Ogygia, ou o Nome do Vento: Uma Poética da Insurgência Feminina por Diniz Borges

Nem todas as revistas pertencem ao domínio da leitura; algumas reclamam, antes, o território da escuta — essa zona íntima onde a palavra ainda é respiração e pressentimento.
Esta segunda edição de Ogygia: Revista Literária não se limita a inscrever-se na página: pulsa, irrompe, desdobra-se para além dela. Não se oferece como objeto passivo ao olhar, mas como experiência que convoca o leitor a um encontro consigo próprio — com aquilo que, em silêncio, persiste por dizer. Cada texto surge como um vestígio antigo e, simultaneamente, como uma revelação inaugural: uma voz que não regressa, porque nunca foi plenamente ouvida, e que agora, finalmente, se ergue da margem para reclamar a sua inteira e irrevogável presença.

Mas Ogygia é também um gesto — e um gesto profundamente necessário no nosso tempo. Ao afirmar-se como revista de vozes femininas, inscreve-se numa tradição de resistência e reconfiguração do cânone, onde escrever é também reclamar espaço, memória e autoridade. Não se trata apenas de reunir autoras, mas de construir um território onde o feminino deixa de ser objeto e passa a ser sujeito, onde a pluralidade das experiências se converte em força estética e ética. E, nesse sentido, a sua dimensão mais silenciosamente revolucionária reside na forma como se oferece ao mundo: gratuita, acessível, aberta — recusando a ideia de que a cultura deve ser privilégio ou mercadoria. Ao disponibilizar livremente os seus conteúdos e, simultaneamente, ao tornar a edição impressa acessível a preço de custo, Ogygia reafirma um princípio essencial: o de que a literatura deve circular, chegar, tocar — atravessar fronteiras sociais, geográficas e simbólicas. Democratizar a cultura, aqui, não é um slogan, mas uma prática concreta, quase ética, que devolve à palavra o seu valor mais primordial: o de pertença coletiva.

Desde o editorial, assinado por Avelina da Silveira, a revista estabelece o seu território simbólico: Lilith não como mito fossilizado, mas como força viva, insurgente, “um grito de liberdade através dos séculos” . Esta escolha temática não é apenas estética — é política, ontológica, quase espiritual. Ogygia constrói-se, assim, como um espaço de restituição: restituição da voz, do corpo, da história, do feminino enquanto potência criadora, e não como silêncio imposto.

A arquitetura da revista — visível no índice — revela, desde logo, uma pluralidade de géneros que dialogam entre si: poesia, ensaio, conto, crónica, crítica literária e cultural. Não há aqui compartimentos estanques; antes, há um fluxo contínuo, como se cada texto prolongasse o anterior, como se todos participassem de uma mesma tessitura simbólica. Esta organicidade editorial é, em si mesma, um gesto de resistência: a recusa da fragmentação em favor de uma experiência literária total.

A presença de autoras de diferentes geografias, culturas e tradições — do mundo lusófono à diáspora — confere à revista uma dimensão verdadeiramente atlântica. Ogygia não é apenas uma publicação: é um arquipélago de vozes. E, como qualquer arquipélago, existe na tensão entre distância e ligação, entre isolamento e pertença.

A poesia de Millicent Borges Accardi, traduzida por Avelina da Silveira, é talvez um dos pontos mais luminosos desta edição. Em “Adam’s First Wife / A Primeira Esposa de Adão”, Lilith emerge não como figura demonizada, mas como mulher silenciada pela narrativa dominante. O poema trabalha precisamente esse apagamento — esse processo de tornar invisível aquilo que não se submete. A tradução, por sua vez, revela um cuidado raro: não se limita a transpor palavras, mas preserva a pulsação interna do texto, sua cadência e sua tensão semântica. Traduzir aqui é reescrever o gesto de Lilith: recusar-se à submissão da linguagem.

E é precisamente neste ponto que a revista atinge um dos seus maiores méritos: a qualidade das traduções. Num tempo em que tantas traduções se limitam a uma equivalência funcional, Ogygia aposta numa tradução como ato criativo, como mediação estética e cultural. Há uma escuta profunda da língua original — e uma recriação igualmente profunda na língua de chegada. Este cuidado revela uma consciência clara: a tradução não é um serviço, é uma forma de autoria partilhada.

A monografia de Carolin Overhoff Ferreira sobre a Rainha Njinga introduz uma dimensão crítica que amplia o alcance da revista. Ao denunciar a “fofoca suja” como mecanismo de construção historiográfica, o texto desmonta as narrativas coloniais e revela como o poder se inscreve na linguagem. Este ensaio não é apenas académico: é um gesto de reescrita do mundo. Ao recuperar Njinga como figura de resistência, a autora alinha-se ao próprio projeto da revista: dar voz a aquelas que foram historicamente silenciadas.

Também a crítica cultural e artística, os contos e as crónicas participam desta mesma lógica de insurgência. Há, em toda a revista, uma recusa do lugar-comum, uma insistência na complexidade, uma vontade de pensar o feminino para além dos estereótipos. Mesmo quando os textos se movem no território da intimidade, há sempre uma dimensão política latente — como se cada gesto individual fosse também um gesto coletivo.

A presença visual da artista Anne Hoover acrescenta uma camada sensorial que não pode ser ignorada. Os corpos que surgem nas suas obras — fragmentados, vibrantes, quase em dissolução — dialogam diretamente com o tema de Lilith. São corpos que escapam à fixação e recusam a forma definitiva. Tal como a escrita da revista, estas imagens habitam o limiar entre o visível e o indizível.

O que torna esta segunda edição de Ogygia particularmente relevante é a consciência de projeto. Não se trata de uma publicação ocasional, mas de uma intervenção nos campos cultural, literário e simbólico. Ao reunir vozes femininas de diferentes latitudes, ao cruzar géneros e linguagens, ao insistir na qualidade estética e na exigência intelectual, a revista constrói-se como um espaço de legitimação e projeção de uma literatura que, durante demasiado tempo, foi empurrada para a margem.

Mas há ainda algo mais — algo que escapa à análise puramente crítica. Há, nesta revista, uma espécie de respiração comum, uma cadência subterrânea que atravessa todos os textos. Como se cada autora estivesse a escrever não apenas por si, mas por uma genealogia de vozes que a precedem e a excedem. Lilith, nesse sentido, não é apenas tema: é método, é linguagem, é presença.

E talvez seja essa a maior conquista de Ogygia: transformar um mito em prática literária, em gesto editorial, em comunidade estética.

No fim da leitura, permanece uma sensação rara — a de ter atravessado não uma revista, mas um território. Um território onde a palavra ainda arde, onde o silêncio é desafiado, onde o feminino se escreve em todas as suas formas — fragmentado, múltiplo, indomável.

E assim, como um sopro antigo que regressa ao corpo do mundo,
Ogygia não se fecha na última página.  Permanece — como Lilith —
na margem onde começa a liberdade, no instante em que a voz deixa de pedir licença e simplesmente existe.

Eis a ligação. Leiam a revista. É leitura indispensável.

https://pub.marq.com/Ogygia2/#i34LJJ1jhheW

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