Vigília do Milagre: João Pedro Porto e o romance como exercício radical de inteligência

Antes de ser enredo, o romance pode ser um estado de atenção. Uma forma de permanecer desperto quando o mundo insiste em adormecer o sentido. Há livros que não se anunciam como acontecimentos ruidosos, mas como vigílias silenciosas, chamando o leitor para junto de uma chama baixa e persistente, onde o pensamento se deixa ver lentamente. A Multiplicação dos Milagres, de João Pedro Porto, pertence a essa ordem rara: a da ficção que não seduz pela pressa, mas pela gravidade; que não promete revelações súbitas, mas exige fidelidade ao tempo da leitura, à espera paciente em que o sentido se forma. Este é um romance que se lê como quem guarda: atento, desperto, consciente de que cada frase pode conter mais do que diz.

Desde o título, a obra anuncia a sua vocação reflexiva. O “milagre” que aqui se multiplica não é o do prodígio fácil nem o da suspensão ingénua das leis do real. É antes o milagre do pensamento quando a literatura se assume como espaço de interrogação radical. As epígrafes que abrem o livro — de Anatole France e de Dante — estabelecem de imediato um horizonte ético e filosófico exigente: a dúvida sobre a lei, a vergonha diante da verdade não dita, a consciência de que o silêncio também é uma forma de culpa. João Pedro Porto inscreve o seu romance nesse território instável onde verdade e mentira se observam mutuamente, e onde a ficção se torna um instrumento de vigilância do real.

O prefácio de Paulo José Miranda fornece uma chave decisiva para esta leitura ao afirmar que a literatura é feita da improbabilidade da existência e da linguagem, e que, no seu uso mais rigoroso, se converte num exercício de resistência. A Multiplicação dos Milagres assume plenamente esse programa. Trata-se de um romance que resiste à aceleração do tempo contemporâneo, ao empobrecimento do discurso e à tentação da transparência imediata. Aqui, escrever é pensar; narrar é investigar; avançar é, muitas vezes, suspender o passo para ver melhor. Num tempo em que a intelectualidade é frequentemente banalizada, o erudito ridicularizado e a complexidade confundida com excesso, este romance afirma-se como um gesto deliberado de contracorrente.

A arquitetura do livro é deliberadamente complexa, construída como um labirinto de vozes, textos, identidades e autores possíveis. No seu centro gravita a figura enigmática de Berto Brizi, editor que parece existir mais como função do que como personagem, mediador invisível por onde tudo passa. Brizi não escreve — ou escreve por interpostas vozes —, não se expõe — ou expõe-se sempre de forma oblíqua —, mas determina ritmos, atrasos, expectativas. A sua máxima, “Toda a boa mentira deve começar com a verdade”, funciona como eixo moral e poético do romance. Não se trata de um jogo gratuito com a impostura, mas de uma reflexão profunda sobre os limites da autoria, da responsabilidade e da verdade literária.

Ao povoar o romance com escritores inventados, textos apócrifos e obras inexistentes, João Pedro Porto questiona a própria ideia de origem. Quem fala quando um texto fala? Onde começa a verdade e onde se instala a mentira? Longe de um exercício pós-moderno de superfície, esta estratégia revela-se profundamente ética: a literatura surge como campo de vigilância, em que cada palavra deve responder pelo que faz ao mundo. O romance não relativiza tudo; antes, obriga-nos a permanecer junto da ambiguidade sem a dissolver.

É neste ponto que A Multiplicação dos Milagres dialoga com a grande tradição do romance intelectual anglófono e europeu, em que a ação exterior cede lugar ao movimento da consciência. A herança de Henry James faz-se sentir na forma como a narrativa se organiza menos em torno de acontecimentos do que da perceção moral desses acontecimentos. Tal como nos grandes romances jamesianos, o essencial não está no que sucede, mas no que é compreendido — muitas vezes tarde demais — e na responsabilidade que decorre dessa compreensão. Berto Brizi poderia habitar esse universo da central intelligence: não um herói, mas um foco ético onde o mundo se observa, se avalia e se adia.

