José do Couto Rodrigues: Um homem bom, dinâmico, autêntico por José Luís da Silva (poeta)

Acaba de desaparecer entre nós um homem bom, um amigo, uma das grandes figuras da nossa comunidade. Estas linhas não constituem um obituário em que o seu vasto e importante currículo pessoal, profissional e comunitário seria apontado. Reservo isso para o critério do diretor deste jornal. Quero só dizer o que me vai na mente. 

Conheci o José Rodrigues nos tempos áureos do Portuguese Athletic Club em que ele desempenhou papéis muito relevantes na direção, nomeadamente na comunicação social dessa importante instituição comunitária. Foram vários os eventos do Atlético a que compareci e em que pude testemunhar a energia, caráter e conhecimento desse meu conterrâneo. Mais tarde, quando eu fazia um mestrado em San Francisco State University, tive a alegria de saber que ele era Business Manager da Associação Académica da universidade, cargo de grande importância que incluía a gerência de tudo que tinha a ver com o belo edifício da Associação Académica, providenciando inúmeros serviços aos estudantes. Quando o fui visitar lá pela primeira vez, ele parou tudo o que estava a fazer e, na sua maneira afável, sorridente, deu-me um abraço e convidou-me a ficar lá conversando com ele durante largo tempo. Foi um encontro que marcou a nossa amizade. Depois disso, fui vê-lo lá várias vezes e era sempre recebido com simpatia e entusiasmo.

Passaram-se os anos, seguimos destinos diferentes, mas sempre que nos encontrávamos sentíamos aquela proximidade que os amigos têm. Parecia que o tempo não passara. Quando fui convidado para a direção da Portuguese Heritage Publications of California, a que ele pertencia e de que foi presidente durante vários anos, tive a oportunidade de testemunhar como ele se dedicava a projetos de enorme relevância na vida cultural da nossa comunidade. José Rodrigues se empolgava com o entusiasmo e responsabilidade que sentia na seleção e implementação de livros basilares para preservar a memória da nossa comunidade ou também na organização de eventos como o Congresso Internacional sobre as Festas do Divino Espírito Santo que teve lugar em São José. Em tudo que fazia o José dedicava tempo, energia, comprometimento, profissionalismo, vontade de fazer o melhor possível. 

Mais recentemente, quando da transferência da sede da PFSA de San Leandro para Modesto, telefonou-me preocupado com o futuro da coleção da J. A. Freitas Library e dos arquivos daquela importante organização que representam grande parte do espólio cultural da imigração portuguesa para este estado. Trabalhando em conjunto com a liderança da PFSA, José Rodrigues criou um grupo que dedicou muitíssimas horas à identificação, seleção e ordenamento das coleções lá existentes, auxiliando a PFSA na árdua tarefa de preparação da mudança de tão rico espólio cultural (livros, vídeos, microfilmes e documentos). Essas sessões de trabalho trouxeram-nos momentos inesquecíveis. Quando parávamos um pouco para descansar, à volta de uma mesa, conversávamos e, invariavelmente o José contava coisas das suas vivências, quer na emigração quer na sua terra natal, Lomba da Maia. Com o seu modo tão especial de comunicar, o José Rodrigues transportava-nos para outros tempos e lugares e, de uma maneira autêntica, emotiva, falava-nos de eventos e pessoas que guardava na sua memória. Não era raro ele emocionar-se ao contar dessas suas andanças de cá ou de lá. É que, além de ser um homem inteligente, tenaz, pragmático, José Rodrigues era um ser humano de grande sensibilidade. Entre as muitas estórias que nos contava, gostava de compartir conosco coisas de que ele se lembrava ou dos tempos de infância e adolescência ou das experiências com o seu tio, Agnelo Clementino, homem da rádio comunitária que o José muito admirava e com quem colaborou, tanto no trabalho radiofónico como na odisseia de levar filmes portugueses para exibir por quase toda a Califórnia. O José, na sua maneira calma, com um leve sorriso, com uma simplicidade narrativa admirável, levava-nos a um mundo rico de memórias mescladas  com a sua capacidade de análise dessas vivências.

Podia dizer muito mais mas vou ficar por aqui. Sim, José do Couto Rodrigues foi um bom amigo, daqueles poucos amigos em quem podemos confiar, com quem podemos compartir idéias, emoções, sabendo que estarão do nosso lado. José Rodrigues foi uma  figura de vulto na nossa comunidade que se evidenciou por ser dedicado, generoso, empreendedor, idealista, corajoso. Viveu com determinação e humanidade, deixando um legado pessoal e comunitário que é exemplo para todos nós.

Não o vou esquecer. José do Couto Rodrigues foi um grande homem que nunca precisou de se fazer mais do que era porque a sua essência só por si bastava para afirmar o seu valor.

Descansa em paz, meu amigo.

José Luís da Silva

Relembrando José do Couto Rodrigues, 2 anos após a sua morte.

Leave a comment