A CONDIÇÃO MARÍTIMA de EXISTIR por MARIA LUÍSA SOARES

     Naquele ano de 2060 vivia-se já uma nova ordem mundial, com o oceano Atlântico a ser o novo centro de globalização e os Açores o ponto de cruzamento dessa globalização. Talvez por isso o terão escolhido os Musk- pai-e- filho, para um encontro que passasse despercebido, pois que anda muito em baixo a consideração que o mundo tem por este Musk-sénior, já centenário.
     __Sempre te disse, pai, que a colonização de Marte não tinha futuro. Os atlantes estão cheios de razão: o planeta que habitamos ainda não está completamente explorado.
     __A humanidade regrediu, foi o que aconteceu. Os teus atlantes andam a medir forças com o Atlântico, esquecidos do terramoto medonho que quase os destruiu. Oxalá não se venham a arrepender da doideira com que se empenham em fazer dele o novo centro da geopolítica global. Só mesmo atlantes irresponsáveis e sem visão de futuro…
   __Eles têm é os olhos bem abertos. Se Trump, Putin e Xi Jinping se tivessem entendido, aí é que teríamos regredido mesmo. Nem quero pensar nisso… De resto, pai, já há muito que tu e Trump andavam desavindos. E dos robôs que criaste nem é bom falar.
   __ Os humanos deste século estão a dizer adeus à imortalidade e à larga imensidão que o espaço planetário proporciona. Insensatos! Quem nos diz que não serão mais uma vez vítimas de um repentino cataclismo sísmico?
  __Só tens uma solução, pai: refugiares-te em Marte. Esses aí parece que te apreciam. Mas não irás gozar das grandes inovações criadas pelos atlantes. Uma delas, senão a principal, é a de acabar com o preocupante ritmo de desenvolvimento da IA sem regras nem limites. Só seres como os atlantes seriam capazes de conseguir isso. Agora calas-te, pai?
    Estava mesmo desanimado o Musk-sénior. Sentia-se um incompreendido. Um frustrado. Ele que fizera tudo para que o próximo passo civilizacional fosse o da colonização do espaço, a começar por Marte. Mas os humanos tinham preferido colonizar o mar. Colonizá-lo! Imagine-se. E espraia a vista pela grande área marítima que o rodeia, aquele Atlântico polvilhado de plataformas e de cidades a perder de vista. Quem podia prever uma coisa destas?
    __Vamos pai, bem sabes que és persona non grata aqui por estas paragens. Olha, há ali um vaporeto que vai sair!
    Mas atenção que já alguém o reconheceu e começam a chover imprecações: Que descaramento! Como se atreve ele?! E há quem passe das palavras à ação, por isso vemos uma mulher entrar em casa e de lá sair com um grande remo e a determinação de agredir alguém ou o que quer que se lhe atravesse no caminho:
   __ Canalha, não te chegam os teus laboratórios e os teus embriões artificiais? Vens tentar de novo destruir-nos a família? Vou dar cabo de ti, sacana!
    Mas, providencialmente, acaba de aparecer o carro gigante de um atlante. Tinha sido chamado para resolver mais um caso de uns açorianos que não estavam satisfeitos com a sua casa marítima e andavam a pensar em aceitar a proposta de Musk e fixar-se num recém-descoberto planeta, próximo de Marte. Mais uns que desconheciam como essa proposta deixara de fazer sentido há muito. Já está habituado a estas ocorrências. E sim, mais uma vez se aquietam os ânimos à sua volta. Mas, ah, um atlante também se cansa! Quando irá a humanidade dar o devido valor àquilo que tem?
   Nunca se tinham conformado os atlantes com a tragédia da Atlântida. E à medida que a disputa pela hegemonia global ia crescendo de forma assustadora, mais eles se sentiam tentados a intervir, pois sabiam, tinham a certeza de que o mundo podia ser bem diferente.
    E agora é com um casal que depara, a mulher, muito faladora e, pelo que se percebia, a favor da permanência marítima, ele, porém, em aberta discordância:
