
Os Encontros de Poesia da Macaronésia são muito importantes, mas ainda mais importantes são os livros que resultam dos Encontros de Poesia da Macaronésia. Porque arquivam para memória futura e porque divulgam para conhecimento geral.
Foi sempre assim nos encontros realizados em Ponta Delgada em 2017, no Porto Santo em 2018, de novo em Ponta Delgada em 2019, em Las Palmas em 2021, de novo no Porto Santo em 2022 e na Praia em 2023.
Também assim foi quando regressámos a Ponta Delgada para o nosso VII Encontro em novembro de 2024.
Por isso, neste VIII Encontro, aqui está o livro das atas da edição anterior.
Chama-se Poetas de Mar – porque é disso mesmo que se trata – e reúne as comunicações apresentadas por 20 representantes dos Açores, da Madeira, das Canárias e de Cabo Verde, mas também do continente português e da décima ilha açoriana nos Estados Unidos da América.
A melhor maneira de apresentar este livro é citar os seus autores, porque o mérito dele é deles.

O primeiro capítulo corresponde ao primeiro painel, intitulado “A Poesia como janela da Liberdade (nos 50 anos de abril)”.
Aníbal Pires, dos Açores, escreve que “na poesia a linguagem é reinventada, ganhando novas formas e significações e cada palavra pode abrir um espaço onde o autor e o leitor podem encontrar e criar as suas verdades, escapar de realidades opressoras e tocar o intangível”, ou seja, “a poesia é o lugar das palavras que mudam o mundo”.
Emanuel Bento, da Madeira, faz uma declaração pessoal: “Ao mesmo tempo que acredito no homem e na liberdade, ao mesmo tempo que amo a poesia e a sua capacidade de nos espantar e fazer chorar, não importa que tipo de lágrimas, nunca esqueço que, em dicotomia, existimos e somos no que fazemos”.
Isa Guerra, das Canárias, considera que “expresarse poéticamente significa revelar lo universal a través de lo singular, y esto se logra mediante el mecanismo de despersonalización del poeta, que constitue, y ya lo decíamos en otras ocasiones, la base para alcanzar la universalidade de lo poético”.
Luís Filipe Sarmento, de Lisboa, recorda que “a poesia portuguesa de combate foi uma expressão vital da resistência à opressão durante a ditadura do Estado Novo. Ao desafiar a censura e lutar pela liberdade, os poetas não apenas plasmaram a cultura literária do seu tempo, mas também deixaram um legado duradouro que continua a inspirar novas gerações a lutar pela justiça e pela liberdade de expressão”.
Marcos Hormiga, das Canárias, reforça que “para los interesados en la poesía y narrativa social, sin la menor duda, el tiempo en la clandestinidad fue de producción contestatária, lectura secreta, rebeldia intelectual de mucha profundidad, considerable calado, en definitiva: ardida literatura”.
E Vera Duarte, de Cabo Verde, declara que “os poemas que cantam a liberdade são dos maiores catalisadores para as revoltas, insurreições e revoluções”, citando Zeca Afonso em Portugal, Natália Correia dos Açores, Abílio Duarte em Cabo Verde, Pedro Garcia Cabrera nas Canárias e Herberto Hélder na Madeira.
O segundo capítulo do livro, como o segundo painel do Encontro, tem por tema proposto “A Poesia como casa do Amor (nos 500 anos de Camões)”.
Amélia Sophia, dos Açores, considera que “a poesia é o género literário que, não sendo o único, melhor encarna o próprio amor” e acrescenta que “a poesia não é só a casa do amor, é sobretudo a casa da Alma”, para concluir que “hoje, mais do que nunca, o mundo carece de alma e de amor”.

Aquiles García Brito, das Canárias, escreve que “el amor es un juego apasionante y el mejor sustituto del amor, de aquel amor inmenso, el amor único, el verdadero amor que no atiende a lo que da, sino a lo que merece el amado. Se dice pronto esto de la verdad personal de un poeta, pero no olvidemos jamás que: El amor es hermoso aun como juego”.
Henrique Levy, dos Açores, carateriza assim o universo poético: “Ensinamento moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo, voz do povo, língua dos escolhidos, palavra filosófica do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular ou minoritária, coletiva ou pessoal, nua ou vestida. Falada, pintada ou escrita, a Poesia ostenta e ostentará todas estas faces”.
E Leonor Sampaio Silva, dos Açores, declara que “entre nós, o grande poeta do amor é, sem dúvida, Luís de Camões. Além disso, nos tempos que atravessamos, em que o ódio sobe a palanques dantes clandestinos para, agora, à vista de todos, injetar venenos em audiências cada vez mais numerosas, nunca é excessivo falar de amor, seja na vida seja na poesia”.
O terceiro capítulo, no terceiro painel, olha “A Poesia como palco da Revolta (à sombra dos direitos humanos)”.
Alexandre Faria, de Lisboa, proclama que “se cada silêncio tem uma consequência, cada palavra também, e as grandes revoluções só acontecem connosco. Só a poesia permite seres livres. Não há revoluções sem poesia, não há revoltas nem alterações sociais sem poetas. Acreditem nisso, porque tem sido assim desde os primórdios da humanidade”.