Com John Banville, o parentesco aprofunda-se no plano da linguagem. Tal como o romancista irlandês João Pedro Porto, escreve numa língua que pensa enquanto avança, onde a beleza formal não é ornamento, mas método cognitivo. A frase longa, densa, musical, sustenta o pensamento sem o simplificar. A linguagem não explica o mundo: torna-o mais problemático, mais exigente, mais verdadeiro na sua opacidade.

Num outro registo, mais labiríntico, o romance dialoga também com Thomas Pynchon, na sua desconfiança estrutural em relação à linearidade, à autoria estável e à verdade única. A proliferação de textos, identidades e níveis narrativos aproxima A Multiplicação dos Milagres de uma lógica em que o sentido se multiplica precisamente porque nunca se fixa. O leitor não é convidado a resolver um enigma final, mas a habitar a incerteza como condição do pensamento.

Com Don DeLillo, o diálogo faz-se pela consciência aguçada do ruído contemporâneo. Se DeLillo observa como o excesso de discurso e informação esvazia o sentido, João Pedro Porto responde densificando a linguagem, atrasando a leitura, devolvendo peso às palavras. Este romance escreve-se contra a rapidez da opinião e a leveza da circulação discursiva, reivindicando a lentidão como forma de resistência intelectual.

É também neste contexto que a leitura de Valter Hugo Mãe, que tive o prazer de ler, graças à partilha pelo autor nas redes sociais, ganha particular relevância. Ao afirmar que, “no país de agora, não há ninguém com uma obra tão sinceramente alarve quanto a de João Pedro Porto”, identifica no excesso não um defeito, mas uma potência criadora, acrescentando:

“Uma obra que deita mão de tão exuberante imaginário, vocabulário e sensação de poder sobre o discurso e a imaginação. Somos, enquanto leitores, arrastados pela torrente e, ainda que neste novo “A Multiplicação dos Milagres”, sinta uma ironia mais aprazível, uma quase solar curtição, o efeito de estarmos subjugados ao que se diz é permanente. Acontece com Borges, por exemplo, com Saramago ou Calvino. Este livro podia ser um parente contemporâneo de Kafka, com seus labirintos e alçapões, suas aparências e máscaras, que imaginam o mundo mais do que obedecem à sua ordem. Na verdade, Porto nunca é linear. É racional, mas conhece todos os desvios da mente, usa o pensamento com aquela noção de fuga constante, fazendo com que a caracterização de cada personagem entregue sua caleidoscópica identidade.”

É à luz desta exigência que se torna particularmente feliz a observação de Mário Cláudio, ao escrever que A Multiplicação dos Milagres “não é só um grande trabalho de ficção, mas um magnífico salto no abismo.” Esse salto não é gratuito nem temerário. É um gesto plenamente consciente, um mergulho controlado na profundidade da linguagem, da autoria e da responsabilidade literária. O abismo de que aqui se fala não é o da ausência de forma, mas o da densidade extrema: o lugar onde a literatura deixa de garantir sentidos e passa a testá-los. João Pedro Porto escreve sem redes de segurança narrativas, recusando resoluções fáceis, verdades finais ou personagens pacificadas. E é precisamente por isso que o salto é bem-sucedido: mantém o rigor formal e a lucidez ética mesmo quando se aproxima do limite.

A escrita de João Pedro Porto distingue-se por uma beleza formal de grande maturidade. A língua é rica, plástica, capaz de longos períodos reflexivos sem perder tensão interna. Há imagens de forte densidade simbólica, momentos de lirismo contido, uma música frásica que sustenta o pensamento. A cena da criação de Paolo Dotti — escrita em pé, com tinta preta, porque “é na escuridão que se procura a luz” — condensa exemplarmente esta poética: escrever como esforço físico e metafísico, como vigília do sentido no meio da sombra.

Há, contudo, algo ainda mais profundo a sustentar A Multiplicação dos Milagres: a consciência de que este romance é escrito por um poeta em plena posse da língua. Não fosse João Pedro Porto um verdadeiro poeta — e de uma dimensão extraordinária —, cada página não vibraria com essa intensidade rara em que a linguagem deixa de ser veículo e passa a ser corpo. Em cada parágrafo, em cada frase, em cada palavra, sente-se uma atenção extrema ao ritmo, à cadência, à respiração interna da língua. Nada é neutro, nada é meramente funcional. Cada escolha lexical transporta uma carga lírica e reflexiva que faz do texto um espaço de escuta, quase de oração laica. A poesia aqui não surge como ornamento ou interlúdio: é a própria estrutura do pensamento narrativo. Ler este romance é ouvir a língua pensar — e cantar — ao mesmo tempo, num equilíbrio raro entre densidade conceptual e fulgor sensível. A prosa de João Pedro Porto não abdica da beleza para alcançar profundidade; é precisamente porque é bela que se torna profunda.

