Nota de Leitura por José do Carmo Francisco

Afonso Lopes VieiraPOESIA

Este livro de 706 páginas (Edição E-Primatur/Letras Errantes Lda, Revisão Susana Ramos, Editor Hugo Xavier) tem organização, edição de texto e notas de José Manuel Quintas e Manuel Vieira da Cruz. Embora o título do volume indique «Poesia», ele não se fica pelos poemas de Afonso Lopes Vieira (1878-1946) mas inclui um excelente estudo de José Carlos Seabra Pereira entre as páginas 513 e 706 com o título de «O trovador de Portugal». Entre as páginas 17 e 495, além de toda a poesia publicada entre 1898 e 1924, este volume recupera a «Écloga de Agora», um livro de 36 páginas que foi editado pelo autor em 1935 e logo apreendido pela Censura do Estado Novo. Surgem nele uma alusão a Francisco Rodrigues Lobo, José Hipólito Raposo, António de Oliveira Salazar, José Pequito Rebelo, Américo Cortez Pinto, Adriano Sousa Lopes, António Xavier Rodrigues Cordeiro, António Feliciano de Castilho, António Sardinha, Adriano Xavier Cordeiro, Luís de Almeida Braga, Alberto Monsaraz, Artur Lucas, D. Duarte Nuno de Bragança, Henrique de Paiva Couceiro, Agatão Lança e Mouzinho de Albuquerque – entre outras figuras das Artes, das Letras e da Política. Não por acaso um dos poemas deste livro pode ser lido como resultante dessas éclogas de 1935 proibidas e retiradas do mercado. Vejamos a página 451: «O poeta português/que não passar ao menos uma vez/pelas prisões/não será digno aluno de Camões.//Senhores carcereiros/desta terra que o sol tanto alumia/sois musas e parceiros/da nossa Poesia.//E não é em verdade/portuguesa a saudade/que não tiver também Virilidade». Afonso Lopes Vieira dedicou uma especial atenção à vida e às obras de Gil Vicente, Luís de Camões, Santo António de Lisboa, Cristóvão Falcão, Francisco Rodrigues Lobo, Almeida Garrett e João de Deus. Todo um programa que lhe dá uma dimensão acima, muito acima, do grande Poeta que é e continua a ser.    

José do Carmo Francisco

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