
Apresentação introdutória | 27 de fevereiro
No dia 27 de fevereiro, celebramos o aniversário de Vamberto Freitas — leitor maior, crítico de rara disciplina interior, e cartógrafo paciente das nossas letras entre margens. Há críticos que comentam livros; Vamberto, há décadas, escuta-os. E nessa escuta — atenta, ética, exigente — vai desenhando uma geografia literária onde o arquipélago não é periferia, mas centro móvel, e onde a diáspora deixa de ser nota de rodapé para se tornar matéria de cânone, debate e futuro.
Para assinalar esta data, Filamentos abre uma celebração à altura do aniversariante: uma maratona de 28 textos na plataforma — um por dia, ao longo do mês do seu aniversário — compondo um coro de vozes que se cruza e se reconhece, entre a amizade e a crítica, entre a memória e a invenção. Em paralelo, lançamos uma edição digital — 46 páginas, integralmente em inglês — dedicada a Vamberto Freitas, como gesto de gratidão e também como afirmação de alcance: porque a sua obra, sendo profundamente açoriana, é igualmente transatlântica, transnacional, aberta à conversa do mundo.
Os textos que se seguem são publicados na língua em que os autores os escreveram — português e inglês lado a lado, como duas correntes do mesmo mar. Que esta diversidade não seja apenas forma, mas símbolo: Vamberto ensinou-nos que a literatura vive de pontes, de travessias, de leituras que recusam centros fixos e preferem o rigor da atenção. Hoje, celebramo-lo não como capítulo encerrado, mas como diálogo em curso — e como farol discreto que continua a iluminar, com lucidez e generosidade, as páginas que ainda vamos escrever.
Diniz Borges
(Seguem-se as homenagens.)
Between the Atlantic and the Page: Vamberto Freitas at 75, Reading as Vigil
Introductory presentation | February 27
On February 27, we mark the birthday of Vamberto Freitas—a major reader, a critic of rare inner discipline, and a patient cartographer of our literature across shores. Some critics review books; Vamberto, for decades, has listened to them. In that listening—attentive, ethical, exacting—he has traced a literary geography in which the archipelago is not a periphery but a moving center, and in which the diaspora is no footnote, but material for canon, debate, and future.
To honor this date, Filamentos opens a celebration worthy of its honoree: a marathon of 28 texts on our platform—one each day throughout the month of his birthday—forming a chorus of voices that meet and recognize one another, between friendship and criticism, between memory and invention. In parallel, we are releasing a digital edition—46 pages, entirely in English—dedicated to Vamberto Freitas, both as an act of gratitude and as an assertion of reach: his work, profoundly Azorean, is also transatlantic, transnational, and open to the world’s ongoing conversation.
The tributes that follow appear in the language in which their authors wrote them—Portuguese and English side by side, like two currents of the same sea. Let this bilingual gathering be more than form: let it stand as symbol. Vamberto has taught us that literature lives by bridges, by crossings, by readings that refuse fixed centers and choose, instead, the rigor of attention. Today we celebrate him not as a closed chapter, but as an ongoing dialogue—and as a discreet lighthouse that continues to illuminate, with lucidity and generosity, the pages we have yet to write.
Diniz Borges
(Tributes follow.)
It is a pleasure to join in celebrating the 75th birthday of our dear friend, Vamberto Freitas. For more than three decades, Vamberto has shown us that literary criticism is, at its best, an act of sustained and ethical listening; one that crosses oceans, languages, and generations. His work has illuminated writers shaped by migration, memory, and cultural (re)adaptation, particularly within Azorean and broader diasporic traditions, while always remaining open to transnational and multilingual conversations. At seventy-five, Vamberto’s legacy is not a closed chapter, but an ongoing dialogue—one that continues to guide readers with care, rigor, and intellectual generosity. We celebrate him for what he has written and for the bridges he has built between cultures and communities, and for reminding us that reading itself is a profound act of responsibility that elevates and builds a deep sense of community.
Saúl Jimenez-Sandoval, President of California State University-Fresno
Happy 75th birthday, my friend in the distance! Years ago I received an email from you explaining how much you liked my work. We exchanged some publications, as I recall; and that was followed by your generosity in publishing several of my poems in journals and newspapers throughout the Acores. Suddenly, I became an “internationally recognized poet.” I remember those moments fondly today.