Outro eixo fundamental do romance é a relação entre a palavra e o tempo. “Nenhuma palavra vive fora do tempo. São as palavras que concedem o tempo às coisas.” Esta afirmação atravessa o livro como uma lei silenciosa. A literatura aparece como aquilo que confere espessura temporal à experiência humana, resistindo à lógica da instantaneidade. A Multiplicação dos Milagres é, assim, um romance contra a pressa, que reivindica a lentidão como valor cognitivo e moral. Ler torna-se um ato de demora, quase um exercício espiritual.

A presença da Itália — Milão, o Naviglio Grande, os mosteiros da Úmbria — funciona como geografia simbólica. Não é cenário, mas palimpsesto cultural, lugar onde o tempo europeu se acumula e se contradiz. Cada espaço é habitado por camadas de história, arte e pensamento, reforçando a ideia de que o presente nunca está isolado. A Europa que emerge neste romance é uma Europa da memória inquieta, onde o passado não se resolve e, por isso, exige vigilância.

À medida que o livro avança, a ironia inicial cede lugar a uma tonalidade mais grave. A chamada “escaramuça” no Beco dos Lavadeiros, descrita com referências épicas, revela a dimensão bélica da mentira e o seu potencial destrutivo. O romance lembra-nos que a ficção não é inofensiva: pode ferir, manipular, excluir. Esta consciência da ambivalência da palavra é um dos sinais mais claros da maturidade ética da obra.

O desfecho recusa qualquer resolução confortável. Não há catarse nem revelação final. O que permanece é a memória — “irmã mais velha da mentira” — e a sensação de que algo foi deslocado no leitor. A Multiplicação dos Milagres não faz sentido; mantém-no em vigília. O milagre que aqui se anuncia não é o do espetáculo, mas o da atenção desperta: a capacidade de guardar o sentido sem o fixar, de sustentar a dúvida sem a transformar em ruído.

As ilustrações do artista Urbano entram no livro como quem entra num sonho já em curso. Não pedem licença, não explicam, não acompanham — permanecem. São imagens que respiram devagar, feitas de sombra, de pressentimento, de uma luz que não ilumina, mas revela. Há nelas um saber antigo, quase mineral, como se o gesto do traço viesse de muito antes da mão. João Pedro Porto lembra, numa entrevista ao Açoriano Oriental, que o livro “vem acompanhado de ilustrações muito bonitas do Urbano. Por coincidência, porque não foram feitas para o texto, nem o texto para as ilustrações. Surgiu de uma conversa com o Urbano, encontrámos temas em comum e depois fizemos o encontro das figuras e do texto.” Essa coincidência é aqui uma forma alta de criação: dois mundos que se reconhecem sem se tocarem, duas linguagens que se escutam em silêncio. O trabalho de Urbano — um dos criadores mais importantes e singulares de Portugal — confirma-se nestas páginas como uma arte de profundidade rara, na qual cada figura parece conter uma memória inteira e cada vazio fala. As suas imagens não ilustram: velam e desvelam. Abrem um espaço interior onde o leitor não vê apenas — demora-se. E nesse lugar suspenso, onde a palavra já não basta e a imagem ainda não se fecha, o livro encontra uma segunda respiração, mais funda, mais lenta, mais duradoura.

No fim, A Multiplicação dos Milagres não se encerra: permanece. Continua a velar pelo leitor, exigindo-lhe fidelidade ao pensamento, responsabilidade na leitura e paciência diante da complexidade. João Pedro Porto escreve um romance que vigia a própria literatura, consciente da sua fragilidade e do seu poder. Num tempo de aceleração e esquecimento, este livro afirma que pensar ainda exige demora, que ler ainda é um ato ético e que a ficção, quando é verdadeira, não adormece o mundo — mantém-no acordado.

Diniz Borges

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