Guirlandas para uma República: Padāvalīs Indo-Lusas em Celebração da Índia/Garlands for a Republic: Indo-Luso Padāvalīs in Celebration of India- RoseAngelina Baptista, poeta

This series of verses, known as Padāvalī in Sanskrit, is my hymn of love to India, composed in
celebration of the 77th anniversary of Republic Day.

Dedicated to Vijaya Bharati (1941-2024)
and Bojja Tharakam (1939–2016).


Esta série de versos, Padāvalī  em sânscrito, representa meu hino de amor à Índia, celebrando o
77º aniversário do Dia da República.

Dedicado a Vijaya Bharati (1941-2024)
and Bojja Tharakam (1939–2016).

Acknowledgments/ Agradecimentos:
Euclidean Poem, Kakinada Crows, Assam Tea Gardens. MuseIndia, 2022. Hyderabad, India
Soft Glow / Meia-Voz a Meia-Luz: Gavea Brown, 2025. Rhode Island, USA.
A Costureira de Tolichowki, Dalit Marigold, No Caminho de Thanjavur: Especiaria. Rio Grande
do Sul, Brasil, 2026.

To view the bilingual recitation videos of some of these poems, please visit YouTube and search
for the Fresno State Portuguese Beyond Borders Institute and The Alfred Lewis Bilingual
Reading Series. Thank you very much.

Para ver os vídeos de algumas das recitações bilíngues, por favor, visite YouTube e procure por
Fresno State Portuguese Beyond Borders Institute e The Alfred Lewis Bilingual Reading Series.
Muito obrigada.

Indo-Luso Padavalis

I Euclidean Poem / Poema Euclideano
II Kakinada Crows / Corvos de Kakinada
III On the Way to Thanjavur / No Caminho de Thanjavur
IV Dalit Marigold
V Assam Tea Gardens / Colhedoras de Chá
VI Christmas at the Taj / Natal no Taj Mahal
VII Godavari Flood / A Cheia do Godavari
VIII Tolichowki Seamstress / A Costureira de Tolichowki
IX Heavy Fog / Nevoeiro
X Soft Glow / A Meia-Voza Meia-Luz

EUCLIDEAN POEM
Circle=2 πr
Πr ( / paɪ ar / ) measures one
circle when doubled.
 
But Pyar प्यार ( / pɪ ar / ) in Hindi
is love:
a circle made by two.
 
To me,  
Love is Pr:
Pr from Sanskrit Prema.
A love
without sides.
 
Lover and Beloved
are circles
foamy, spinning,
a circus of symbols,
an addiction
stirring ephemeral
strings.

POEMA EUCLIDIANO
Círculo=2 πr

Πr ( / pɪ erre / ) mede um círculo
multiplicando em dois.

Mas Pyar प्यार (/Pi-ar/) em Hindi é amor,
um círculo feito de dois.
Pra mim,
Amor é Pr…
Pr do Sânscrito Prema.
Prema, amor não-dual!
Amante e Amado são círculos,
espumantes rodopios,
circos loucos de apegos,
movidos de efêmeros dias.

KAKINADA CROWS

Only we understand
one another to the bone.
You, a chosen choir of crows,
turn mute verses into aching vowels
of the paddies. And I, a crowd
stitched from wounds,
lifted by wandering ovations
on the sea’s nasal breath.

CORVOS DE KAKINADA

Só nós dois
podemos nos entender a fundo.
Tu, seletivo bando de corvos,
podes transformar versos mudos
em comoventes vogais do arrozal.
Tu podes suportar
minha eclética multidão de dor
Erguida em ovações sem rumo
Pelos sons nasais do mar.

