
Saiu na Harper’s Magazine, volume 54, números 322 e 323, páginas 546-557 e 664-676, de Março e Abril de 1877. Chama-se «A summer cruise among the Atlantic islands», e foi escrito pelo Dr. Albert Leary Gihon (Filadélfia, condado de Filadélfia, Pensilvânia, EUA, 6 de Junho de 1833 —Nova Iorque, condado de Nova Iorque, Nova Iorque, EUA, 17 de Novembro de 1901). A primeira parte deste artigo descreve os Açores. Como o artigo tem vários aspectos que o distinguem de outras descrições de viajantes pelos Açores, publico-o aqui, no original [omitido por falta de espaço] e em tradução anotada.
Não sabemos exactamente quando Gihon passou nos Açores[1], mas deve-o ter feito várias vezes. O certo é que é uma personagem fascinante. Com um mestrado em humanidades e um curso de medicina, trabalhou como cirurgião a bordo de navios da Marinha dos EUA, inclusive durante a Guerra Civil Americana. Pugnou, enquanto médico, pela higiene a bordo. Escreveu sobre o assunto e publicou um bom número de artigos relacionados com este tema. Escreveu uma boa descrição da Lisboa que publicou também na Harper’s Magazine. Um irmão foi um famoso fotógrafo e dois dos seus filhos fizeram carreira como pintores em França.
Podia escrever-lhe uma mais extensa biografia, com tudo o que está disponível na web. Mas houve já quem o fizesse melhor do que eu o faria. Em 2019, na revista Military Images, volume 37, número 4, páginas 40 a 45, Ronald S. Coddington publicou o artigo «Cultural Ambassador: On diplomacy’s front lines in Morocco and elsewhere with Albert L. Gihon, U.S. Navy», ou seja, «Embaixador Cultural: Nas linhas da frente da diplomacia em Marrocos e noutras paragens com Albert L. Gihon, da Marinha dos EUA». Coddington escreve este artigo a propósito de uma fotografia intrigante de Gihon. No processo, faz-lhe uma excelente biografia e pinta a sua vida de forma brilhante. Como essa biografia de Coddington é demasiado extensa para a publicar aqui, deixo aqui ligações para ela. Não deixem de a ler ou no original, em https://bit.ly/3NJDHQV, ou em tradução anotada, em https://bit.ly/gihon2019. Uma outra biografia de Gihon saiu no Buffalo Medical Journal em 1901, na forma de obituário. Está disponível no original e em tradução (ainda por anotar) em https://bit.ly/gihon1901, por falta de espaço aqui. Muitas outras biografias saíram por ocasião da sua reforma e da sua morte, mas esta, por alguma razão, chamou a minha atenção.

Um Cruzeiro de Verão entre as Ilhas do Atlântico
I. — OS AÇORES.
O estudante de geografia, ao lançar o seu primeiro olhar sobre o mapa do mundo, não pode deixar de notar a marcada diferença no aspecto físico das duas grandes massas de água que separam os continentes. Enquanto o oceano maior[2] é em toda a parte densamente cravejado de ilhas, o Atlântico é uma larga e quase ininterrupta extensão de água. Cinco pequenos e muito distantes rochedos espalham-se pela porção a sul do equador[3]. Excluindo as Índias Ocidentais, que se agrupam, muito para ocidente, dentro de uma reentrância da linha continental, compreendem todas as ilhas do Atlântico Norte apenas as Bermudas, perto da nossa própria costa, e quatro extensos arquipélagos e dois ilhéus, no terço oriental para lá das quinhentas mil milhas quadradas de algas flutuantes do Mar dos Sargaços.
Estes arquipélagos, dos Açores, da Madeira, das Canárias e de Cabo Verde, bem como as pequenas Selvagens, encontram-se relativamente perto uns dos outros e são considerados pelos geólogos como cumes expostos de submersas cordilheiras, em continuidade com as terras altas do continente africano. Estas ilhas são compensadas do seu isolamento por climas que as tornaram «ilhas afortunadas»[4]. Se o continente vizinho tem apenas rochas estéreis e areias ardentes[5], ventos abrasadores e céus causticantes, já as ilhas são revestidas de perpétua verdura, o ar fragrante com o perfume das flores, deleitando-se o olhar por toda a parte com as formas da própria beleza. As influências da Corrente do Golfo e dos alísios, da vastidão de águas circundante e da adjacente cintura ininterrupta de terra, produziram estes resultados e estabeleceram condições que, nesta latitude provavelmente melhor do que em qualquer outra, tornaram os seus climas os mais deleitosos e salubres da terra. Em anos recentes elas tornaram-se a estância de enfermos abastados, que aqui respiram um ar tão balsâmico e revigorante que o seu fardo de dor é fortemente aliviado e as suas frágeis vidas são prolongadas por muitos anos.