Over the years, I have become more and more aware of the importance of Senhor Freitas to the world of letters, both in Portuguese and in English. Coupled with all of these things, there is that sly smile in every photo I have ever seen of you. It says something like “I am nobody’s fool. Join me in taking back intelligence over evil; literacy over larceny; the arts over the displacement of democracy and savvy.” This stuff comes through in every photo of you to those of us who still savor dignity.
May these 75 years be a mere drop in the philosophical bucket, compared to the many still on your horizon!
Sam Pereira
Feliz aniversário, caro Vamberto! Agradeço o seu encanto pelos livros, o amor à escrita, as homenagens grafadas. Que esta celebração consagre esse poder analítico de imaginários que nos envolvem no doce canto da literatura! Um abraço!
Paulo Matos
Há pessoas que apenas vivem; outras, que transformam seu tempo. Um reduto específico, que é o da Literatura Açoriana, escrita em qualquer parte do mundo, dialogando com outras literaturas e inserindo-se na conflitiva modernidade, tem um interpretador e difusor incansável, que repete, em sua atuação, o trabalho de António Cândido em relação à Literatura Brasileira. Não digo pouco. Em sua já longa carreira, Vamberto interpreta e indica os melhores caminhos, e não é raro que extrapole seu plano habitual de interesses, voltando seu olhar para outras literaturas, com igual vigor e pertinência. A uma pessoa desse quilate, só podemos desejar: vida longa, e, se faz favor, não nos deixes sem notícias!
Luís António de Assis Brasil
Ao celebrar os seus 75 anos, Vamberto Freitas permanece como uma das vozes críticas mais atentas e incontornáveis da nossa literatura. Tendo tido o privilégio de ver o meu trabalho acompanhado pela sua leitura rigorosa e por uma escrita iluminada, esta homenagem é também um reconhecimento das pontes que ele tem erigido entre os Açores e o mundo. As suas recensões têm ecoado o tema da emigração açoriana com uma profundidade única e levam mais longe as histórias que, sem o selo BorderCrossings, talvez permanecessem confinadas às ilhas. Que a sua incansável dedicação à cultura açoriana e à nossa diáspora seja reconhecida e continuamente internacionalizada para as gerações vindoiras, como o legado de um dos maiores e mais profícuos críticos literários de sempre.
Pedro Almeida Maia
geografias e memórias
Há lugares que não nos abandonam nunca. Mesmo quando deles partimos, continuam a falar dentro de nós, com a voz discreta da infância e do primeiro espanto. As Fontinhas, na Ilha Terceira, são um desses lugares. Foi ali que nasceu Vamberto Freitas, levando consigo essa geografia primeira que, mais tarde, reaparece, transfigurada, na atenção às palavras, às margens, às memórias que insistem em não se perder.
Viveu muitos anos nos Estados Unidos. Foi lá que começou o seu percurso como docente e crítico literário. Mas nunca deixou de ouvir o Atlântico. Talvez porque o Atlântico não seja apenas um oceano: é uma forma de estar no mundo, uma maneira de olhar o que está perto sem esquecer o que ficou longe. Essa escuta atenta atravessa toda a sua obra crítica.
Ao longo dos anos, Vamberto Freitas tornou-se um leitor vigilante e persistente da literatura portuguesa, com especial cuidado pelo que se escreve nos Açores e na diáspora açoriana, sobretudo nos EUA. Fê-lo sem alarde, sem proclamações, com a paciência de quem sabe que a literatura se constrói mais por continuidade do que por ruturas ruidosas. Do Atlântico ao Pacífico, foi dando a conhecer vozes, textos, mundos, quantas vezes ignorados, com a naturalidade de quem apenas cumpre um dever íntimo.
A sua leitura nunca foi fria. Há nela uma proximidade ética, uma escuta profunda da geografia das palavras e da memória que as sustenta. Lê autores açorianos, continentais e internacionais sem hierarquias prévias, recusando centros e periferias como categorias fechadas. O que o orienta não é o peso do nome, mas a verdade da escrita. Nesse gesto discreto, mas firme, ajuda a colocar a literatura de matriz portuguesa, insular, diaspórica ou continental, num diálogo mais amplo, mais justo, com o mundo.