ON THE WAY TO THANJAVUR


In one hand,
a steel tumbler.
In the other,
a shallow saucer.
Govindas cools the coffee,
pouring it back and forth,
one hand to the other,
a long clean arc,
almost a meter of air.
Nothing spills.
Just foam,
rising from the hands
of the street vendor.
He keeps whispering
Ram, Ram
as he works,
mixing hot into cool,
letting the coffee breathe,
dark, bitter,
then bringing in
the thick hot milk.
Again and again
the liquid flies,
cup to cup,
the motion steady, practiced,
the pour itself a ritual,
the sound and the gesture
one thing:
Ram, Ram.
Ready at last
for the first sip,
on a cold road wrapped in fog,
mist hanging over lotus lakes,
the coffee moves

from cup to cup
on the way
to Thanjavur.

NO CAMINHO DE THANJAVUR
Para um monge de Chennai que mora no Brasil

Numa mão
uma caneca de aço
noutra um copo raso,
Govindas esfria num arco
dum lado ao outro o café.
Num arco que se alonga
quase um metro no ar,
sem derramar uma gota
só espuma nasce das mãos
do vendedor de rua.
Govindas murmura
RamRam
enquanto mistura
o quente ao frio
com paciência
RamRam mistura.
Areja o escuro café
e junta com
leite quente,
espessa mistura
no voo repetido
do ritual do despejo
RamRam no arco se mistura.
Na estrada fria, pálida de bruma
não se vê o lodo, o lago
só o perfume dos lótus cor de malvaindianos
misturados com café
no caminho de Thanjavur.

DALIT MARIGOLD
rickety, rickety wheel
wobbling in the vast
mud, teetering on a
edge of fire…always
light, always alive,
independent, pure
the Dalit flower, by
mere knowledge of
itself, tethered into
bliss, it is enough.

DALIT MARIGOLD

Na rota rota da roda
no lodo vasto do lago
no beiral cercado de lava
Sempre leda, leve, viva
independente e casta
a flor Dalit
por mero conhecimento
de si, na bem-aventurança
se basta.

ASSAM TEA GARDENS
Gold-tipped leaves dance,
in their tender fingers,
lift and twirl
beneath those secluded
malt-dark eyes,
blooming supple
between glossy lips.
Thrice harvested,
their backs bend low.
Greenweed crowns
press to their brows,
cheeks aglow,
sprouting
in the red-clay valley.
Their heads, a double defense:
the burdened basket,
and the clouds,
their brooding, fickle spouses.

COLHEDORAS DE CHÁ EM ASSAM

Dancem nas mãos delas,
folhas de pontas douradas!
Dancem aos seus olhos de malte.
Toquem suave, seus rútilos lábios.
Na terceira colheita,
os corpos alombados,
frontes com tiaras
de verde mato, o rosto
alumiado em jardins de chá
num vale de barro.
Cabeças no amparo dobrado
do custoso cesto de palhas,
e das nuvens,
seus maridos mal-humorados.

THE TOLICHOWKI SEAMSTRESS

Hyderabad runs on a beat:
push.
pull.
Devi works the needle.
Sets its line.
One hand on the wheel
counterclockwise.
Feet on the treadle:
right foot down,
left foot back.
Push.
Pull.
Stitches lock in.
Thread holds.
Bobbin answers.
Cloth submits
to the snap of scissors.
Feet rock forward and back.
No grace.
Just need.
Pause.
Then again
push
pull
the machine keeps time.
Her daughter Meena sits beside her.
The room is small.
The floor stained red.
Fabric everywhere
saris, kurtas, scraps
that won’t lie flat.
A tape measure hangs from her neck.
She tries the chalk.
The pins.
Misses.
Her body jerks

neck, arms, sudden, uneven.
Won’t stay still.
She grins anyway.
Her braid swings wild.
She says,
A-mmah.
One word.
Hard won.
Enough.
Devi doesn’t stop.
Push.
Pull.
Push.
The wheel turns, now clockwise.
Five pennies a day.
Set aside.
For a dowry.
For two jasmine garlands.
For one silver coin.
Push.
Pull.
Push.
The machine keeps going.