Os Açores (ou As Ilhas dos Açores)[6], Ilhas Ocidentais, Flamingos [sic] ou Ilhas Flamengas, situam-se entre os paralelos 36.º e 40.º de latitude norte e os meridianos 25.º e 31.º de longitude oeste de Greenwich[7]. São em número de nove e estão dispostas em três grupos: as Flores, a mais ocidental, e o Corvo, a mais setentrional, formam um; cento e catorze milhas[8] a sudeste deste grupo encontra-se o grupo central, consistindo no Faial, no Pico, em São Jorge, na Graciosa e na Terceira; e setenta milhas[9] mais para sul e para nascente encontram-se São Miguel e Santa Maria, o terceiro grupo. Em 1431, Joshua Vanderberg, um mercador flamengo numa viagem para Lisboa, foi levado pelo mau tempo às suas costas e, comunicando a sua descoberta à chegada a Lisboa, o governo português, entrando então naquela maravilhosa curso de aventuras que levou a sua bandeira, antes do fecho do século, ao outro hemisfério, equipou uma expedição que, no mesmo ano, descobriu os ilhéus rochosos chamados Formigas, a vinte milhas de Santa Maria, que foi visitada alguns meses mais tarde.
A ilha da Flores, erguendo-se como um posto avançado no grande oceano, serve para muito viandante nesta estrada sem trilhos confirmar o quanto o possam ter desviado o seu cronómetro ou a sua aritmética, permitindo-lhe reiniciar o balanço da sua viagem. Embora seja tão bela em aparência que mereça a sua floral designação e possua algumas fontes sulfurosas interessantes — relíquias do grande drama vulcânico em que, com as suas irmãs, outrora tomou parte — é raramente visitada, excepto por algum capitão baleeiro americano que entre no seu pequeno porto aberto para adquirir mantimentos, que aqui conseguirá obter mais baratos do que em qualquer outro lugar. Na sua vizinha de seis por três milhas[10] — o Corvo —, à falta de outro interesse, há a lenda de que, quando foi pela primeira vez visitada, se encontrou no seu cume uma estátua equestre em mármore, a mão do cavaleiro apontando para ocidente, tendo-se-lhe por isso chamado Ilha do Marco[11], visto que parecia dirigir o navegador para esse grande mundo ocidental então não sonhado, salvo por espíritos aventureiros como o de Cristóvão Colombo.
Em circunstâncias favoráveis, a travessia de Boston para o Faial, 2000 milhas[12], demora entre dez a uma quinzena de dias. Durante muitos anos manteve-se comunicação regular entre os dois locais através de um paquete[13] poeticamente apelidado pelos ilhéus como a «Ponte dos Dabney». Embora não seja a mais extensa, nem a mais populosa, nem tão pouco a mais produtiva do grupo, o Faial possui maior interesse para os americanos do que qualquer outra ilha. É o ponto de encontro central da grande frota de baleeiros americanos que pescam nestas águas, e é a sede do nosso consulado, que tem estado por três gerações entregue a uma família cujos talentos, virtudes e iniciativa tanto nobilitaram o cargo que ocuparam, e cuja genuína devoção às instituições republicanas demonstrou que tais consulados não tendem inevitavelmente para a desnacionalização dos seus titulares[14].
O Faial (o nome é um derivado da árvore faia) é quase redonda de forma, medindo o seu diâmetro, em média, entre doze e quinze milhas[15]. A população da ilha não chega às trinta mil pessoas, das quais talvez um terço resida na Horta, a capital, enquanto as restantes estão espalhadas em choupanas rudemente construídas, em quintas[16] isoladas e em nove ou dez outras povoações, das quais os Flamengos, cerca de uma milha para o interior da Horta, é a povoação mais atraente. «Flamengo» é a palavra portuguesa para «fleming» que, usada neste caso, denota aquilo que tão frequentemente se vê nos ilhéus de olhos azuis, cabelos claros e rosto redondo: o seu povoamento inicial por colonos da Flandres, que não deixaram a sua marca saxónica apenas nas feições dos seus descendentes, mas também nas suas mentes impregnadas com aquele amor à liberdade que os torna notáveis entre os súbditos de Portugal pela sua firme resistência aos fardos opressivos com que as monarquias em decadência procuram sustentar-se. As próprias mulheres do Faial se revoltaram, não há muitos anos, perante uma nova demonstração de tirania, quando o governo português aumentou os já onerosos impostos, jurando que os seus maridos os não pagariam[17]. Arrebatando a proclamação do rei das mãos do Governador, rasgaram-na na sua cara. Os soldados foram chamados, dispararam galantemente os seus mosquetes para o ar, esperando intimidar as matronas enfurecidas, mas foram surpreendidos ao se verem rapidamente desarmados e sovados.
A Horta é uma pequena cidade asseada, com o seu modesto arranjo de quarteirões de sossegadas casas estendendo-se para o sul numa única rua estreita e interminável onde se centram todos os negócios. As casas são pequenas, de pedra simples, com telhados de telha e beirais sem ornamentação, e com padieiras[18] generosamente pintadas de verde e amarelo. Portas enormes, toscas e reforçadas a ferro dão acesso a muitos alegres círculos familiares onde os forasteiros são sempre recebidos com hospitalidade, enquanto por trás das rudes persianas venezianas espreitam, num serão de Verão, mais rostos bonitos do que os que ordinariamente saem em sorte a uma cidade de menos de dez mil habitantes. E nem são os seus olhos e espessas tranças os únicos encantos das belas hortenses. Tiraram o máximo partido das suas limitadas oportunidades educativas, e poucas jovens senhoras falam com fluência menos de duas línguas estrangeiras. Dificilmente se poderia esperar que uma pequena localidade insular resplandecesse de luz e ecoasse bulício, mas não partilho o ódio atribuído àquele visitante estranjeiro que, escrevendo sobre a sua estadia entre eles, descreveu a comunidade como deitando-se às oito horas por falta de estímulos para se manter acordada.