Mas talvez o mais duradouro do seu trabalho não esteja apenas nos ensaios publicados. Está na formação de leitores, na construção de critérios, na abertura de caminhos. Está nas pontes que foi erguendo entre escritores e leitores, entre ilhas e continentes, entre a solidão da escrita e a sua necessária partilha. Para muitos, a sua voz crítica foi um farol sinalizando caminhos, tendo sempre presente os espaços onde autores e críticos navegam.
Os gestos de reconhecimento são importantes. Não como celebração vazia, mas como memória ativa de um legado que continua a agir. Porque Vamberto Freitas não é apenas um ensaísta ou um crítico literário. É, permitam-me a expressão, uma verdadeira instituição de utilidade pública para a literatura. Em particular para as escritas de matriz açoriana, em português e em inglês, mas também para todos os que acreditam que a literatura não se mede por mapas de poder.
A sua obra não conhece fronteiras rígidas nem se deixa aprisionar por leituras redutoras. Circula, escuta, aproxima. Como quem sabe, talvez desde sempre, que a literatura não pertence a uma geografia, mas ao registo da memória.
Parabéns, amigo Vamberto.
Aníbal C. Pires
O imaginário dos escritores vambertianos
Muitos parabéns, ilustre Vamberto, por 75 anos de leituras, críticas, crónicas,
ensaios, entrevistas, suplementos, revistas, muitos textos, muitas aulas, muitas e
muito boas conversas; pela vida, a vida mesmo, para além dos livros, à beira do
Atlântico e à beira do Pacífico. Parabéns pelos livros e pela lucidez, pela paixão e
pela resistência, pela atenção aos pares, às gerações anteriores e seguintes, somos
todos devedores.
Um brinde aos que remam contra a maré, aos que não se rendem, aos que se
zangam, aos que fazem as pazes, aos desalinhados, aos afortunados com dois dedos
de testa e coração. À curiosidade, à imaginação, a pelo menos mais 25 anos de
atravessamento de fronteiras, entre a literatura e a amizade, as palavras escritas e
as ditas, sem plano, à mesa do café, olhando a elite, o povo e o Pópulo.
Um abraço amigo e devedor, sempre.
Alexandre Borges
Segundo a sabedoria popular, o que o berço dá, a cova é que tira. Ora, Vamberto de Freitas é a prova evidente disto mesmo. Ainda não conseguimos recolher prova material, mas temos a certeza de que, ao nascer, ele foi colocado de imediato num berço de livros, jornais e revistas. Ganhou-lhes o gosto e jamais os largou, tratando, pelo contrário, de os acumular à medida que os trabalhava – é impossível esquecer as pilhas que se erguiam no seu gabinete da Universidade, multiplicando o espaço das estantes, e o milagre que era vermos que ele se orientava entre esses milhares de títulos. Só assim conseguimos explicar que se tenha vindo a tornar sinónimo de cultura e de literatura açorianas. Dotado de um fino sentido de humor, Vamberto de Freitas é um intelectual comprometido com a sua terra e com as suas gentes. Com o seu conhecimento e com a sua promoção. Tivemos ambos o privilégio de o ter como colega na Universidade dos Açores, numa relação que rapidamente se alastrou para o domínio privado e da amizade pessoal. Sempre disponível para apoiar, desde a revisão de textos à identificação de fontes, com o Vamberto despertámos para a literatura e a cultura açorianas que se publica na margem ocidental do Rio Atlântico, onde tantas gerações de açorianos erguem a sua casa e situam a sua vida.
A vida e a obra do Vamberto traduzem-se num exercício de empoderamento de gerações: de estudantes, na academia açoriana, e de leitores, um pouco por todo o planeta. Com ele, ficamos todos manifestamente mais ricos, mais autónomos, daí a dívida colectiva que lhe devemos – pagável apenas com o carinho e o respeito que nos merece.
Muitos parabéns, portanto, e muitas repetições. Venham outros 75!
