
OPERAÇÃO PAPAGAIO =- Novo Livro de Cândido Franco
O ponto de partida deste livro de António Cândido Franco (n.1956) com 91 páginas é uma citação de Holderlin «Poetas para quê, no tempo da miséria?» e termina com uma advertência: «Qualquer semelhança com a realidade de acordo com a técnica do etc e tal é mera carnavalização involuntária.» Esta «Operação Papagaio» é definida como um poema documental e tem os seus antecedentes em 1899 com a Operação Doutor Faustroll em Paris e a Operação Caracol em 1961 no Café Gelo em Lisboa. Definido o objectivo (captura poética de hipertexto) e as regras (nenhuma concessão à realidade, nenhuma concessão à racionalização), os materiais usados são os seguintes: pareceres científicos, relatórios públicos, actas e comunicados, notas de imprensa telejornais, noticiários, autos de polícia, fichas médicas, protocolos hospitalares, diários da República, códigos jurídicos, acordos ortográficos, acordos judiciais, breviários militares e livros de culinária. Como se sabe o papagaio caracteriza-se por repetir palavras e há neste livro muita ironia e muito sarcasmo numa clara homenagem ao Surrealismo. Quando Cesário Verde se queixou ao seu amigo Macedo Papança que a Imprensa valia um desdém solene não sabia que o primeiro jornal a publicar um poema de Fernando Pessoa lhe trocou o nome e e chamou-lhe Pessoa Nogueira em vez de Nogueira Pessoa. Cesário Verde e Camilo Pessanha são mais importantes que Cláudio Nunes e Augusto Gil. Uns são fortes, outros são fracos. Fernando J.B. Martinho chamava aos poetas fracos figurões; Cristovam Pavia chamava aos poetas fortes mastigadores do Mundo. O pó é para todos; a posteridade é só para alguns. É aí que bate o ponto. Edição Officium Lectionis, capa de Maria Helena Vieira da Silva.
José do Carmo Francisco, escritor
