
Doce Real
Cesário Verde poderia comer aqui o bolo
No caminho da sua Rua dos Fanqueiros
Nenhum estômago dispensa este consolo
Dos queques tão fofos e tão verdadeiros.
Por verdadeiros entendendo a diligência
Mais todo o tempo gasto na sua fabricação
Em certos bolos não é arte, é uma ciência
O resultado que vem do forno para a mão.
Pelo «Doce Real» passa um vento agitado
Por isso a porta fica meio-fechada às vezes
Criando logo um ambiente mais sossegado
Aos clientes que são amigos; não fregueses.
Estar aqui é um grande intervalo de alegria
Na rotina dum quotidiano sempre tão igual
Como nos teatros ou nos livros de poesia
Estamos todos juntos. Isso nos basta afinal.
Louvor do pastel de nata (Doce Real)
Como no pódio em lugar cimeiro
Acima do queque e do croissant
O pastel de nata é o primeiro
Da mais bela fornada da manhã
O forno cozeu pão de madrugada
Não esgotou o calor e a doçura
O pão mata uma fome já esperada
A nata adoça o sal da amargura
Quem chega e se dirige ao balcão
Zangado com notícias e jornais
Recebe prazer da boca ao coração
E fica com vontade de pedir mais
No ritual da manhã de cada dia
Tem lugar ao balcão e à mesa
O pastel de nata dá a energia
Para combater a nossa tristeza.
José do Carmo Francisco, poeta