Abraço amigo,
Maria do Céu Fraga e Carlos Amaral
Vamberto Freitas – cruzando e alargando fronteiras
Quem segue mais ou menos de perto a vida cultural açoriana conhece a intervenção de Vamberto Freitas e a sua presença regular e actuante, atento ao que de literário se vai produzindo no pequeno-imenso universo insular. Este “pequeno-imenso” não é paradoxo fácil nem grácil, mas uma alusão ao facto de um arquipélago com menos de um quarto de milhão de habitantes persistir e insistir no cultivo de uma dominante histórica sua, a da publicação de livros. O “pequeno-imenso” tem ainda outra vertente. É que, cada vez menos, os Açores são o espaço geográfico limitado pelas águas atlânticas, pois alargam-se sobretudo para o continente norte-americano, desde os Estados Unidos e Canadá até ao Brasil, além de que desde sempre se estenderam a Portugal Continental, para lá remetendo gente sua que por regra escreveu pensando as e nas suas ilhas. É também do domínio comum que Vamberto Freitas é um produto e exemplo desse alargamento do território cultural açoriano, que ele próprio tem ajudado a construir, quanto mais não seja por procurar torná-lo conscientemente presente no imaginário insular. Tendo vivido 27 anos na Califórnia e regressado aos Açores em 1991, nunca mais se esqueceu dessa dimensão alargada que as ilhas hoje têm e que imensamente as expandiu. Ao longo de um quartel, Vamberto tem mantido altamente activo o seu radar, pouco escapando à sua sensibilidade de leitor e crítico. A sua mais de dezena de livros publicados está aí a demonstrar à saciedade quanta leitura, quanto labor, quanto entusiasmo, quanta sagacidade vão na mente e na pena deste crítico, cujo fôlego e garra ressaltam logo que, ao acaso, se abra qualquer das obras de sua autoria.
Depois de onze volumes de recolhas de actividade crítica, surge agora o décimo segundo intitulado BorderCrossings. Leituras transatlânticas (Ponta Delgada: Terras Lavadas, 2012), 300 páginas de informação reflectindo uma crescente coerência em termos teóricos, bem como de visão do mundo e da literatura. Vamberto tem acerca da literatura uma visão dinâmica, de verdadeiro fã. Adora uma boa obra literária, vibra ao lê-la, e depois sente-se impelido a arrastar os amigos (os leitores para ele são uma cadeia de amigos), procurando convencê-los a atirarem-se também à leitura com o entusiasmo que ele pôs na sua, compulsiva e contagiante se um livro para ele o é.
Este último volume navega, como as leituras do crítico, nos mares privilegiados de entre continentes. De periscópio em punho, a partir de uma ilha do Atlântico – S. Miguel – vai atentamente detectando o que se publica tanto na lusa-América como no outro lado, no velho Rectângulo, onde também vivem tantos açorianos. Escrevi ‘lusa-América”, sem precedê-la de ‘Norte’, porque o Brasil tem aqui uma presença igualmente significativa – Luiz António Assis Brasil, Lélia Nunes e Cecília Meireles, entre outros – que inclui até obras de John dos Passos e John Updike, cada qual sobre o seu Brasil. Porque é fundamentalmente sobre a escrita de matriz açoriana que incide o seu olhar, se bem que longe de em exclusivo. Alguns dos autores serão já hoje nomes mais ou menos familiares ao leitor de radar mais abrangente, outros nem tanto, e ainda sobre outros, bem apesar da sua qualidade, poucos terão vislumbres da sua existência. Tudo gente do imenso network insular, quer vivam na Califórnia, Canadá, Brasil, ou Lisboa: Fernando Aires, Frank Gaspar, Urbano Bettencourt, Antero, Julian Silva, Daniel de Sá, Victor Rui Dores, Darrell Kastin, Alfredo de Mesquita, Álamo Oliveira, Anthony De Sá, Emily Daniels, José Francisco Costa, Paula de Sousa Lima, José Medeiros Ferreira, J. H. Santos Barros, Vasco Pereira da Costa, Angela Dutra Menezes, João Brum, Millicent Borges Accardi, Francisco Cota Fagundes, Katherine Vaz, Diniz Borges, Manuel Pereira Medeiros, Joel Neto, alargado entretanto ainda a outra gente que habita, ou pelo menos frequenta, esse universo – José Rodrigues Miguéis, Jorge de Sena, Paulo da Costa, Eugénio Lisboa, Urbino de San-Payo, Nancy T. Baden, John Kinsella, Gregory Rabassa e o ever present Edmund Wilson – o grande tema da tese que Vamberto nunca escreveu em volume académico mas anda sempre escrevendo em recensões espalhadas por aqui e por ali temporariamente reunindo-as em volume, como agora.
