao outro por um amor puro, talvez vindo de outras vidas e nesta carimbado, coisa rara neste tempo de mortos vivos. Se estamos afastados, ficamos mal, se estamos juntos, ficamos bem, então porque não assumir de vez este que é o mais antigo remédio existente para a alma? E a madrugada acordou, teria de acordar a preguiçosa, e súbita e até timidamente voltou a intimidade, não resistimos, perdidos que estávamos um para cada lado. Já tinhamos saudades das nossas deambulações e divagações através das ruas, escadinhas e becos do mui antigo bairro-labirinto de Alfama. A verdade é esta: O Minotauro sabia o segredo, por isso foi morto por Teseu. É que apesar do medo inerente a esta coisa labiríntica mas maravilhosa de ser-se humano, nós não temos medo: nós nunca nos perdemos, só nos encontramos, e quando juntos o tempo pára, o espaço fecha, e a linguagem é nova, só nossa. E tudo flui como só pode fluir da colina até ao rio e do rio até ao mar para regressar em onda até nós, uma nova onda lavando a alma de toda a sujidade. Uma nova oportunidade.

A Pedra que Levita – crónicas pós modernas para o século vinte e um – Lisboa, Março de 2026.

Leonel Ventorim escreve, se possível, de tudo; de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. No Jornalismo já escreveu Jornalismo Cultural e crítica de arte. Recentemente iníciou-se na crítica de teatro e regressou à crónica, ambos géneros em perigo de extinção e que já tiveram o seu auge, portanto gosta de correr na contramão, de conteúdo e não de ruído, de jornalismo lento e não de velocidade. Já fez muita coisa mas prefere o futuro e pretende tirar uma licenciatura em Mediação Artística e Cultural.

Leave a comment