Leitura de “Chamamento: por Santos Narciso

João Gago da Câmara, amigo, homem de sete ofícios e múltiplos saberes, apresentou, em Ponta Delgada, nas Letras Lavadas, o seu novo livro, de feliz título “O Chamamento”. Deu-me a honra de o ler em formato digital, já que a minha visão, ou falta dela, me dificulta a leitura em papel.

O livro marcou-me, sem ser surpresa, pois guardo bem vivas as minhas impressões sobre os seus “Fragmentos entre dois Continentes” e “Dos Vulcões ao Desterro” que li há já mais de meia dúzia de anos e sobre os quais escrevi: “Temos escritor”.

Neste “O Chamamento”, romance de ilhas e continentes, de edílios e sofrimentos, a lembrar-me “Crime e Castigo” de Dostoiesvki, título desvendado em encontro proibido no meio de milheirais, misticismo rural, a que não faltou almoço levado por um Barbado da Terceira, João Gago da Câmara agiganta-se, sem deixar de ser ele mesmo, rreverente quanto baste, dotado de um espírito aventureiro só próprio de quem sabe manter sempre uma mente jovem e aberta, alguém que se impõe pela sua maneira de ser muito própria e independente, que o leva a ser um apaixonado pelas coisas de que gosta e por aquilo que faz, desde o jornalismo e da rádio, até aos aviões e desporto (atchimmm).

E neste romance, o muito que me tocou o cenário do Raminho, eu sempre a ver o grande e imorredouro Álamo Oliveira, ali nascido, e o seu “Sábio da Miragaia” que no Raminho bem podia ser João Penacão e suas sentenças. Como João Gago da Câmara entra e descreve vivências, solidões e pitafes dos meios rurais terceirenses, eivados de um certo anticlericalismo tão típico do dobrar do século XX.

Tudo isto em contraponto com o trabalho e vida nas terras grandes e indomadas da Califórnia.

O mítico das cartas da América onde o alegre dom dos nascimentos e do dinheiro se mistura com notícias da prisão do Kevin, tantos Kevin da nossa emigração.

Um romance que envolveu estudo, investigação e, acima de tudo, assimilação de usos e costumes da viragem do século XIX para o século XX.

Nada quero revelar do romance que hoje vai ser apresentado e que num dos seus cenários me leva aos tempos de cowboys e índios e noutro às rivalidades intestinas como as dos “bananas” e dos “francisquinhos” do Raminho. Mas não posso deixar de salientar a força subjacente ao que escreve João Gago da Câmara: “O isolamento não se circunscreve apenas à ilha, segue com eles porque faz parte de si mesmos. O isolamento está onde um açoriano estiver”, o que faz jus e completa o que já escrevera em “Fragmentos entre dois Continentes”, e que mostra o sentido “diaspórico” que dorme dentro de qualquer açoriano: “Ser ilhéu é saber ver partir sem desesperar, é chorar o filho que ruma à nova vida, é dar mais salgado de lágrimas ao mar. Porque estes rochedos do nosso contentamento são eles também pedras que nos apartam e que nos retêm”.

Parabéns, Amigo João Gago da Câmara, por este teu belo e profundo “Chamamento”.

Santos Narciso

Agradecemos ao distinto jornalista Santos Narciso a oportunidade de publicarmos este belo texto sobre o novo livro de João Gago da Câmara.

Leave a comment