Vasto mundo, nosso mundo este, deslocado do epicentro de Lisboa para uma ilha do meio do Atlântico escapando ao paradigma tradicional, e com referentes distintos, provenientes do inevitável contágio americano. Não é impunemente que se regressa às ilhas para ir leccionar na Universidade dos Açores, nem se pode despejar essa carga sobre o mar. Vamberto fixou-se, em verdade, no meio do rio Atlântico, a grande (e creio que mais singular) deslocação do eixo central das letras pátrias. Não pretende ser uma jangada de basalto a emigrar para as Américas, tanto assim que de lá regressou. Mas fê-lo de portas e janelas abertas para horizontes que só enriquecem o poroso, osmótico universo luso – como uma simples viagem pelos nomes atrás mencionados deixa entrever. A pátria só beneficia com isso. E deveria agradecer.
Onésimo Almeida
Vamberto Freitas puxou sempre para cima. Sem reservas e sem tréguas. Trouxe-nos as revoluções e os arquétipos, as tendências e os inconseguimentos. Mas em todos esses instantes o que esteve em causa, em primeiro lugar, foi um desafio a esta literatura, estes escritores e estes pactos para ousarem desejar ser maiores, escrever como os maiores, comparar-se com os maiores, inconformar-se com os maiores. E, sempre que falhámos, levou-o como um revés de todos nós, juntos – até um revés pessoal. Devemos-lhe isso tudo, e mesmo assim isso não é tudo quanto lhe devemos. A minha vénia e o meu abraço.
Joel Neto
Uma Vida em Estado Crítico
Vamberto Freitas tem dedicado grande parte da sua vida a ler, com rigor, o mundo que os outros pensam e escrevem. A escutar as palavras até ao seu fundo mais exigente. A exercer a crítica como forma de cuidar da literatura.
Aos setenta e cinco anos, Vamberto brinda-nos com uma lucidez intacta. Curiosidade desperta e com a sua amizade sempre fundada na partilha do pensamento.
Viver em estado crítico, no caso de Vamberto Freitas, significa fidelidade à literatura, ao pensamento, aos outros e à inteligência que recusa a facilidade.
Neste dia, celebro também o amigo que permanece para lá das páginas de jornais e de livros. Vamberto é um homem que conversa. Provoca. Acolhe e partilha, elevando a amizade para lá da extensão da crítica.
Em Vamberto, a lucidez nunca dispensou a generosidade, nem o juízo a ternura discreta.
Que o tempo te continue a conceder livros à altura da tua exigência. Ideias capazes de inquietar e renovar a literatura, mostrando-lhe caminhos. E que as amizades persistam como prova maior de que o pensamento, quando partilhado, é uma das formas mais altas de permanecer. Neste dia que celebra a tua vida, fica um abraço fraterno e a homenagem sincera de quem reconhece, na tua presença crítica, uma forma rara e necessária de fidelidade à literatura, à inteligência e à amizade.
Henrique Levy
Canção breve para os 75 anos de Vamberto Freitas
Nasceu na Ilha Terceira
Localidade as Fontinhas
E escreve à sua maneira
Junta as palavras sozinhas.
Homem de Letras completo
Nos Suplementos literários
Não desiste do seu projecto
Venham mais aniversários.
José do Carmo Francisco
Caríssimo amigo Vamberto. Que esta data em que celebras 75 primaveras, seja
repleta de felicidades e que a volta ao mundo continue por muitos anos com saúde,
prosperidade e amizades. Lembro um jovem de 26 anos, professor de português, no
Liceu de Cerritos, com quem partilhei dois dias de trabalho, nos dias 21 e 22 de Abril
de 1977, na Primeira conferência, em San Diego, Califórnia, sobre a língua e cultura
portuguesa na América.
Por coincidência fomos oradores no primeiro almoço, dois jovens entre os pilares da
comunidade que também participaram na conferencia, entre eles, Jorge de Sena, e
Eduardo Mayone Dias, entre outros. Lembro também as conferencias que se seguiram
e onde ativamente participaste em workshops, conselhos, e ideias discutidas ao
pormenor na hospitality room (quarto de trabalho), onde se fazia a analise dos
trabalhos da Conferencia, e se planeava para o futuro.
