Chet Baker na Rua do Carmo por José do Carmo Francisco.

Em resumo 18

Uma destas manhãs desci a Rua do Carmo, vinha a dormir em pé quando sou despertado pelo som de duas baladas do trompetista Chet Baker tocadas por um músico português (Cláudio Gomes de seu nome) que elevava o som da trompete ao timbre e à altura da voz (se assim se pode dizer) de um tempo que não passou. Habituado desde criança ao convívio diário com cornetins, fliscornes e trompetes numa casa de músicos onde a minha avó materna tinha a musical alcunha de «Flauta», tenho ainda hoje um dos meus primos direitos que garbosamente toca o tema «Voluntary Trumpet» em casamentos seja numa Igreja de Óbidos ou no Mosteiro de Alcobaça. De repente a Rua do Carmo já era outra coisa: era uma rua de uma aldeia da Estremadura onde uma Filarmónica dali perto fez os três serviços da ordem: peditório, procissão e arraial. Só faltam o sol e o pó, as cavacas doces e as pevides salgadas como as lágrimas invisíveis de quem, como eu, deixou com alguma pena apenas um euro na caixinha do músico português que tocou dois temas de Chet Baker na Rua do Carmo. Claro que não tocou só para mim, tocou para todos incluindo os que passavam com alguma pressa na perseguição dos seus interesses mais importantes mas eu sinto que foi para mim, apenas e só para mim. A música é uma das coisas mais importantes da vida. Trata-se de uma opinião mas para mim um dia sem música é um dia a menos na contabilidade sentimental de quem como eu não pode passar sem ela. Claro que todas as outras artes são importantes e ainda hoje há quem chame sétima arte ao Cinema mas a mais importante é a Música. Em resumo eu tive Chet Baker na Rua do Carmo.

José do Carmo Francisco, escritor

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