Por muito frequentemente, e em qualquer estação, que o Faial possa ser visitado, o forasteiro achará a vista do fundeadouro surpreendentemente bela. Quando a baía é agitada por um daqueles furiosos vendavais que são comuns na estação invernosa, e o forasteiro se encontra confortavelmente instalado no pequeno e doméstico hotel, a cena é de uma grandiosidade insuperável. A muralha pela qual a cidade é parcialmente protegida da fúria do oceano é por vezes demolida pelas ondas, e as embarcações que permanecem no porto despedaçam-se na praia. Findo o seu humor irascível, a natureza não sorri em qualquer outro lugar tão docemente como aqui. As casinhas limpas da cidade bordejam a baía e espalham-se irregularmente, entre folhagem espessa e variada, sobre colinas que se elevam em direcção ao centro da ilha, onde geralmente se perdem entre as nuvens. De um lado a vista é limitada pela face quase perpendicular da Ponta da Espalamaca, de onde distantes mulheres descem com passo seguro, colhendo ervas ou apanhando lenha, sempre em risco de se despenharem de cem pés[19] de altura sobre as rochas abaixo. Para sul encontram-se os vigorosos contornos do Monte da Guia — cujo cume escavado, cerrado por canas altas em pequenos talhões cultivados, parece uma bonita manta de retalhos — e as encostas enegrecidas do Monte Queimado, que não passa de uma escória vulcânica muito maior que as que, nas ruas, nos caminhos e nas encostas, nos recordam a vizinhança de uma das grandes fornalhas dentro das quais a natureza funde o revestimento de sólido metal para este nosso mundo. Que esses fogos não estão extintos tornou-se evidente para todos os moradores da ilha no Outono de 1862, quando a frequência diária dos terramotos violentos e as estimativas filosóficas de que o centro da sua acção se encontrava directamente sob a capital os fizeram sentir como se vivessem sobre uma superfície de escória que poderia a qualquer momento rachar-se, afundando-os na massa fundente abaixo. Para evitar o perigo menor de queda de paredes e telhados, os que o podiam fazer mudaram-se para tendas, onde dormiram seguros da destruição, pelo menos da vinda de cima, enquanto as classes baixas seguiam as numerosas procissões religiosas que escoltavam de lugar para lugar santos e Madonas de madeira barbaramente talhados e decorados com ouropéis, implorando freneticamente a sua intercessão para deter a calamidade como as que tantas vezes haviam devastado as outras ilhas do arquipélago. A calamidade foi detida, e as pobres e simples almas prestaram religiosamente louvor e acção de graças, se não às marionetas de bochechas vermelhas, pelo menos ao poder misterioso que não conseguem dissociar do seu representante lenhoso. Estas manifestações de rua são por aqui muito numerosas e tomam o lugar de outras paradas públicas. Todos a elas assistem com reverência, excepto os executantes, tais como os meninos do coro e os sacristães da igreja, que, pela frequência com que viram
«O templo e os seus ritos sagrados profanados
por pantominas»,[20]
perdem toda a veneração, até pelo Santo dos Santos.
A principal atracção natural do Faial é a sua Caldeira, que, significando caldeirão ou pote, não é designação inapropriada para a grande cratera do vulcão extinto que esta ilha outrora constituiu. Existem muitas crateras de maior dimensão e mais maravilha no mundo, mas nenhuma mais bela do que esta. Tem cinco milhas[21] de circunferência, é quase circular, e as suas encostas — que, devido às eras do seu silêncio, estão densamente cobertas de ervagem — descem íngreme e simetricamente 1700 pés[22] até ao fundo, onde existe um belo laguinho circundando uma pequena colina cónica cujo cume oco é o orifício propriamente dito dos fogos subterrâneos.
A Horta não é apenas o porto de mar do Faial, mas também o da ilha oposta, o Pico, que deriva o seu nome do seu pico elevado, rival em beleza, embora não em altitude, do pico de Tenerife[23]. A montanha do Pico ergue-se 7613 pés[24] em direcção aos céus, elevando-se gradual e simetricamente da água até se perder num mero ponto. Numerosos outeiros em torno da sua base e encostas indicam os locais de antigas erupções. Durante o Inverno está coberto de neve ao longo de uma extensão considerável, mas perde-a quase toda, excepto um ou dois farrapos, à medida que o Verão se aproxima. Embora já não seja eruptivo, uma nuvem de vapor condensado ou fumo pode sempre ser vista flutuando acima do seu cume. O pico é a característica mais marcante nesta parte do Atlântico e, em tempo limpo, pode ser visto a muitas milhas. É o grande barómetro do Faial: o carácter do chapéu de nuvens que obscurece o seu cume pressagia infalivelmente o bom ou mau tempo; e a força, direcção e duração dos vendavais são através dele tão seguramente previstas pelos residentes que os navios no porto são avisados quando não é seguro permanecerem fundeados[25]. A ilha do Pico tem o dobro da área do Faial[26], é mais povoada e é a origem da maior parte do vinho das Ilhas Ocidentais, que ainda vai encontrando caminho para o mercado com a designação de «Madeira do Pico» ou simplesmente de «Pico». A praga que há vinte anos[27] assolou o sul de Espanha e as Madeiras e as Canárias, também visitou os Açores e quase paralisou o comércio do vinho. Uma vinha do Pico não tem nenhuma das características que se poderia imaginar ter. As vides não são conduzidas sobre latadas nem enroladas em estacas. Pelo contrário, o terreno é subdividido em pequenos currais separados por muros baixos feitos de massas de lava preta esparsamente amontoadas sobre os quais se permite que as vides trepem. Vistos à distância, antes do espessar da folhagem, os muros parecem tão próximos entre si que a terra entre eles se oculta e nada se pode distinguir senão um campo de pedras enegrecidas ao longo do qual desponta ocasionalmente uma folha de aspecto débil. Desde o declínio do comércio vinícola que as laranjas têm sido a principal produção para exportação. Grandes quantidades de óleo são aqui trazidas pela nossa frota baleeira para embarque para os Estados Unidos, tendo com este fim chegado a fundear cento e setenta navios ao longo de um ano no ancoradouro da Horta. Quando Semmes[28] estava no auge da sua fama de pirata[29], foi este o cenário escolhido para as suas depredações; e o embaraço que experimentou ao carregar carvão no seu navio, por influência do nosso cônsul, tornou este último um objecto especial da sua vingança.
