
OUTRORA
Ficava lá ao longe aquela serra. Ficava
ao longe muito perto da minha janela e do quintal
da madrinha Francisca. Ficava
entre as laranjeiras do quintal e às vezes
era de noite, lá estaria
pensava eu. Às vezes eu
pensava se haveria serras assim noutros lugares, mas
nem sabia que era uma serra. Lá estava entre os pinheiros
da estrada da volta à serra, que era uma outra
mais pequena ou seja
muito maior porque era mais perto e eu
ainda não sabia perspectiva
nem matemática, nem
sequer geografia: mas conhecia bem
a loja do senhor Buxita e dali
a serra à tarde encontrava-a por cima da prateleira
dos rebuçados de frutas.
A serra agora
ainda está no mesmo sítio, mas como em geral vou
de carro, a serra sempre a vejo junto do espelho
retrovisor e como escolho sempre a estrada
da piscina do Reguengo, a serra fica entre oliveiras e
também já a vi
entre as folhas e os ouriços dos castanheiros no outono
Como daquela vez há anos quando fui tirar
um retrato no dia
do baptizado do meu irmão perto daquela fonte
da fonte da Nave Fria e ele chorou.
FOTO DE ABRIL
O pai chegava tarde…A mãe e os avós
(que o mano era pequeno) estavam sempre comigo.
Então o pai chegava, perguntava da escola
perguntava das coisas que a mãe lhe sussurrava.
A escola era a Escola onde eu agora andava.
E a mãe pela manhã falava devagar
arranjava-me o lanche, chamava-lhe merenda
e eu ia no autocarro (sem o mano que tinha)
Eu não sabia de anos só sabia de meses
– o que a mãe me ensinara e que na escola aprendia –
(o mano era pequeno!) eu jogava sozinho.
O pai que vinha tarde não jogava comigo.
E o pai que vinha tarde mesmo se era Domingo
chegou perto da porta na manhã daquele dia.
Havia gente na rua e gente que gritava
E na televisão muitos desconhecidos.
E o pai depois daquilo disse-me: anda jogar
Anda jogar meu filho pois já não há fascismo.
E o pai que vinha tarde jogou comigo à bola
na rua da Amoreira a rua pequenina
E a mãe chorou ao ver-nos e eu não a entendia
a mãe que era só minha (e do mano que havia)
Eu sabia de meses mas não sabia de anos
E jogava com o pai pois já não há fascismo
A avó não gritava Levava-me p’la mão
até ao autocarro E para a Escolas eu ia
Sozinho ia p’rá Escola (o mano era pequeno…)
– E eu e o pai jogávamos quando eu de lá vinha
Jogávamos jogávamos – eu e o pai jogávamos
E o mano (era pequeno!) olhava sentadinho
E a mãe também por vezes nos olhava a jogar
Pois já não há fascismo Pois já não há fascismo!
in “Os versos do Zé Povão”