  __ Este homem só me envergonha quando me diz coisas destas. Meteu-se-lhe na cabeça que arranjei um caso, e agora com a casa mobilada e tudo o mais, quer voar para as vizinhanças de Marte!
     O dito é um sujeito a caminho da meia-idade, que impavidamente ostenta o colorido de inúmeras tatuagens e que, à laia de cumprimento, lhe diz: Não se impressione, meu caro, as tatuagens preenchem o enorme vazio com que nascemos.
    Pois, nem todos podem ser atlantes. É a vida. Mas a obrigação de um atlante é mostrar caminhos: _Olhe que se ficar por cá tem todas as condições para socializar e conviver. Os Açores tornaram-se o centro da nova globalização, meu amigo. Além disso, está a falar de um programa de Musk que já não existe há muito.
    __Vês? Cresce, homem! Cresce! Já deu para perceber que pertences àquele número de homens incapazes de arriscar uma relação humana normal! Adeus. Felizmente nem todos são como tu! E abala numa pressa descontrolada.
      O indivíduo do “enorme vazio” humano suspira. E que pode um atlante fazer? Apesar de tudo pergunta:
  __ Diga-me: o motivo dessa insatisfação ou vazio, como lhe chama, é afinal a casa ou a moça?
  __ Oh, aconselho-o a que se familiarize com a insatisfação humana, companheiro.
   O gigante sorriu, satisfeito com aquele “companheiro” e diz: Ora, insatisfação não rima com o muito que ainda existe em germinação neste mar açoriano! Suponho que a casa de que falamos se situa além no mar, perto do ilhéu das Cabras (já se criaram quatro cidades mas ainda nem todas têm o respetivo nome, por mais incrível que pareça!)? Mas por certo concordará comigo que tinham razão os visitantes estrangeiros quando propalavam aos quatro ventos que o mar dos Açores era um paraíso natural…
   Silêncio. O silêncio onde também germinam coisas boas.
  __Não posso dizer que não seja agradável esta condição marítima de existir, descobrir coisas novas e experimentá-las. E… Mas não imagina a razão do comportamento da minha companheira, pois não? Eu conto-lhe: num fim-de-semana recente tínhamos combinado repetir em grupo um passeio aquático. Tornou-se como que um vício mergulhar na limpidez das águas do mar e explorar aquela visão de profundezas, desvendar o mistério das águas que lá muito no fundo continuam a prometer grandes coisas.
   __Como eu o entendo, companheiro!
  __Sobretudo os bancos. Os bancos fascinam-me. Serão eles ilhas submersas de outros tempos? Ou quem sabe, talvez ilhas ainda a ser no futuro…? Mas, continuando: quando o passeio ainda estava longe do fim, aconteceu um percalço inesperado: um dos submergíveis teve uma avaria e gerou-se um enorme alarido. A Sofia reage sempre mal a coisas deste género, descontrola-se. Mas, claro, todos nos esforçámos por lhe dar o apoio possível. Nada aconteceu de grave, recompusemo-nos e pudemos regressar a terra como previsto. Só que num dos outros submersíveis, vinha um sujeito, ex-namorado da Sofia, que digamos, exagerou em todo o processo de ajuda que lhe deu, principalmente já cá fora, a ponto de se intrometer de forma parva e desnecessária. Uma situação, possivelmente, já vivida por alguns de nós, e a que eu não daria a mínima importância se posteriormente…  Bem, pois posteriormente pareceu ter-se reacendido o antigo romance entre ambos. Sim, com telefonemas, alterações de programas por causa dele, etc.,etc.. Enfim, tudo isto fez-me repensar o futuro. Até inventei aquela de alinhar num dos tais programas malucos do Musk. Et voilà.
  __Oh, então vejo que não temos nenhum problema, afinal! Bem vi pela maneira como reagiu ao afastamento da sua companheira, que a mim me pareceu um rompimento definitivo, mas que a si não o afetou sobremaneira. Sabe, às vezes a vida leva-nos, por caminhos estranhos, a pôr um fim a situações indesejáveis.
   Com o que este indivíduo tatuado não podia estar mais de acordo:
   __Companheiro, e se fôssemos beber um copo?
   __Ia propor-lhe o mesmo! Vamos brindar, companheiro, aos novos tempos, às tatuagens e à insatisfação humana

Maria Luísa Soares, escritora.

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