
Logo que tive conhecimento da publicação do romance vencedor do prémio Vitorino Nemésio, Irma [Ponta Delgada: Letras Lavadas Editores, 2025], contactei a Livraria para o adquirir. Ao receber a encomenda, surpreendeu-me a extensão da obra, um volume com 493 páginas, mas a vontade de me lançar na sua leitura manteve-se acesa, porque logo me ocorreu que, tendo sido atribuído ao autor aquele prémio criado pelo Parlamento Regional dos Açores, ainda por cima na sua primeira edição, o romance devia ser de grande qualidade. A leitura do livro confirmou largamente a minha convicção.
Logo nas primeiras páginas se percebe que esta obra deve ter tido um longo tempo de amadurecimento, que tem por detrás uma vastíssima investigação e que o escritor tem um grande domínio da escrita e é dotado de fértil imaginação, o que lhe permitiu criar uma trama narrativa tão admirável. As personagens têm uma densidade humana tão bem conseguida que o leitor tem a impressão de que são gente de carne e osso, o que é fundamental para que uma obra de ficção ganhe realismo. Desse ponto de vista, a heroína da estória, Irma, aparece em grande destaque e faz lembrar, em termos de “dimensão e consistência”, a Margarida de Mau Tempo no Canal, já que estamos perante um romance cujo autor foi galardoado com o prémio que leva o nome do grande escritor açoriano. Outra personagem do romance com notável grandeza é Lourenço, tio/pai de Irma, cuja psicologia, visão e história de vida lhe dá uma solidez que leva o leitor a sentir que está perante alguém que, efetivamente, existiu.
Sobre a escrita, o texto é de uma qualidade superior; é rica, expressiva, com um domínio vocabular e sentido de ritmo de assinalar. Atente-se no primeiro parágrafo da obra: “Naquelas eras em que tudo começava para as ilhas, o contacto entre os seres fazia-se titubeante, contaminado por receios mútuos: os homens desconfiando da adversidade do ambiente, as aves e os animais marinhos testemunhando silenciosamente o pulsar de cada lance dos humanos. Chegavam à Ilha de Jesus gentes em embarcações oriundas de uma terra que parecia não querer acabar de tomar forma definitiva, cujo nome – Portugal – apenas alguns sentiam como sua” (p. 13). Para além da qualidade da escrita patente na citação, repare-se na quantidade de informação nela condensada que uma pausa permitirá ao leitor sentir que os povoadores tinham chegado a um mundo virgem, cujo entendimento só lentamente se iria construindo. Tocou-me profundamente a capacidade do romancista de colocar o leitor na geografia física e humana das primeiras gerações dos povoadores. A descrição da paisagem, do trabalho de arroteamento, da organização social, das relações complexas entre terratenentes, os senhores com pretensões de origem fidalga, e os verdadeiros trabalhadores da terra; aliás, as disputas das terras é uma das problemáticas discutidas no romance. A cultura ambiente vivida pelas primeiras gerações de povoadores é descrita com grande realismo; a presença intensa da Igreja, dando particular realce aos franciscanos que acompanharam os povoadores. Entre muitos outros artifícios para sugerir esse ambiente religioso, o autor usa as designações canónicas das horas para medir o tempo do dia: Laudes, Terça, Sexta, Nona, Vésperas e Completas. A par deste cristianismo dirigido pela hierarquia, encontramos uma outra vivência do religioso cristão, essa tão particular dos açorianos: o culto do Espírito Santo, ainda hoje arreigado ao povo das Ilhas, e a “indisciplina” das suas irmandades perante as autoridades da hierarquia católica, marca sempre referida quando se fala do “Senhor Espírito Santo”, como sempre se dizia no meu tempo de criança. Aliás, a estória do romance tem como um dos temas centrais esse culto e a vivência tão particular do espírito de igualdade e fraternidades que une os irmãos dessas irmandades. O embate entre estas duas perspetivas é sempre sublinhado quando se fala sobre as Festas do Divino. Ainda criança, assisti ao que terá sido, porventura, o último confronto desta natureza. Foi na década de 50, era bispo de Angra Dom Manuel Afonso de Carvalho que, com a falta de tato que o caracterizava, tentou introduzir alguma disciplina nesse culto. A reação foi tremenda e as Irmandades entraram em pulverosa no arquipélago, só escapando à convulsão as das paróquias que tinham párocos de grande bom senso e capacidade de diálogo, como foi o caso da Praia da Vitória, cujo pároco, o Padre Cândido Botelho Falcão, com a sua prudência e diplomacia, levou a barca a bom porto e, na Praia, as quatro Irmandades existentes continuaram a funcionar sem qualquer sobressalto. Em termos de diocese, a paz geral demorou anos a regressar.
