Notas de Leituras por José do Carmo Francisco

“Em poucas linhas, a leitura transforma-se em pensamento e o pensamento em convite: entrar no livro e sair dele diferente.”

Santos Fernando SEXO 20

Santos Fernando (1927-1975) estreou-se em livro com «A. ante, após, até» em 1957, é autor de 13 livros sendo «SEXO 20» o seu último, escrito em 5-3-75. Esta edição recente (Sulfúria Edições, Apresentação de Vitor Rodrigues e Prefácio de Luís Santos) substitui a já esgotada de 1975 (Editorial Futura) e nas suas 167 páginas vem confirmar uma advertência do autor: «Não se escrevem já livros extensos. Livros longos e mulheres enormes assustam. O leitor tem pressa.» Este livro parte da «ressurreição» do avô Lindolfo (morto em 1900) que chama «sexo 20» ao século 20. Lê-se na página 15: «Nem todos poderão ressuscitar todos. Todavia alguns podem trazer à vida uns tantos.» Antes o avô avisa: «Enquanto se está sob a terra revitalizadora uma pessoa transforma-se. Daqui a um século ou dois, seria árvore.» Escrito em 1975, há no livro um olhar sobre o presente («Os meus dois sobrinhos escrevem nas paredes, colam cartazes, passam a vida em comícios!») mas também sobre o passado: «Os mortos vivem em paz e os vivos viviam mortos». O texto fixa um «raio X» do tempo de 1975 que, tantos anos depois, continua igual – mais coisa menos coisa: «Não há tempo paras ler, para conversar. É só premires o botão da caixa e entra-te a tropa pela casa dentro, o médico, o advogado, o drama familiar, a filosofia, o francês sem mestre, a publicidade que te obriga a usares o que eles querem, não o que te apetece.» A escrita é (ela mesma) objecto de reflexão: «Já risquei três vezes esta frase. Mas fica. É bom riscar. Se vencermos o risco é porque as palavras têm força.» Um livro a não perder; há nele as «sinuosas veredas do mistério» da Vida e da Arte.

José do Carmo Francisco, escritor

Notas de Leituras — por José do Carmo Francisco

Há leitores que passam pelos livros como quem atravessa uma sala; e há leitores que ficam, escutam, demoram-se. José do Carmo Francisco pertence a esta segunda linhagem: a dos que leem com o ouvido colado à página e com a memória aberta ao mundo. Cada texto seu não é um resumo, mas um gesto de aproximação — um convite silencioso para entrar no livro por dentro.

Nas Notas de Leituras, cada obra é tratada como um território vivo. Em poucas linhas, José do Carmo Francisco condensa épocas, estilos e vozes diversas, ligando autores distantes no tempo por um fio comum de inquietação humana. A leitura surge como ato crítico, mas também como forma de delicadeza: há rigor sem dureza, densidade sem peso.

Esses textos não pretendem fechar sentidos. Pelo contrário, abrem frestas. São mapas breves que não substituem a viagem, apenas a tornam mais consciente. Entre romances, poesia, ensaio e memória, o leitor encontra aqui um olhar que ilumina sem ofuscar — um modo de ler que é, em si mesmo, uma forma de escrita.

Ler José do Carmo Francisco é aprender que cada livro continua depois da última página, desde que alguém saiba escutá-lo com atenção e dizer o essencial com economia e beleza.

   

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