Os meus parabéns pelos teu aniversário natalício, e muito sucesso na vida.
Um abraço.
Eduardo Eusébio
Dear friend Vamberto. Best wishes for a glorious celebration of your 75 th birthday, full of
happiness and wishing that the world tour will continue for many years in good health,
prosperity, and friendships. I fondly remember a 26 year old young man, teacher at
Cerritos High School, with whom I shared two days of work on April 21and 22 of April
1977, during the first conference in San Diego, California, where we discussed the
Portuguese language and culture in America.
By coincidence, we were the speakers at the first lunch of the conference, two young
and promising immigrants among respected pillars of the community who also
participated in the conference such as Jorge de Sena, e Eduardo Mayone Dias. I also
remember the conferences that followed and where you participated and implemented
the best ideas that came from discussions in the hospitality room, the famous workroom
of the conference.
Congratulations, good friend, for your birthday and your lifetime accomplishments.
Um abraço.
Eduardo Eusébio
A vamberto Freitas nos seus 75 anos
Por um Vão Aberto
Entre linhas estreitas
Com ponto e vírgula certo
Um Viva ao ilustre Freitas
Tenrinho da Terceira
De Fontinhas sem cerimónia
Cresceu em língua estrangeira
Nos lados da Califórnia
Sem verdade absoluta
E sem medo do porquê
Promove uma sociedade culta
Com mais livros e menos ChatGPT
No Preto sobre o branco
Entre o papel e tinta
Fica o intelecto franco
Sincero e sem finta
Ontem e neste dia
Encontrar mais valores corretos
Tão bom seria
Outros tantos Vãos abertos
Por 75 nesta vida
E por outros múltiplos sem favor
Será a marca querida
Da pessoa que é crítico e escritor
Há quem passe sem rasto
Há quem marque de nódoa
Outros encantam como Fausto
Sem alfaiate ou género de moda
Com um cigarro de verdadeiro fumo
E duas páginas de letras
Damos parabéns de vinho sem sumo
Ao Vamberto Henriques Ávila Freitas
Rui Faria
Vamberto:
Entro no “Arantinho” e vejo-te numa moldura. Olho para a tua cara e sorrio. É bom ver-te neste cantinho privilegiado no sul da Ilha de Santa Catarina. És famoso entre os “manezinhos”. Muitos parabéns neste teu dia.
Manuela Marujo
Penso que a história da literatura luso-americana ainda não recebeu melhor tratamento de um homem das letras portuguesas, senão pela pena de Vamberto de Freitas. Ao meu ver, Freitas pôs em certeiro movimento todas as habilidades artísticas pelo fato de ter vivido como imigrante no Estado da Califórnia, onde se graduou e teve grandes mentores em sua jornada inspirativa. Por isso, pode construir uma ponte de duas mãos tão necessária às literaturas dos mundos anglo e luso. Esta expansão linguístico-cultural expõe as diferentes mentalidades em tempo e espaço, porém com o mesmo escopo de lastros de humanidades. Gostaria de poder dar meu forte aperto de mão pelo apreço e gratidão ao aniversariante por tudo que fez e faz pelo capítulo da Literatura da Diáspora da Língua Portuguesa pelos EUA. Parabéns pelo auspicioso dia.
Rose/Florida
VAMBERTO FREITAS E OS DIAGNÓSTICOS
Nos finais de oitenta do século passado, o nome Vamberto soou-me na voz do Onésimo T. Almeida, referindo-o como um homem do jornalismo cultural da Califórnia, sendo detentor de uma lupa perquiridora que assentava nos livros que apetecia.
Um pouco mais tarde é que vim a conhecê-lo, pessoalmente, durante um Encontro de Escritores da Maia, organizado por Daniel de Sá e Afonso Quental, quando, acabado de chegar ao quarto da pensão da Ribeira Grande, a bater à porta surge uma figura que, em lídimo rabotortês, me diz: Sou o Vamberto…De imediato, e porque havia denso capacete meteorológico, logo sugeri que fôssemos a um café. Bebemos, então, com demoras de tempo mole, umas radiosas águas refrescantes e tentadoras – das Lombadas? da Serra do Trigo?…O que é certo é que o meu jucundo companheiro revelou-se como amigo. E assim o tenho para sempre.
