Dois Poemas de João Garção

OUTRORA

Ficava lá ao longe aquela serra. Ficava

ao longe muito perto da minha janela e do quintal

da madrinha Francisca. Ficava

entre as laranjeiras do quintal e às vezes

era de noite, lá estaria

pensava eu. Às vezes eu

pensava se haveria serras assim noutros lugares, mas

nem sabia que era uma serra. Lá estava entre os pinheiros

da estrada da volta à serra, que era uma outra

mais pequena ou seja

muito maior porque era mais perto e eu

ainda não sabia perspectiva

nem matemática, nem

sequer geografia: mas conhecia bem

a loja do senhor Buxita e dali

a serra à tarde encontrava-a por cima da prateleira

dos rebuçados de frutas.

A serra agora

ainda está no mesmo sítio, mas como em geral vou

de carro, a serra sempre a vejo junto do espelho

retrovisor e como escolho sempre a estrada

da piscina do Reguengo, a serra fica entre oliveiras e

também já a vi

entre as folhas e os ouriços dos castanheiros no outono

Como daquela vez há anos quando fui tirar

um retrato no dia

do baptizado do meu irmão   perto daquela fonte

da fonte da Nave Fria    e ele chorou.

FOTO DE ABRIL

O pai chegava tarde…A mãe e os avós

(que o mano era pequeno) estavam sempre comigo.

Então o pai chegava, perguntava da escola

perguntava das coisas que a mãe lhe sussurrava.

A escola era a Escola onde eu agora andava.

E a mãe pela manhã falava devagar

arranjava-me o lanche, chamava-lhe merenda

e eu ia no autocarro (sem o mano que tinha)

Eu não sabia de anos    só sabia de meses

– o que a mãe me ensinara e que na escola aprendia –

(o mano era pequeno!) eu jogava sozinho.

O pai que vinha tarde não jogava comigo.

E o pai que vinha tarde    mesmo se era Domingo

chegou perto da porta na manhã daquele dia.

Havia gente na rua    e gente que gritava

E na televisão     muitos desconhecidos.

E o pai depois daquilo     disse-me: anda jogar

Anda jogar meu filho    pois já não há fascismo.

E o pai que vinha tarde jogou comigo à bola

na rua da Amoreira    a rua pequenina

E a mãe chorou ao ver-nos    e eu não a entendia

a mãe que era só minha (e do mano que havia)

Eu sabia de meses    mas não sabia de anos

E jogava com o pai    pois já não há fascismo

A avó não gritava    Levava-me p’la mão

até ao autocarro    E para a Escolas eu ia

Sozinho ia p’rá Escola (o mano era pequeno…)

– E eu e o pai jogávamos quando eu de lá vinha

Jogávamos jogávamos – eu e o pai jogávamos

E o mano (era pequeno!) olhava sentadinho

E a mãe também por vezes nos olhava a jogar

Pois já não há fascismo    Pois já não há fascismo!

in “Os versos do Zé Povão”

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