A COSTUREIRA DE TOLICHOWKI

O ritmo de Hyderabad
é um ritmo de empurra e puxa,
onde Devi, a costureira de Tolichowki,
comanda o olho da agulha,
uma mão guia a roda, no sentido anti-horário.
enquanto oscila o pedal da máquina de costura,
pé direito à frente, empurando pra baixo,
pé esquerdo atrás, puxando de volta.
Pontos se formam num cuidado meticuloso,
linha e bobina dançam em harmonia,
o tecido cortado na precisão da tesoura.
Pezinhos se movem para frente e para trás,
uma dança da necessidade,
pausas marcam o ritmo,
empurra, puxa,
no pedal da máquina de costura.
Ao lado de Devi, a filha menina-moça,
Meena, dá-lhe uma mão,
na casinha apertada, sentada no vermelhão,
perdida entre os comprimentos de sáris, e kurtas,
pelejando com os retalhos.
Paramentada com uma fita métrica, ela tenta
espetar os alfinetes perdidos num chumaço de algodão,
em meio aos espasmos bruscos do pescoço,
e braços, em movimentos involuntários.
Com um sorriso extático a distonia do corpo
sacode a longa trança de um lado ao outro,
e a voz disártrica explode: “A-mmah” [mãe]
a única palavra que consegue pronunciar.
Devi atenta no empurra, puxa do pedal,
uma mão na roda giratória, agora no sentido horário;
para economizar cinco rupias por dia,
para o dote da filha um dia,

e duas guirlandas longas de jasmim
indiano. Empurra, puxa, empurra,
no pedal da máquina de costura.

CHRISTMAS AT THE TAJ

After so many tides,
after everything in me
spilled into one sea,
I came out like a marble
carved from water,
That’s who I was
when I chose to spend
Christmas
at the Taj.
I reached just after dawn.
The Taj was lifting
out of the fog,
dusted with the soft talc
that could raise
an Everest of light.
It hovered above the Yamuna
like a yogi deep
in Śūnyatā,
a moment of Nibbana,
still as still can be,
its breathing leveled,
soft, drawn into the quiet
glow inside its chest.
And when I think of it now,
like a silk-cloud
over the pool
and the esplanade,
I remember the waters
that shaped my Christmas there,
the waters
that shaped the Taj
into the Taj Mahal.

NATAL NO TAJ MAHAL
Após as águas,
e o desaguar
no meu mar
de águas,
virei um már
more d’águas.
Sólida de água,
fui passar
o natal
no Taj.
Cheguei de manhãzinha
Quando o Taj emergia
das brumas com todo o talco
capaz de erguer um Everest.
Levitante sobre o Yamuna,
o Taj era um yogue sentado
em Śūnyatā, digo em estado
transitório de Nibbana,
totalmente quieto
Com as correntes das respirações
Internas igualadas, neutras,
Absorto no centro silencioso
Calmo e luminoso de seu peito
E quando me lembro
de todo aquele mármore
esvoaçando como nuvem
de seda pela esplanada
e tanque em cor diáfana
Me lembro das águas
que fizeram o meu natal
no Taj. Me lembro das águas
que fizeram do Taj
um Taj Mahal.

IN HEAVY FOG

Everything blurred
engulfed in light gray
The road, with its two-story houses,
The tallest palm trees floating
Their misty crowns
Like lotus flowers fading
A smoky milky lake
Coconut palms
without fruit.
Palmyra trunks,
Silver date palms
Without toddy tappers
Climbing the trees with their
Kallu pots,
Plowed fields without land
The horizon and the Godavari River,
the same misty gray.
Volcanic ash on the banks of the river
The waters seen up close
Like a piece of a broken mirror
The quiet boats like bamboo leaves
Everyone forced to
enter a mysterious mist cloud
and disappear into its portal
motorcycles, cars
bicycles and people as if they were
trying to pierce the veil of Maya
to suffer less
to become noble
by knowing the truth of changes
in their bodies and feelings.
as they could erase the past distress
without an intoxicatingly sweet
bottle of palm nectar sap.