A literatura proporcionou outros encontros nos Açores e na Califórnia que a memória registou: um espectacular happening sobre um livro de Álamo de Oliveira em que os poemas navegavam nas mágicas luzes das noites de Tulare, durante os Filamentos da Herança Atlântica que, durante uma década, o empenhado e valoroso Dinis Borges gastava as energias quixotescas em prol da Cultura; um diálogo encenado, em Sanjose em que uma bicicleta ia simbolizando a censura textual…
Ora, foi num dos Encontros da Maia que Vamberto conheceu a sua Adelaide. Tempos depois, recebi uma carta em que Ela agradecia-me ter-lhe apresentado o Vamberto: há lá coisa mais bonita que testemunhar um grande amor!
Contudo, a este filão emocional, que muito prezo, devo acrescentar a admiração pela actividade do crítico literário Vamberto Freitas.
O papel do crítico literário é crucial no mundo da literatura e ao longo dos anos que Vamberto Freitas vem oferecendo análises fundamentais às novidades que saem do prelo, seja na área da literatura portuguesa seja da actual literatura em língua inglesa. Trata-se de uma actividade legatária que fornece pistas de leitura e alerta para as subtilezas dos textos. Vamberto Freitas, deste modo, articula opiniões fundamentadas que ajudam à compreensão dos livros, dos temas, das técnicas, do contexto geográfico, histórico e cultural, das inovações que a arte proporciona. A ele fica a dever-se a divulgação de edições de autores nascidos ou de temática açoriana e de descendentes de açorianos nos Estados Unidos da América e Canadá, ao mesmo tempo que alerta os editores para obras importantes das literaturas em língua inglesa contemporânea.
Durante muitos anos, foi assíduo colaborador do Diário de Notícias e revelou-se um continuador desse mestre da crítica literária que foi João Gaspar Simões, posto que as suas impressões eram baseadas no conhecimento da essência da comunicação, recorrendo a uma estratégia de esclarecimentos das virtualidades dos textos, de uma forma pragmática, com fundamentos estéticos, sem recurso a análises anatómicas, isto é, não tratando o livro como um cadáver comunicacional.
E acção tenaz de Vamberto Freitas estende-se também aos suplementos literários que a História da Cultura não pode omitir. Refiro o SAC- Suplemento Açoriano de Cultura e ao SAAl – Suplemento Açoriano de Artes e Letras.
Sem crítica, o escritor ficaria desamparado, porque permaneceria alheio à dinâmica entre a escrita e a leitura; ficaria embaraçado sem saber se haveria de continuar a escrever. Como escreveu H. R. Jauss o texto refaz-se no acto de leitura através de uma cumplicidade entre autor, crítico e leitor.
Para terminar, tenho que confessar a amizade que nutro pelo Vamberto: somos terceirenses, quero dizer, temos um torrão comum; Manuel Ferrera Duarte irmanou-nos no seu livro A Banda e Outras Histórias como personagens de uma filarmónica; dispomos de confidências e cumplicidades que, obviamente, apenas a cada um pertencem; e temos ajustado um encontro em casa das tias das Fontinhas – Carmenita e Altésia – olhando o infindo Mar do Norte, sentados, serrando a conversa no balcão sobranceiro ao porto da baía. Aí, sob uma latada, à boquinha da noite, resolveremos as questões mais inquietantes da literatura. E , até, do mundo.
Vasco Pereira da Costa
Vila Nova da Barca, no que de maio resta.
A Vamberto Freitas
(Com a ajuda de João de Deus)
Ora caíste na asneira
de fazer em próxima sexta-feira
75 anos- grande disparate!…
e não há quem tos desate…
Não caias nessa! – faz críticas
impressionistas e analíticas,
digressões estilísticas,
com brandura ou bravura,
que tu próprio és uma literatura.
Vai-te aos géníos dos romances
A novos poemas…mas foge dos versos dos tansos.
Não sejas nunca um crítico
eremítico metafísico casuístico
e muito menos demótico estrambólico
exótico gótico e semiótico.
Não te ponhas a olhar o mar
Onde passam navios para onde ninguém quer estar.
Visita as tuas tias,
Carmenita e Mrs. Boulevard,
Senhoras de boas mordomias,
herdeiras de paralelísticas poesias.
