
Em resumo 19
As cheias do Rio Mondego vieram mostrar a dimensão da ignorância de alguns jornalistas embasbacados perante os botes de borracha dos Fuzileiros e falando no isolamento da Ereira como se de uma novidade se tratasse. Já o escritor Afonso Duarte (1884-1958) lhe chamou nos seus poemas «Guernesey dorida» desde 1912, ano em que publicou o seu livro «Cancioneiro das Pedras». Mas saber isso ou outras coisas dá trabalho; no meu caso faço todas as terças-feiras uma peregrinação por alguns alfarrabistas de Lisboa (Letra Livre, Nova Ecléctica, Sá da Costa) para descobrir sempre mais. Por exemplo ler as páginas comovidas de Carlos de Oliveira em «O aprendiz de feiticeiro» sobre o funeral de Afonso Duarte em 1958 que saiu da casa erguida por seu pai Henrique Duarte e onde uma rola igual à que foi cantada num dos seus poemas «está a arrulhar, a gemer, enquanto a urna do poeta vai saindo pela escadinha de pedra poída nas mãos dos homens com suas luvas pretas». Quanto à ignorância do primeiro-ministro que se referiu às descargas espanholas no Mondego não se trata só de ignorância mas sim de demagogia uma vez que do lado espanhol desviam no Verão a água do Tejo para o Guadalquivir na Andaluzia quando ela faz falta deste lado e no Inverno fazem descargas e provocam as cheias da Lezíria ribatejana e em especial em Constância onde convergem o Tejo e o Zêzere. Isto é que era importante ter sido dito. Quanto aos jornalistas embasbacados há um problema mais geral; eles não sabem que o jornalista é o historiador do quotidiano mas ao fingir que a História não existe estão a demitir-se da sua função. Em resumo: Jersey e Guernesey ficam no Mondego.
José do Carmo Francisco, escritor