É interessantíssima a estória das irmandades que o romance conta, a sua organização e o seu espírito. Parece não haver dúvidas de que as Festas foram levadas para os Açores pelos franciscanos e constituem um dos elementos fundamentais da mundividência dos açorianos e que, contraventos e marés, resistem e acompanham a vida nas ilhas e na diáspora.
A minha geração ainda foi criada num ambiente pentecostal, muito bem descrito no romance, e que alimentava a nossa capacidade de sonhar e de nos sentirmos acompanhados, mesmo perante as maiores tragédias: abalos de terra, erupções vulcânicas, tempestades em que o mar entrava pela terra dentro, uma doença grave ou qualquer aflição que nos assaltava a vida. Deus, na pessoa do Espírito Santo, reunia-nos em irmandade, sociedades regidas pelos princípios de igualdade e do amor ao próximo, num convívio em que temor e espírito festeiro conviviam em perfeita harmonia.
O que mais me entusiasmou na leitura do romance foi a capacidade do narrador de contar uma estória com um tal realismo que me permitia ser eu mais um dos que faziam parte dos primeiros povoadores da Terceira, ou que estava a ver um filme sobre a época histórica em que decorre o romance: as paisagens; o arroteamento das terras; as casas primitivas e a sua melhoria; as viagens pelos caminhos da Terceira, em pormenor nas idas dos Regatos a Angra; a evolução da sociedade em termos económicos, culturais e a organização dos diversos grupos sociais; Angra e o seu desenvolvimento enquanto urbe e nó da navegação da expansão portuguesa, o que teve enorme importância para o seu desenvolvimento.
A ação do romance, contudo, não decore apenas nos Açores. A ilha Terceira está no centro da narrativa, mas, significativamente, o autor descreve uma visita de Irma a São Miguel durante a qual se dá o grande sismo de Vila Franca, na noite de 21 para 22 de outubro de 1522, que marcou definitivamente a ilha sob vários aspetos. Há uma ida da protagonista a Lisboa, para diligências ligadas à vida das Irmandades do Espírito Santo (pp. 299 e ss). Essa viagem da heroína à Capital do Império é aproveitada pelo escritor para descrever a cidade daquela época. O realismo dessa descrição é tal que o leitor se sente a acompanhar Irma e Nicolau, o frade franciscano, pelas ruas de Lisboa e arredores. As ligações dos Açores ao Norte de África também são referidas no romance. Lourenço por lá andou e Gonçalo, marido de Irma, é para lá que vai à procura de aventura. Até a realidade da Europa daquela época não escapa à visão do mundo que o autor quer retratar.
O que digo nesta crónica dá, apenas, uma pálida imagem do romance. O tempo histórico em que decorre a ação permite ao leitor aperceber-se do que terá sido a aventura do povoamento das ilhas. As personagens criadas mostram o que era a vida naqueles tempos iniciais da sociedade açoriana, mas, simultaneamente, permitem uma reflexão sobre o ser humano, o de ontem e de hoje. O seu autor, António Avelar, é um nome a reter. Aguardemos o seu próximo livro de ficção.
Braga, fevereiro de 2026
José Henrique Silveira de Brito