Vai no teu iate ver os saltos das toninhas
que saltam na baía das Fontinhas.
E quando chegares à marina da tua freguesia
as santas tias estarão à tua espera.
Lá de casa vê-se toda a estratosfera…
Então resolverás o indecifrável teorema
da literatura suprema
enquanto bebes chá e uma fatia de bolo.
Mas não faças anos, não sejas tolo!
Obrigado, Vamberto Freitas
O estabelecimento de um cânone literário é uma questão sensível e polémica
que agita permanentemente os meios culturais, em especial os académicos,
dando azo a acesas discussões e, não raro, a diálogos inflamados e emotivas
cisões entre contendores apaixonados. Um cânone não é um gesto neutro nem
exclusivamente estético; resulta, antes, de um processo cumulativo de
participações em que convergem o tempo, a crítica, as instituições e a
persistência das obras, bem como — e não menos importante — a resiliência
dos autores. Um cânone forma-se quando determinados textos deixam de ser
apenas livros e passam a funcionar como referências simbólicas: obras que
estruturam a leitura de uma tradição, resistem à erosão do tempo e são
continuamente retomadas, discutidas, ensinadas e reeditadas. Este processo
implica sempre escolhas e exclusões, revelando relações de poder cultural e
disputas de legitimidade, sobretudo quando se trata de literaturas periféricas ou
regionais, como é o caso particular dessa coisa em forma de bruma chamada
Literatura Açoriana.
Ora, neste affair da literatura açoriana, a questão central, hoje, não é a sua
existência — longa, diversa e consistente — mas o seu reconhecimento
enquanto corpo literário específico, dotado de coerência histórica, densidade
temática e autonomia simbólica. Essa especificidade constrói-se pela
continuidade geracional, pela inscrição da insularidade, ou açorianidade, se
quisermos, como condição existencial (e não mero cenário ou adereço), por
marcas rítmicas e discursivas próprias e por uma consciência crítica da
identidade açoriana que recusa tanto o folclore como a autocomplacência. Uma
literatura afirma-se plenamente quando é capaz de se pensar a si mesma,
interrogando os seus mitos fundadores e a sua posição face ao centro cultural
e, no caso concreto de uma literatura de matriz insular atlântica, face a uma
dupla periferia: lusitana e europeia, mas também anglo-saxónica e americana.
É neste contexto de uma dicotomia geoestratégica da língua e da literatura que
o papel do Professor Vamberto Freitas se torna decisivo, nos últimos anos, na
definição dos azimutes próprios da afirmação de uma literatura açoriana e da
sua autonomia face aos polos centralizadores da sua existência. Mais do que
como académico ou ensaísta isolado, a sua intervenção tem sido a de um
mediador persistente entre obras, autores, leitores e instituições. Através de
uma crítica literária contínua, exigente e publicamente visível, Vamberto Freitas
contribuiu para a legitimação da literatura açoriana como campo de reflexão
estética e não como simples variante regional da literatura portuguesa. O seu
trabalho ajudou a fixar autores, a estabelecer diálogos entre gerações, e entre
margens desse grande mar atlântico, a criar critérios de leitura e a inscrever a
literatura açoriana no debate crítico nacional e internacional.
Ao exercer uma crítica regular, informada e assumidamente situada, Vamberto
Freitas não se limitou a comentar livros: ajudou a construir uma narrativa de
tradição, condição essencial para qualquer cânone. Num espaço marcado pela
dispersão geográfica e pela histórica marginalização cultural, essa persistência
crítica revelou-se fundamental para transformar produção literária em
património simbólico. Assim, o reconhecimento contemporâneo da Literatura
Açoriana como género de pleno direito deve-se, em larga medida, a esse
trabalho de longa duração, em que a crítica funciona não como ornamento,
mas como verdadeiro ato fundador.
No meu caso pessoal, o Professor Vamberto Freitas foi sempre mais do que
um leitor atento e um crítico culto, informado e supremamente digno: foi, acima
de tudo, um amigo que, através do seu estímulo permanente, me permitiu a
afirmação não apenas como cronista, mas como autor. Por tudo isto, nesta
data simbólica, o meu profundo e sentido agradecimento.
Vila Franca do Campo, 4 de fevereiro de 2026
Pedro Arruda