A pesca da baleia americana tem empregado uma grande proporção dos naturais destas ilhas que encontraram o seu caminho para os Estados Unidos, para onde posteriormente deslocaram as suas famílias. Em New Bedford existem em número suficiente para terem dado ao seu colonato o nome de Nova Faial. Cada paquete que chega vem cheio de emigrantes — gente poupada, industriosa e abstémia — de quem ao governo português desagrada tanto separar-se que coloca todos os entraves à sua partida. Foi-me contado um caso em que uma família de valor sofreu grande aflição pela recusa das autoridades de permitir a partida de um bebé para quem os pais se tinham esquecido de obter um passaporte (talvez então ainda não tivesse visto a luz do dia) com o fundamento de que a lotação de passageiros permitida ao navio não podia ser excedida, nem mesmo por um pequeno lactente. O número de ausentes é indicado, até certo ponto, pelo pesado correio trazido da América pelos paquetes.
A indústria doméstica dos faialenses encontra ocupação na cestaria, no fabrico de rendas com a fibra da folha da piteira e nos bordados finos. Sendo os salários das costureiras apenas de quatro a quinze cêntimos por dia, as máquinas de costura não conseguem competir com elas, particularmente quando a excelência do trabalho é tida em conta. Todos os tipos de trabalho são mal remunerados, recebendo os criados de casa, por mês, menos do que conseguem por semana no nosso próprio país. Um rendimento anual de cento e cinquenta dólares é suficiente para sustentar uma família portuguesa e para lhes permitir manter dois criados.
A longa e magra ilha de São Jorge, com trinta milhas[30] de comprimento por cinco de largura[31], separada do Pico por um estreito canal, é desinteressante, excepto pelas evidências da bastante recente erupção de 1808, que durou seis dias e proporcionou um espectáculo de aterradora sublimidade aos habitantes das outras ilhas que, sentindo-se seguros de que as suas próprias casas não corriam perigo enquanto os fogos vulcânicos tivessem este escape, o contemplaram com sentimentos mistos de gratidão pela sua própria segurança e de admiração pela sua grandeza.
A Graciosa, não obstante a sua designação, não possui particular atracção para o turista. É um pouco mais plana do que outras do grupo, mas a sua condição isolada condena-a, tal como o Corvo e as Flores, à solidão mais imperturbada.
A Terceira, a ilha restante do grupo central do arquipélago, é assim chamada por ter sido a terceira descoberta pelos navegadores portugueses, tendo sido visitada em 1450 e concedida por aquele grande patrono e instigador da navegação primitiva, o Infante Dom Henrique, terceiro filho do rei bastardo João I[32], a Jácome de Bruges. Um pouco maior do que o Faial (vinte por trinta milhas[33]), assemelha-se-lhe em muitos aspectos. O seu promontório rochoso do Monte Brasil, ligado à terra firme por um estreito istmo arenoso, é o análogo do Monte da Guia e, tal como este último, auxilia à formação do principal fundeadouro da ilha. Angra, situada na costa sul, é uma cidade muito maior do que a Horta, tendo uma população de mais de dez mil habitantes — cerca de um quarto de todos os moradores da ilha. É a mais bela de todas as cidades insulares do Atlântico, sendo bem construída, regularmente implantada, com ruas largas e pavimentadas, e, o que é invulgar em cidades portuguesas e espanholas, com passeios suficientemente largos para duas pessoas lado a lado. O seu cais é excelente e o seu mercado é tão belo quanto um jardim privado. As estradas que levam ao campo são ladeadas por solares[34] confortáveis, para onde se retiram quando o calor do Verão é insuportável na cidade. Aqui, como noutros lugares, conventos extintos acomodam câmaras municipais, prisões, escolas e hospitais.
A pequena Santa Maria, no grupo sudeste, interessará apenas aos geólogos, visto que se diz não ser, ao contrário do resto dos Açores, de origem vulcânica. Alguns consideram-na o que resta de uma grande ilha submersa, embora as camadas de conchas marinhas à sua superfície indiquem a sua elevação a partir do mar. As suas pequenas vizinhas, as Formigas, onde Cabral[35] viu pela primeira vez a rebentação do mar em 1431, são consideradas o cume exposto de uma cratera submarina.