DENSA NEBLINA

Tudo borrado,
engolido por um cinza-claro,
a estrada, as casas de dois andares,
os palmeirais mais altas flutuantes,
suas copas enevoadas
como flores de lótus se apagando
num lago leitoso e esfumaçado.
Coqueiros
sem frutos.
Troncos de palmyras,
tamareiras prateadas
sem os coletadores de toddy
de pingentes nas árvores
com seus potes de kallu,
campos arados sem terra,
o horizonte e o rio Godavari,
o mesmo cinza opaco e enevoado.
Cinza de cinza vulcânica
nas margens do rio.
As águas vistas de perto,
como um pedaço de espelho quebrado.
Os barcos silenciosos
como folhas de bambu.
Todos forçados
a entrar numa nuvem de névoa misteriosa
e desaparecer em seu portal—
motocicletas, carros,
bicicletas e pessoas, como se
tentassem atravessar o véu de Maya
para sofrer menos,
para se tornar nobres
ao conhecer a verdade das mudanças
em seus corpos e sentimentos,
como se pudessem apagar

as aflições do passado
sem uma garrafa
docemente intoxicante
do néctar da seiva da palmeira.

GODAVARI FLOOD
For Bojja Govindu Dasu Garu, 1878-1953

As a savage prowling beast,
Terrorizing sight,
The Godavari rises swiftly,
Overflowing the banks,
very muddy and turbulent,
With thunderous noise
As the river becomes a child
Suddenly orphaned
The brown flood submerges
Low and high grounds,
Concealing the fronds of tall palms
Whole villages inundated:
The railroad bridge,
the biggest timber yard
Barrages
Millions who tiled these islands
For paddy, sugarcane and sorghum
Marooned by ebullient waters
Thousands from the broad delta
Washed away into the bay
No accounting of loss of life
As my grandpa Govindu Dasu Garu
Dead in that Great Flood known as
Pedda Varadalu.

A CHEIA DO GODAVARI
Para Bojja Govindu Dasu Garu, 1878–1953
Como uma fera selvagem à espreita,
aterrorizando no olhar,
o Godavari se ergue de repente,
transborda as margens,
barrento e turbulento,
com seu ruído estrondoso.
O rio se torna uma criança
subitamente órfã
e reage com
febre alta, calafrios
e delírio pela noite inteira.
A enchente marrom submerge
terras baixas e altas,
encobrindo as copas
das palmeiras altas.
Aldeias inteiras inundadas,
a ponte ferroviária,
o maior pátio de madeira,
as barragens.
Milhões que lavraram essas ilhas
para arroz, cana-de-açúcar e sorgo,
ilhados por águas ebuliantes,
milhares do vasto delta
arrastados para a baía.
Não há registro do número de mortos,
pois meu avô, Govindu Dasu Garu,
morreu nessa Grande Enchente
conhecida como
Pedda Varadalu.

IN THE SOFT GLOW OF HALF-LIGHT
This cradle comes from far away,
with rocking feet,
a regal screen, a veil of lace,
a canopy arching into the night,
a sky of ebony
threaded with ivory light.
Gold-leafed wood,
lined in crimson cloth,
this cradle smells of red sandalwood,
carried from Tirupati
to hold two mirrored daughters close.
Sleep, sleep, Kamala,
Sleep, sleep, Padmini!
Hush now, my loves.

At first light, I promise you
a hummingbird in a golden tie,
a woodpecker
with a tuft of flame,
and a Kohinoor armlet.

À MEIA VOZ, À MEIA-LUZ
 
Vem de longe esse bercinho,
Pés de balanço maciço,
Anteparo regio, mosquiteiro de renda.
Dossel que vai ao lustroso céu de ébano
marchetado em cobre e marfim.
Berço de talha dourada
forrado em carmesim.
 
Vem de longe esse bercinho
Que cheira a pau-sândalo vermelho.
Berço que vem de Minas
Para acalentar idênticas meninas.
 
Dorme dorme Izula’
Dorme dorme Isaulina
 
Dorme logo meu amor
cedinho, pois, juro lhes dou
Um beija-flor de gravata iridescente
um picapau de topetinho bordeaux
e um bracelete Kohinor.

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