
Em resumo 17
Passado o choque de ouvir em 7 de Outubro de 1972 um maqueiro a cantar «Adeus Guiné» do Conjunto Armindo Campos acabei por me integrar bem no Hospital Militar de Évora. A minha Guiné era a Guiné do Pidjiguiti, o cais onde em 1959 foram assassinados entre 40 e 70 estivadores do Porto de Bissau a quem o Delegado da Casa Gouveia negou o aumento que tinha sido confirmado pelo Administrador de Lisboa na sua passagem pela capital de Província. Um simples Delegado entendeu não cumprir a promessa do Administrador. A minha ligação às pessoas demorou dois anos e envolveu oficiais, sargentos e praças. Fiz amizade com os capitães Afonso e Matias, com o alferes Nogueira, com os sargentos Patinhas, Simões, Toscano, Silva e Rézio, com os cabos milicianos Raposo e Fernandes, com os soldados António, Adalberto e Xavier. E com os médicos como o doutor Malaquias. O doutor Malaquias, perante um caso bicudo, respondia logo «Isso é psico-somático!» e se a conversa chegava às questões comportamentais avançava com a teoria do filho único – são aqueles que mesmo tendo irmãos são preguiçosos, egoístas, egocêntricos e caprichosos. O Raposo escrevia cartas à família em Cércio (Duas Igrejas) sempre em Mirandês. O Fernandes falava do seu Fomento Mineiro em Beja. O sargento Rézio falava de um amigo da minha mãe (Octaviano era o nome) que tinha sido cabo correeiro e obteve (por despacho do ministro) a sua contagem de tempo como se tivesse estado sempre no Serviço de Saúde. Dizia o sargento Rézio, conformado com a situação «Quem não sabe ser caixeiro fecha a loja. Não há nada a fazer». Em resumo «É cada qual por si».
José do Carmo Francisco, escritor