São Miguel não foi descoberta senão treze anos depois de Santa Maria, embora esteja quase à vista desta. É a maior dos Açores, tendo cinquenta milhas[36] de comprimento e medindo em média de cinco a doze de largura[37], e é em muitos aspectos a mais bela ilha do grupo, embora a sua proximidade ao provável centro de acção submarina a torne um local de residência algo incerto. A sua superfície e vizinhanças têm estado inquietas desde que a ilha é conhecida. Quando Cabral nela desembarcou pela primeira vez, em 1444, encontrou um belo e plano prado, coberto de árvores e folhagem luxuriante. Um ano depois regressou e encontrou uma montanha erguendo a sua cabeça no local que planeava povoar e elevando as árvores e a planície a quase dois mil pés[38] de altitude. A montanha, chamada Lagoa das Sete Cidades[39], em alusão às cidades que ali se pretendia fundar, ainda permanece e constitui a maior das três grandes crateras da ilha. Os pequenos vulcões e as solfataras são inumeráveis, pontilhando a superfície da ilha de verrugosos outeiros. A superfície desta cratera das sete cidades, que tem uma extensão de três milhas e meia numa direcção por duas na outra[40], é ocupada por dois grandes lagos — chamados, pela sua diferença de cor, Lago Azul e Lago Verde[41] — com catorze braças[42] de profundidade e abundantemente providos de peixe. As outras crateras também possuem pequenos lagos preenchendo as suas orlas, estando a da Lagoa das Furnas situada numa região de grande interesse. As nascentes sulfurosas termais das Furnas possuem reputação local pela sua eficácia no alívio de queixas reumáticas crónicas, e não há dúvida de que muitos enfermos deste tipo foram por elas permanentemente beneficiados. Embora merecidamente ocupem um lugar elevado entre as famosas nascentes sulfurosas, tem havido poucas tentativas de preparar acomodações para os visitantes. Os residentes da ilha e os poucos forasteiros que ouviram falar da sua fama são em número suficiente para ocupar desconfortavelmente todos os aposentos disponíveis. O visitante saudável será bem recompensado pela sua cavalgada de vinte e oito milhas[43] até lá, sendo toda a localidade peculiarmente interessante. Por entre as paisagens mais selvagens, nascem da terra, lado a lado, águas intensamente frias e águas a ferver que misturam as suas correntes; vapores sulfurosos elevam-se continuamente das bocas dos poços quentes, e a não desadequadamente chamada Boca do Inferno, ou cratera de lama, agita o seu conteúdo semi-sólido, que raramente transborda, num círculo de quarenta e cinco pés[44] de diâmetro.
Para além destas evidências incessantes da actividade ígnea dos reinos inferiores, São Miguel tem sido, em tempos modernos, o teatro de manifestações vulcânicas em escala muito maior. À elevação das Sete Cidades em 1444 seguiu-se em 1522[45] um terramoto que destruiu a cidade de Vila Franca do Campo, na costa norte[46], e outro em 1591, de doze dias de duração, que nivelou pela segunda vez a infeliz vila[47]. Em 1638[48], e novamente em 1711[49], vulcões submarinos perturbaram as águas entre esta ilha e a Terceira. Em 1811 apareceu uma nova ilha ao largo da costa ocidental e, embora estivesse apenas a meia légua[50] da margem, comandante de um navio de guerra inglês[51] fez nela um desembarque, deu-lhe o nome de Sabrina e reclamou-a (em total desprezo pela lei ou pelos costumes internacionais) em nome de sua majestade britânica. O velho Neptuno, porém, fez valer os seus direitos de primazia e, sem que tivessem passado muitas semanas, a ilha Sabrina desapareceu sob as águas de onde viera, levando consigo o emblema da usurpação.
São Miguel é a mais populosa das nove ilhas, e a sua capital, Ponta Delgada, a setenta e cinco milhas de Angra, é, em importância e população (estimada numas boas cinquenta mil pessoas), a terceira cidade dos domínios portugueses. Sofre, porém, tal como todas as outras povoações portuárias, da desvantagem de ter um porto inseguro, desvantagem essa que foi parcialmente superada pela construção de extensos molhes de alvenaria. Outrora famosa pelas suas vinhas e olivais[52], e hoje ainda pelas suas laranjas, atrai anualmente uma grande frota de navios fruteiros, que são sempre fundeados com uma regueira nas suas amarras, para que as possam largar e fugir para o mar. «É uma vista bonita», disse uma bela miguelense, «trinta ou quarenta navios fazendo-se apressadamente à vela» quando o barómetro em queda e o negrume do horizonte os avisam do perigo que se aproxima. Tivesse ela sido parte das infelizes tripulações e a admiração por esta beleza teria sido o último sentimento a sentir perante a manobra. Apesar de todas as precauções, muitos navios naufragam na costa rochosa, contando-se uma triste história sobre a mulher de um capitão que, segura em terra, teve de testemunhar o sacrifício do navio e da vida do seu marido.
