
Não, não venho aqui fazer “o elogio do osso” (António Sérgio) do escritor António Lobo Antunes. Não sou dos que fazem necrofilia literária. E sou contra litanias de exaltação aos mortos. Prefiro escrever sobre os escritores enquanto são vivos. E nem sempre para dizer bem dos seus livros. Por exemplo, no que diz respeito a Lobo Antunes, publiquei, em 2009, uma recensão intitulada “António Lobo Antunes, ou a saturação das palavras”, em que denunciava que aquele escritor escrevia muito para não dizer nada…
Conheci-o pessoalmente em Novembro de 1987, aquando da realização de umas Jornadas Literárias de má memória. Foi em Ponta Delgada e eu estava por perto quando ele, por nada saber sobre a tradição literária açoriana e lançando um olhar cúmplice à Clara Ferreira Alves, resmungou:
– Porra que o Mau Tempo no Canal é a Bíblia dos gajos!
Os “gajos” éramos nós, suaves escritores açorianos, na altura bem mais jovens, menos vividos e mais magros… E ele era o aclamado escritor António Lobo Antunes, então com os seguintes romances publicados: Memória de elefante (1979), Os cus de Judas(1979), Conhecimento do Inferno (1980), Explicação dos Pássaros (1981), Fado Alexandrino (1983) e Auto dos Danados (1985) – livros que eu havia lido com interesse.
Autor e narrador são entidades distintas, já se sabe. O António Lobo Antunes dececionara-me como pessoa, mas continuei a apreciar os seus livros. Até porque as ditas Jornadas haviam decorrido sob o signo de equívocos, mal entendidos e outros azedumes… Onésimo Teotónio Almeida, que se esmerara como anfitrião, ficara indisposto com os escritores e jornalistas continentais e, entre muitas outras coisas, haveria de denunciar, por escrito, a pose blasé e ennui que António Lobo Antunes assumira no decorrer do referido evento, bem como o choque de egos entre ele (Lobo Antunes) e José Martins Garcia, e entre este e Clara Ferreira Alves…
Ainda saboreei os seis romances que Lobo Antunes escreveu logo a seguir aos acima enunciados. Mas a partir de Exortação aos crocodilos (1999) enjoei… Fartei-me de tanta narrativa sem sequência nem consequência. Cansei-me de uma escrita despojada, minimalista, ácida e árida; uma escrita no osso, no gume da faca… De resto, aos seus romances preferi sempre as suas apetecíveis crónicas publicadas na “Visão”…
Os temas que António Lobo Antunes trazia para os seus livros até que não são desinteressantes: o vazio, a solidão, a agonia do real, a incomunicabilidade irremediável, o vácuo, a angústia do quotidiano, a fragilidade humana, a perda da ilusão, a frustração de viver e não ser amado, o amor ou a ausência dele, a morte… Mas há aquela chateza dos monólogos e aquela desagregação narrativa… O autor cria tensão dramática com a inacção e faz do aborrecimento um tema… Investindo na opacidade, enche páginas e páginas de palavras gritadas, exasperadas, extenuadas, vazias… E parece querer seguir aquela máxima do “quanto menos legível, melhor”…
Este escritor inventa obscuridades porque não necessita de saber nada sobre si, não tem histórias a contar. Niilista, homem do sardónico ascetismo, escritor do absurdo (mas Ionesco não é para aqui chamado), procura os seus recursos literários no vazio do sentido e da significação.
E que dizer das suas personagens, seres desvinculados de toda a contingência exterior? O autor esvazia-as num débito verbal sem fim. São personagens que não têm nada de naturalista, não estão ao serviço de uma realidade a descrever. São figuras irrisórias que se movem sem uma finalidade perceptível.
Obviamente que o escritor esteve na moda e até desejou ser Prémio Nobel da Literatura. Os seus livros venderam muito. Mas sempre me perguntei: quem compra Lobo Antunes lerá, na íntegra, Lobo Antunes? E o que será de Lobo Antunes quando o inexprimível passar de moda?
A ver vamos.
Victor Rui Dores, poeta, romancista, e ensaísta.
