Maria Alzira Seixo – um breve In Memoriam por Onésimo Teotónio Almeida

De vários lados, chegou-me esta manhã a notícia da morte de Maria Alzira Seixo (ela detestava que a tratassem por Alzira Seixo, sem Maria), durante décadas Professora de Literatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Alguns perguntavam-me se tinha histórias sobre ela.

Os nossos contatos foram ocasionais e espaçados. A Maria Alzira era uma mulher de grande inteligência, mas demasiado sensível e capaz de ferver em água pouco mais que morna. Desde cedo pareceu-me que nunca faríamos muita farinha. Mas respeitei sempre o seu trabalho e era um prazer ouvi-la discorrer sobre um tema literário. Encontrámo-nos pela primeira vez num congresso pessoano em S. Paulo, em 1988, quando ela ainda estava muito apanhada pela barroca linguagem da crítica literária francesa. Falava tanto em “texto” que me recordo de, durante a sua conferência, ter escrito uma quadra terminando com o verso “Maria Alzira Texto”. Anos mais tarde, contei-lhe isso e ela pediu-me cópia. Guardei a quadra de certeza, contudo vá lá eu saber agora em que caixote.

Com o rolar dos anos, libertou-se do jargão e passou a escrever crítica literária em prosa escorreita e desenvolta. Dava gosto ler as crónicas dela na Visão.

Num Congresso da American Portuguese Studies Association realizado aqui na Brown, a equipa coordenadora convidou-a para fazer a conferência de encerramento. Fui o moderador da sessão. Recomendei-lhe que não fosse além dos quarenta minutos e lembrei-lhe que haveria apenas um quarto de hora para diálogo, o costumeiro por cá. Acrescentei que tinha de sair para gravar um programa de TV e por isso teríamos mesmo de cumprir o horário.

A Maria Alzira não trouxera texto escrito e lançou-se em divagações – interessantes e informadas, diga-se – sobre o tema. Na altura própria, dei-lhe sinal de ter apenas mais cinco minutos. A oradora ignorou e reincindiu todas as vezes que lhe dei sinal. Passava da hora e um quarto e eu não podia esperar mais. Em novo bilhete, indiquei-lhe que o seu tempo estava terminado, mas… nada de ela se calar. Voltei-me para a Leonor (que por acaso for a aluna dela na Universidade de Lisboa) e cochichei-lhe ao ouvido: Vais tu ficar a moderar a sessão porque tenho de seguir para a TV.

A Leonor, que detesta improvisos e, ainda pior, foge de intervenções públicas como o diabo da cruz, ficou capaz de me matar.

Saí. Soube depois que a Maria Alzira só se calou ao fim de uma hora e meia. Explicou-se mais tarde: Se me convidaram, foi para me ouvirem.

Outras histórias há, como por exemplo um seu pedido de socorro  via telefone quando foi enviada por uma instituição portuguesa para lecionar um semestre na Universidade de Chicago. Ao chegar, apercebeu-se de que tinha de lecionar em inglês e não conhecia obras de literatura portuguesa editadas em inglês. Lembrou-se de mim e, além de uma lista do que existia disponível, remeti-lhe um pacote de livros que na Gávea-Brown, eu tinha editado desde 1980, a começar com Jorge de Sena, incluindo Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Camilo Castelo Branco, Eugénio de Andrade e tantos outros. Mas esta nota já se alongou em demasia.

Um dos e-mails hoje recebidos veio do Funchal, do Paulo Rodrigues, professor na Universidade da Madeira. Evocava um, para ele inesquecível, serão aqui em casa por alturas desse colóquio, que aconteceu ocorrer quando ele estava na Brown em curta visita a fazer pesquisa para a sua tese. Enviou-me meia dúzia de fotos desse serão, novidade para mim. Não costumo partilhar fotografias em que o meu focinho figura, mas não posso apagar-me. Vão ter de seguir mesmo assim. Com um obrigado ao Paulo por esta inesperada lembrança.

Filamentos agradece ao Professor Onésimo Teotónio Almeida a autorização que nos concedeu para publicarmos este excelente texto e as fotografias.

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