Ponta Delgada mostra as características usuais das cidades portuguesas, e os seus habitantes os traços característicos das ilhas. Há ruas sossegadas, empedradas, alargando-se aqui e ali, em locais onde grupos ruidosos tagarelam junto às fontes públicas, há passeios estreitos ou, mais frequentemente, ausentes, há casas limpas e caiadas, com padieiras de pedra escura e sofrível carpintaria; há numerosos antigos mosteiros e velhas igrejas; e há pequenas lojas, com tabuletas rudes, mostrando onde as humildes necessidades do povo, vinho e pão[53], podem ser obtidas. As mulheres têm a sua própria moda de capote[54], e os homens usam um capote tipo havelock[55] pendendo da sua peculiar cobertura de cabeça. As classes mais ricas vivem com grande aparato e rodearam as suas residências principescas de jardins magníficos de grande extensão. O do Senhor João do Canto[56] continha, à data da minha visita, cerca de quatro mil espécies exóticas e orgulhava-se de ter duzentas e cinquenta variedades de magnólias; o Visconde da Praia[57] havia acumulado quase cem variedades de camélias; e o Príncipe Napoleão observou, acerca do jardim do Botelho, propriedade do Barão da Fonte Bela[58], que tinha visto muitos maiores, mas nenhum mais belo[59]. O solo fértil de São Miguel assenta sobre correntes de lava escoriácea que arrefeceram no exterior enquanto a sua massa central fluía para o exterior, deixando grandes cavernas. Uma delas, dentro dos limites da cidade, pode ser explorada ao longo de mais de uma milha de câmaras largas e alterosas, e de passagens tortuosas, com tectos arqueados e chãos sulcados, de onde surgem paredes e colunas que parecem ter sido esculpidas à mão[60].
Os Açores, no seu conjunto, formam uma província[61] do reino português que se subdivide, de acordo com a localização geográfica, em três distritos: Ocidental[62], Central[63] e Oriental[64]. Estes distritos, por sua vez, são divididos em comarcas[65] e finalmente em paróquias eclesiásticas[66].
Os Açores compreendem uma área de mais de duas mil milhas quadradas[67] de terra firme[68] e possuem uma população de cerca de trezentas mil pessoas que estão representadas na Câmara dos Deputados, onde se distinguem pelas suas perspectivas liberais e progressistas. O arquipélago é oprimido por um pesado fardo de impostos que pouco os beneficia, sendo principalmente consumidos no sustento da realeza e dos seus assistentes. Com poucas oportunidades educativas, os Açores têm uma proporção incomum de membros inteligentes. Publicam-se jornais em todas as principais cidades, se bem que a informação que transmitem acerca do progresso dos acontecimentos no grande mundo é muito escassa.
O clima das Açores, por muito agradável que seja — e poucos visitantes do nosso próprio país que o experimentassem pela primeira vez desejariam um clima mais suave —, não compete, enquanto lar para enfermos — excepto em casos especiais que possam beneficiar das fontes sulfurosas de São Miguel —, com ilhas mais favorecidas, como a Madeira e Tenerife. Os seus Invernos, em comparação com a mesma estação nestas últimas, são mais frios e menos temperados, devido à sua latitude mais setentrional, e inconvenientemente húmidos, dada a sua localização dentro da corrente do Golfo, demonstrada pelo arrastamento de madeiras de campeche das Índias Ocidentais para as suas margens. Todas as ilhas são visitadas por temporais violentos que tornam impossível qualquer comunicação com a costa. O povo é bondoso e hospitaleiro, com tantas virtudes e tão poucos vícios como os que caracterizam a humanidade noutras paragens. Uma característica no seu sistema social, provavelmente resultado do seu isolamento, chocaria certamente uma comunidade americana e parece inacreditável num país católico romano — a lamentável frequência de casamentos entre parentes com graus proibidos de consanguinidade. Tias casam com os seus sobrinhos e tios com as suas sobrinhas, por vezes deliberadamente para preservar a integridade das propriedades familiares, e outras vezes, quando a diferença de idade é pequena, pela ausência de outras oportunidades de casamento, tendo a maior facilidade de viajar para regiões mais activas criado, tal como em muitas das cidades mais pequenas da Nova Inglaterra, uma sangria desproporcionada do elemento masculino. A prática, contudo, não se limita estritamente a estas ilhas, pois um caso notável ocorreu na família real portuguesa: a revolução miguelista teria sido evitada se Dom Miguel tivesse consentido em consumar a união projectada com a filha do seu irmão, Maria da Glória[69].
[1] No momento em que escrevo estas linhas as pesquisas na Azoreana não funcionam, pelo que não consigo verificar se há alguma referência a Gihon na imprensa açoriana da época.
[2] Presume-se que o Pacífico, ou o conjunto do Pacífico e do Índico.
[3] Talvez Ascenção, Tristão da Cunha, Santa Helena, as Malvinas e as Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul.
[4] A designação Macaronésia para estes quatro arquipélagos significa exactamente isso: μακάρων/makárōn = feliz ou afortunado + νῆσοι/nēsoi = ilhas.
[5] Trata-se da África, mais particularmente do Magrebe.
[6] No original «The Azores (As Ilhas Açores of the Portuguese)».
[7] 36,5° a 40° de latitude norte e 24,5° a 31,5° de longitude oeste.
[8] ≈ 211 km.
[9] ≈ 130 km.
[10] ≈ 9,7 por 4,8 km.
[11] Em português no original.
[12] ≈ 3700 km.
[13] A barca Azor, da Dabney & Sons.
[14] Trata-se da família Dabney.
[15] ≈ 19,3 e 24,1 km.
[16] No original, «estancias», ou seja, segundo o Merriam-Webster, «a South American cattle ranch or stock farm».
