Carta a Manuel Díaz Martínez, longe do Atlântico, que também é meu.

Por ocasião do VIII Encontro Internacional de Poesia da Macaronésia que destacou a poesia do poeta cubano Manuel Díaz Martínez.

Estimado Manuel,

Permita-me que lhe escreva esta carta longa, com o recato e a lentidão a que obriga a verdadeira admiração — não aquela inflamada que se esgota num gesto, mas a outra, a mais rara: a que nasce de um silêncio prolongado, de uma comunhão de inquietações, de uma fraternidade que só a literatura pode fundar entre dois seres que nunca se conheceram e, ainda assim, se reconhecem.

Escrevo-lhe com saudades do Atlântico que separa continentes, mas também os aproxima; escrevo-lhe a sentir a falta do mar que o levou, o trouxe e lhe guardou a voz. Não sei se o mar realmente transporta mensagens, mas sei que, ao voltar aos seus versos, tenho a sensação de que cada linha é já, por si, uma carta lançada à água — uma garrafa transparente contendo as suas vigilâncias, o seu exílio, a sua ternura contida, o seu desencanto luminoso, a sua fidelidade à verdade, ainda que essa fidelidade lhe tivesse custado tanto.

Permita-me, pois, seguir o movimento lento desta água que nos une, e escrever-lhe com o mesmo respeito com que se dirige a um velho mestre que nunca perdeu a juventude do olhar.

I. Cuba, a Primeira Casa

Recordo-me da primeira vez em que li um dos seus versos iniciais — aquele que, de forma tão despretensiosa e tão definitiva, dizia: “La isla es un círculo de agua que a veces quisiera romper.”

E lembro-me de ter parado a leitura, não por incompreensão, mas por excesso de compreensão.
Naquele verso reconheci não apenas a sua voz, mas o destino insular de todos os que, vindos de uma ilha, sabem que a alegria de um círculo é também o aperto do seu desenho.

Permita-me dizer-lhe, Manuel, que Cuba o formou com a mesma intensidade com que o feriu. A ilha deu-lhe tudo o que uma pátria pode dar — língua, cadência, sol, infância, pertença — mas também lhe deu aquilo que apenas certas pátrias dão aos seus filhos mais lúcidos: a dolorosa necessidade de partir.

Nunca lhe perguntei, porque não posso, o que sentiu quando viu que o país que amava se afastava de si; mas sei que, quando escreve: “El miedo se sienta en mi casa como un huésped que trae su cama,” não se trata apenas de imagem poética — é o testemunho de uma vida atravessada pela vigilância. Sei também que este “hóspede” silencioso foi quem começou a empurrá-lo, devagar, rumo ao exílio.

E, no entanto, Cuba nunca o abandonou. Cuba continua a respirá-lo, mesmo quando dolorosamente ausente.  Porque o exílio, como sabe, não é apenas uma partida; é o prolongamento da pertença.

II. O Exílio Como Segunda Pele

Sinto, ao ler a sua obra, que o exílio não começou no dia em que embarcou. Começou antes, no instante em que a consciência se tornou maior do que a ilha, e a ilha, ameaçada pela lucidez, o quis mais pequeno do que era.

E esse exílio interior, Manuel — essa amputação silenciosa — traduz-se na sua obra como uma segunda pele, delicada e resistente, que o acompanha até às Canárias.

Quando enfim atravessou o mar e viu diante de si o arquipélago que seria sua segunda morada, sei que encontrou algo raríssimo: não uma terra para substituir a primeira, mas uma terra que lhe devolveu a respiração. Há versos seus que são verdadeiras declarações de gratidão; talvez o mais belo, pela simplicidade, seja este:

“En esta isla el silencio no es una orden.”

E aqui, com seu perdão, permito-me dizer que senti uma espécie de libertação vicária, como se eu próprio, ao lê-lo, tivesse sido salvo de uma sombra que nunca me alcançou.

As Canárias tornaram-se para si não apenas refúgio, mas claridade moral, lugar de restauro, uma segunda ilha que não lhe pediu justificações e não lhe arrancou a voz.

III. O Mar Como Deus e Testemunha

Entre as duas ilhas, paira sempre o mar.  O mar que separa, o mar que conduz, o mar que testemunha, o mar que devolve.

Poucos poetas o entenderam tão plenamente como o senhor, Manuel.  O mar não é metáfora: é personagem. É deus antigo, é velho juiz, é mensageiro sem pátria.

E quando escreveu:

“El mar me trajo hasta aquí como una carta extraviada,”

confessou a uma só vez a sua perplexidade e o seu destino.  Ser “carta extraviada” não é ser perdido: é ter sido reenviado pelo mundo para o lugar certo, ainda que por caminhos tortuosos.

Talvez por isso, quando hoje leio a sua obra reunida, sinto que ela inteira é uma cartografia atlântica: desenha correntes, ventos, memórias, despedidas, e sobretudo desenha um regresso que não é geográfico, mas ético e interior.

IV. As Etapas da Claridade

A sua obra tardia, Manuel —
Confesiones, Hombre de otoño, Poemas para andar por el frío

El otro año del mundo — é de uma serenidade que raramente encontro na poesia do exílio.
Não há histeria, não há ressentimento, não há desejo de vingança.

Há, isso sim, a firmeza tranquila de quem viu a queda das ilusões e não se tornou menos humano por causa disso.

Os seus versos destes anos parecem escritos por alguém que aceitou o tempo, aceitou a perda, aceitou a travessia.  São versos de maturidade plena, versos de outono, versos de reconciliação impossível, mas não amarga.

E é por isso que me detive longamente quando encontrei estes dois versos, talvez os mais luminosos: “No regreso porque lo que fui no me espera.”  Nunca li uma confissão tão despojada,
tão verdadeira, tão humana no reconhecimento de que o regresso é impossível, não porque falte vontade, mas porque falta o tempo.

V. A Pátria da Palavra

E aqui, Manuel, permito-me a última confidência: entre todas as definições de pátria que já li,
nenhuma me tocou tão profundamente quanto esta sua:  “No tengo más patria que estos versos donde respiro.”  Uma pátria que é ar.  Uma pátria que é ritmo.  Uma pátria feita de respiração.
Uma pátria onde todos os que o leem podem entrar — inclusive eu.

E é por isso que lhe escrevo esta carta:  porque a sua poesia se tornou também a minha morada,
a minha ilha transitória, o meu pedaço de luz.

VI. Despedida

Não sei se esta carta o alcançaria, mesmo que o mar a levasse por entre correntes benevolentes.
Mas sei que a sua obra — essa, sim — chega a quem precisa dela.

Chega aos que perderam um país, chega aos que perderam uma ilusão, chega aos que perderam uma voz.

E devolve-lhes algo mágico: a consciência de que é possível continuar, de que é possível respirar, de que é possível renascer noutra ilha, noutra luz, noutra pátria de papel.

Receba, Manuel, do outro lado do Atlântico, quase a tocar no Pacífico, na distância luminosa onde imagino que habita, a minha gratidão profunda, o respeito silencioso e a certeza de que, enquanto houver leitores, a sua travessia permanece.

diniz borges

FOTO DO ENCONTRO–POETA AQUILES GARCIA BRITO, ORGANIZADOR

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