Ângela Almeida, dos Açores, questiona “o que é o poema, senão a tradução transfigurada do invisível, da mutilação da vida, dos sentidos, mas também da plenitude do voo na transcendência de cada vocábulo?” E conclui: “O poema é uma constelação vocabular que pertence a um tempo próprio, fora do contexto histórico, tornando-o uma morada eternizante, capaz de resgatar e agregar vozes, lugares, sentimentos, sentidos, circunstâncias que no imenso clarão do poema podem coabitar”.
Daniel Medina, de Cabo Verde, nota que “a poesia de revolta na Macaronésia é um reflexo das condições particulares de cada arquipélago, mas é também uma demonstração da força da palavra como arma de resistência e luta por identidade e liberdade”. E concretiza: “Poetas como Ovídio Martins em Cabo verde, Natália Correia nos Açores, Pedro García Cabrera nas Canárias e Herberto Helder na Madeira usaram a poesia para denunciar a opressão e afirmar a identidade insular, cada um à sua maneira, contribuindo para um legado literário de resistência que ainda ressoa nas gerações atuais”.
Diniz Borges, da Califórnia, começa assim: “Há muito que a poesia serve de voz aos oprimidos, oferecendo uma plataforma para a articulação da discórdia e um apelo à justiça. Em tempos de agitação social e tensão política, os poetas têm constantemente utilizado as suas palavras para esclarecer injustiças, promover a igualdade e exigir a liberdade”. E assim conclui: “Os poetas contemporâneos da multiculturalidade americana dão continuidade a este legado, utilizando a sua arte como instrumento de protesto na luta contínua pelos direitos humanos”.
Manuela Vieira, da Madeira, resume desta forma a sua comunicação: “O uso de linguagem poética permite que emoções intensas e complexas sejam transmitidas de maneira impactante. Entender a poesia como um ‘palco da revolta’ é reconhecer o seu potencial transformador e libertador, capaz de inspirar mudança e fomentar uma sociedade mais justa: é um estímulo à reflexão; promove a rutura de normas; é a voz do silencia provocado”.
E Vitor Sousa, da Madeira, começa de forma enigmática: “Um poeta nada pode senão escrever. Mais: um poeta nada pode se não escrever”. Mas depois explica: “Um poeta nada pode a não ser escrever e nada pode se o poema ficar por escrever. Escrevendo ou não, um poeta pode pouco. O poema pode mais”.
Finalmente, o tema proposto para o quarto painel do Encontro no quarto capítulo do livro: “A Poesia como ponte das Ilhas (à luz da Macaronésia)”.
Armando Moreira, dos Açores, considera que “a poesia que se construiu na palavra de Camões ganhou forma e riqueza, no crioulo e no espanhol, numa união atlântica, que se engrandece na expressão poética, construtora de uma cultura única e unida pela história”.
Catarina Sofia, da Madeira, reforça que “as ilhas da Macaronésia distinguem-se de outras ilhas do globo provavelmente pela herança histórica mais antiga com papel crucial na Era dos Descobrimentos, moldando profundamente as suas línguas (português e espanhol), as tradições e a identidade insular de cada ilha, muito marcada pela emigração em busca de melhores condições, ou pela aventura e ambição de descobrir o mundo, de ir para além dos oceanos”.
Pedro Paulo Câmara, dos Açores, acrescenta que “o papel da Poesia – e da poesia da e na Macaronésia – vai-se ampliando, pois promove o conhecimento simbólico do mundo e da essência humana, vivificando a empatia e facilitando o diálogo entre homens e comunidades, transformando este mundo num espaço de partilha harmoniosa. A Poesia constrói o Mundo”.
E Teresa Klut, da Madeira, declara por fim: “Esse mar que nos aparta é o mesmo que nos une, um mar de poetas atlânticos que se uniram para rezar a palavra e louvar os poetas que cruzam os mares de seiva vermelha que o dragoeiro derrama nas nossas terras e que correm para o mar. Somos dragoeiros intemporais. Estamos plantados no jardim das delícias terrenas”.
Assim falaram estes 20 poetas e outros 4 que não conseguiram reproduzir as suas comunicações para este livro – João Pedro Porto, Paula de Sousa Lima, Ana Isabel d’Arruda e João Carlos Abreu – também aqui solidariamente recordados.
Uma palavra final, de merecido reconhecimento, para a Câmara Municipal de Ponta Delgada, na pessoa do seu presidente Pedro Nascimento Cabral, que assina o texto inaugural: por ter suportado a organização do Encontro e por ter apoiado a edição do Livro.
Enquanto houver quem acredite na Poesia, continuaremos a encontrar-nos. Para honrar a Poesia e para cumprir a Macaronésia!
José Andrade
Comissário do Encontro Internacional de Poesia da Macaronésia para a Região Autónoma dos Açores
A apresentar o livro das atas do VII Encontro Internacional de Poesia da Macaronésia (Ponta Delgada, novembro de 2024) no VIII Encontro Internacional de Poesia da Macaronésia (La Palma, janeiro de 2026)