[17] Não é claro para mim a que revolta se refere. Talvez a da Maria da Fonte, entre 1846 e 1847.
[18] Mantive a tradução de «lintel», que é «padieira» ou «lintel», mas o mais provável é o autor se referir a cantarias.
[19] ≈ 30 m.
[20] Versos do poema «Expostulation» do poeta inglês William Cowper (Berkhamsted, condado de Hertfordshire, Inglaterra, 26 de Novembro de 1731 — East Dereham, condado de Norfolk, Inglaterra, 25 de Abril de 1800) incluído seu livro Poems: by William Cowper, of the Inner Temple, Esq., de 1782:
«[…]
Th’ astonish’d vulgar trembl’d while he tore
The mask from faces never seen before;
He stripp’d th’ impostors in the noon-day sun,
Show’d that they follow’d all they seem’d to shun,
Their pray’rs made public, their excesses kept
As private as the chambers where they slept.
The temple and its holy rites profan’d
By mumm’ries he that dwelt in it disdain’d,
Uplifted hands that at convenient times
Could act extortion and the worst of crimes,
Wash’d with a neatness scrupulously nice,
And free from ev’ry taint but that of vice.
[…]»
[21] ≈ 8 km.
[22] ≈ 518 m.
[23] O Teide, com 3718 m de altura. O Pico tem 2351 m.
[24] ≈ 2320 m.
[25] Ver o documentário O Tempo Escrito nas Nuvens, do Museu do Pico:
https://www.rtp.pt/programa/tv/p47770
[26] Mais do dobro: 2,5 vezes mais, aproximadamente.
[27] Em 1852 chegou o oídio. A filoxera chegaria cerca de uma década mais tarde.
[28] Raphael Semmes (Tayloe’s Neck, condado de Charles, Maryland, EUA, 27 de Setembro de 1809 — Mobile, condado de Mobile, Alabama, EUA, 30 de Agosto de 1877) foi um oficial da Marinha Confederada durante a Guerra Civil Americana. Foi capitão da chalupa de guerra a vapor CSS Alabama, que causou grande devastação na frota baleeira (dos estados unionistas) americana, muitas vezes ao largo dos Açores (e das Flores em particular).
[29] Gihon combateu pelo lado da União, pelo que se compreende a utilização da expressão «piratical fame». O facto de o CSS Alabama praticar guerra de corso, atacando navios comerciais do inimigo, permitiria, quando muito, e apenas por analogia, classificar a sua fama como sendo «de corsário».
[30] ≈ 48 km.
[31] ≈ 8 km.
[32] Filho ilegítimo de D. Pedro I e de Teresa Lourenço.
[33] ≈ 32 por 48 km.
[34] No original, «estancias». Optei aqui por traduzir por «solares».
[35] Gonçalo Velho Cabral.
[36] ≈ 80 km.
[37] ≈ 8 a 19 km.
[38] ≈ 610 m.
[39] A lagoa é no fundo da caldeira, naturalmente. O autor escreve «Lagao» em vez de «Lagoa». Talvez tenha confundido a palavra com «lugar», ou seja, pequena povoação.
[40] ≈ 5,6 por 3,2 km.
[41] Preservei o original, onde se usa «lago» em vez de «lagoa».
[42] ≈ 25,6 m.
[43] ≈ 45 km.
[44] ≈ 14 m.
[45] A chamada Subversão de Vila Franca.
[46] Na realidade, na costa sul.
[47] Há registos históricos deste sismo.
[48] Erupção submarina ao largo da Candelária, em São Miguel.
[49] Não encontrei referência a erupções em 1711.
[50] Talvez 800 m, admitindo que o autor usa a légua de ≈ 1600 m.
[51] A chalupa de guerra HMS Sabrina, de 1806.
[52] Equívoco do autor?
[53] No original, «vinho-pao».
[54] Em português no original.
[55] O nome refere-se a Henry Havelock. Trata-se de um capote sem mangas conhecido por Inverness cape, com semelhanças vagas, no formato, com o capote alentejano. O autor refere-se certamente à capa exterior curta do havelock, pois assemelha-se vagamente às abas do chapéu tradicional micaelense.
[56] Trata-se quase certamente de um erro do autor, que se refere certamente ao jardim de José do Canto (Ponta Delgada, 20 de Dezembro de 1820 — Ponta Delgada, 10 de Julho de 1898), hoje conhecido por Jardim Botânico José do Canto.
[57] Refere-se a António Borges de Medeiros Dias da Câmara e Sousa (Ponta Delgada, São José, 23 de Janeiro de 1829 — Lisboa, 1 de Maio de 1913), 2.º Visconde da Praia, 1.º Conde da Praia e Monforte e 1.º Marquês da Praia e Monforte, e ao seu jardim, hoje conhecido por Jardim Botânico António Borges.
[58] Segundo o arquivo do Instituto Cultural de Ponta Delgada, «A Casa do Botelho, situada no lugar do Livramento [freguesia de Ponta Delgada] (ilha de São Miguel, Açores), foi propriedade dos irmãos António Francisco de Carvalho, Dâmaso José de Carvalho e Francisco Caetano de Carvalho, que por testamento a legaram a Jacinto Inácio Rodrigues da Silveira (1785-1869), 1.º barão da Fonte Bela, no primeiro terço do século XIX. Este mandou aumentou a casa e ampliou o jardim, embelezando-o com ruas, escadarias, estufas, estátuas e um lago de margens recortadas, trabalho em que foi continuado pelo seu sobrinho neto Jacinto Inácio da Silveira Gago da Câmara (1851-1894), 3.º barão e 2.º conde da Fonte Bela.»
