
Dentro de uma Redoma de Vidro a Olhar Para Fora
Os anos passavam e o António não ganhava. Até que morreu sem ganhar. Mas que se foda o Nobel, o António Lobo Antunes é o “My Private Nobel”. Quando morei em Campolide soube que ele ia todos os dias almoçar a um restaurante a poucos metros de onde eu morava – nunca revelei a ninguém qual era, e agora, também não vale a pena. Acontece que uma vez espreitei pela montra, como um pobre espreita esfomeado, eu de escrita e de heróis das letras. Não tive coragem de o abordar, ainda levava um murro, as batatas e eu, a murro. Mas caramba: Seria um murro do António… Campolide ia lento, uma eterna aldeia dentro da cidade e não tão longe assim de Benfica, o seu bairro de crescimento e afecto. Apenas a Rua de Campolide no cruzamento onde está a churrasqueira Valenciana e o Campolide Atlético Clube é que vibra de movimento, e durante o dia, de resto é como se o tempo estivesse pendurado num varal tal roupa a secar: usar, sujar, lavar, voltar a usar. O meu tempo em Campolide foi limpo de início, depois sujou-se. Esperava aos quarenta e poucos refazer algo maior que a vida: o amor, e este deverá ser imaculadamente limpo. Mas o amor sujou-se com o tempo, e foi pouco tempo. Eu, ela e uma gata, numa casinha pequenina e recuperada numa antiga Vila Operária igualmente recuperada. A antiga Campolide operária habitada e dividida entre mestres e trolhas, antiga população residente devido à construção do Aqueduto das Águas Livres – e também a Campolide rural de hortas e vinhas onde os antigos “vinham de Lisboa” fazer piqueniques. Apesar do passado rural, do passado operário, e do ainda ritmo lento de aldeia, essa Campolide já não existe. Essa e tudo ali, o nosso próprio tempo e espaço esfumou-se como um fantasma tornaram-se fantasmas, e não se convive com fantasmas, fantasmas são memórias, memórias de refeições cozinhadas a dois, do compor a casa, da simpática vizinha que alimentava os gatos vadios do baldio ao lado, da alheira na Tasca do Alfredo, do café no Kebab, da boleira cheia de madalenas do restaurante com as quais fiz piada sobre o Proust, da humidade que surgiu na parede, das caminhadas, de uma árvore de Natal destruída a pontapé. A mesma que eu comprei, eu destruí. Comprei a árvore, as decorações, até um pinguim dentro de uma redoma de vidro com efeito de neve. Montei um Natal, eu que nem ligo ao Natal, mas ligo às pessoas. O Natal é o afecto. Mas não se convive com a loucura a menos que se queira arrastado para ela. E depois a saída, todas as saídas mesmo que justificadas são tristes. E não foi uma “saída de emergência”, saí já tarde de onde demasiado cedo o tempo se sujou, mas importa na vida é tentar, acreditar, importa na vida é deixar rasto e aprender a viver com os fantasmas domesticados. A ela disse-lhe timidamente e com o coração partido que “A vida é para ganhar tempo, e sinto que estamos a perder tempo”. Pobre Proust de Campolide em Busca do Tempo Perdido. Devia ter molhado a madalena no chá, devia entrado no restaurante e falado ao António, se calhar nem levava o tal murro, se calhar não teria ficado como agora: dentro de uma redoma de vidro a olhar para fora. Se calhar ele no meu lugar também teria pontapeado a árvore de Natal. Morei em Campolide, não morri em Campolide. Estou vivo, e escrevo: estou vivo.
Leonel Ventorim, Crónicas, Lisboa, Março de 2026.
Breve nota biográfica…
Leonel Ventorim ama escrever e portanto escreve de tudo; de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. No Jornalismo já escreveu artigos de Jornalismo Cultural e crítica de arte. Recentemente iniciou-se na crítica de teatro e regressou à crónica, ambos géneros em perigo de extinção e que já tiveram o seu auge. Gosta portanto de correr na contramão, de conteúdo e não de ruído, de jornalismo lento e não de velocidade. Já fez muita coisa mas prefere o futuro e pretende tirar uma licenciatura em Mediação Artística e Cultural.
Filamentos Artes e Letras é um projecto editorial das Publicações Bruma, parte do PBBI (Portuguese Beyond Borders Institute) da Universidade do Estado da Califórnia em Fresno.