[59] O Príncipe Napoleão Bonaparte (Napoléon-Jérôme Bonaparte, Trieste, 9 de Setembro de 1822 — Roma, 17 de Março de 1891) e a Princesa Clotilde (Marie-Clotilde de Savoie, Turim, 2 de Março de 1843 — Moncalieri, 25 de Junho de 1911 à Moncalieri) estiveram nos Açores. Segundo a Enciclopédia Açoriana, «Em 1855, [Félix Borges de Medeiros,] enquanto Governador Civil, recebeu a visita do Príncipe Napoleão Bonaparte e da Princesa Clotilde, que aportaram a S. Miguel a 10 de Julho daquele ano.». Ora, esta data está certamente errada, pois o casamento entre o Príncipe Napoleão Bonaparte e a Princesa Clotilde só ocorreu em 30 de Janeiro de 1859. Segundo o Dictionnaire universel des contemporains […], 5.ª edição), de Gustave Vapereau, publicado em 1880: «Les excursions en Europe et les voyages plus lointains tinrent une grande place dans la vie du prince Napoléon. Sur un yacht à vapeur, construit pour lui, le Jérôme-Napoléon, il alla plusieurs fois en Angleterre, en Corse, en Algérie, en Italie, etc. Il s’embarqua même, en juillet 1861, pour l’Amérique, avec la princesse Clotilde, qui l’avait accompagné dans plusieurs des précédents voyages. Après avoir visité, en passant, Lisbonne et les Açores, il arriva à New-York à la fin d’août.» A estadia nos Açores durou três dias, segundo o livro Plon-Plon: The life of Prince Napoleon, (1822-1891), de Edgar Holt, publicado em 1973, e segundo notícia na página 8 do New-York Tribune de 30 de Julho de 1861, bem como em muitos outros jornais norte-americanos. O The Morning Post de 3 de Agosto de 1861, página 5, reporta que a viagem entre Lisboa e os Açores, no iate imperial Jérôme Napoleon (vapor e vela), durou apenas 71 horas. Segundo o Freeman’s Journal and Daily Commercial Advertiser de 10 de Agosto de 1861, página 3, os príncipes teriam partido dos Açores a 17 de Julho, pelo que a sua estadia teria ocorrido entre 14 e 17 de Julho de 1861. Terá sido nessa altura que passou no Jardim do Botelho.
[60] Trata-se da Gruta do Carvão, em Ponta Delgada.
[61] A Província dos Açores foi criada pelo Decreto n.º 28, de 4 de Junho de 1832, assinado em Ponta Delgada por D. Pedro IV, em nome de D. Maria II, altura em que se extinguiu a Capitania Geral dos Açores. Tinha sede em Angra. No entanto, logo em 1833 a divisão administrativa foi alterada, criando-se a Província Oriental dos Açores, com sede em Ponta Delgada, incluindo São Miguel e Santa Maria, e a Província Ocidental dos Açores, com sede em Angra, com as restantes ilhas. Mas esta divisão durou pouco. Em 1836 o Código Administrativo Português instituiu a divisão em distritos que prevaleceu até 1975 (Título I, Capítulo I, Artigo 4): «O Archipelago dos Açôres fica dividido em tres Districtos Administrativos, a saber: — Districto de Ponta Delgada — composto das Ilhas de S. MigueI, e Santa Maria : tendo por Capital a Cidade de Ponta Delgada : — Districto d’Angra — composto das Ilhas Terceira , S. Jorge, e Graciosa ; tendo por Capital a Cidade d’Angra. — Dictricto da Horta — composto das Ilhas do Fayal, Pico, Flores, e Corvo, tendo por Capital a Cidade da Horta.» Ou seja, à data da visita de Gihon, já não existia a Província dos Açores, aliás curta duração.
[62] Distrito de Ponta Delgada (São Miguel e Santa Maria).
[63] Distrito de Angra do Heroísmo (Terceira, Graciosa e São Jorge).
[64] Distrito da Horta (Pico, Faial, Flores e Corvo).
[65] Em português no original. Segundo consegui apurar, embora as comarcas tenham sido parte da divisão administrativa dos Açores entre 1832 e 1833, foram desde então apenas uma forma de circunscrição judicial nos Açores.
[66] Já no Código Administrativo Português de 1836 se afirma que os distritos são divididos em concelhos (e não comarcas, ao contrário do que diz Gihon) e estes em freguesias ou paróquias civis, e não eclesiásticas, embora as paróquias civis e eclesiásticas correspondam a maioria das vezes ao mesmo território.
[67] ≈ 5180 km². Na realidade os Açores têm 2351 km² de território.
[68] No original, terra firma.
[69] Trata-se do casamento que ocorreu, com dispensa papal, por procuração, em 29 de Outubro de 1826, entre D. Maria II (Rio de Janeiro, 4 de Abril de 1819 — Lisboa, 15 de Novembro de 1853) e o seu tio, o infante D. Miguel de Bragança (1802-66), mas que foi dissolvido em 1 de Dezembro de 1834.
