Malefícios da indiferença por Victor Rui Dores (poeta)

Foi a indiferença que levou Hitler ao poder.

Martin Niemoller, pastor luterano alemão que se opôs ao regime nazi, escreveu numa confissão sobre a indiferença:

“Primeiro levaram os comunistas e eu não me importei porque não era comunista… Depois levaram os judeus, eu não me importei porque não era judeu… Quando me vieram buscar já não havia ninguém para protestar por mim”.

Eis um aviso de gritante atualidade, numa altura em que assistimos à deriva da democracia e a valores do humanismo que se esboroam e vão dando lugar a populismos desvairados.

É curta a memória dos povos e a indiferença mata. Não nos esqueçamos que foi devido à indiferença que muitos livros acabaram nas fogueiras inquisitoriais, e que devido ao desprezo pela cultura foram destruídos os Budas de Bamiyan e as ruínas de Palmira. Pelas mesmas razões, os russos invadiram a Ucrânia e Israel continua a cometer genocídio…

Francis Fukuyama estava completamente errado ao antever, em 1992, um romântico “fim da História”. A História repete-se e são enormes os perigos se não aprendermos com os erros do passado. Porque é certo e sabido que quem esquece o passado, arrisca-se a vivê-lo outra vez.  Já um século antes, Karl Marx, no seu livro O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852), escrevia: “A História repete-se, primeiro como tragédia e depois como farsa”, indicando que eventos sérios e dramáticos (tragédia) tendem a reaparecer de forma atenuada, ridícula ou absurda (farsa) na segunda vez, mas a repetição não significa felicidade, pois afeta ainda as pessoas, sendo um processo contínuo de exploração e luta de classes.

Os Putins, os Erdogans, os Lukashenkos, os Órbans e os Netanyahus eternizam-se no poder… E temos a extrema-direita dos Ficos e dos Tusks que de lá não saem tão cedo. E, espreitando ao virar da esquina, à espera dos deslizes da democracia e prontinhos para tomar a governança de assalto, estão os Trumps, os Salvinis, as Le Pens e os Venturas desta vida…

Os ditadores (os de ontem e os de hoje) sabem do perigo que a cultura pode representar; sabem, sobretudo, que um cidadão informado e com acesso à diversidade de opinião é mais difícil de controlar pelo pensamento único. Manter a população o mais possível ignorante sempre foi a política dos déspotas. Daí a censura, a prisão, a repressão e a opressão aos que ousaram saber da “cor da liberdade”.

Pascal identificou este problema em relação à ignorância nos seguintes termos: “um coxo sabe que é coxo, mas um ignorante, precisamente pela sua ignorância, não sabe que é ignorante”.

É o caso do não confiável Trump e das suas delirantes ideias de ocupação  e anexação, ele que se está borrifando para o Direito Internacional, para a Carta das Nações Unidas e para a NATO. O presidente dos EUA prefere o direito da força à força do Direito. E a si próprio impõe apenas um limite: a sua “moralidade”. Seria cómico se não fosse trágico.  

Ora, ainda bem que, na sua infinita ignorância, Trump nunca lerá os 3 volumes dos Anais da Família Dabney no Faial… Porque se o fizesse iria descobrir que, em pleno século XIX, o seu compatriota Charles William Dabney sonhava ver os Açores transformados num protetorado norte-americano…

Nos anos 40 do século XX e certamente a pensar na Base das lajes da ilha Terceira, escreveu Vitorino Nemésio: “Os Açores são um porta-aviões de 600 km tantos quantos separam Santa Maria do Corvo”. Desde as Descobertas que estas ilhas possuem a importância geoestratégica que se lhes reconhece. Somos, efetivamente, um porta-aviões no meio do Atlântico. Mas fiquem os açorianos descansados. A Base das lajes não será anexada por Trump já que, bem vistas as coisas, aquilo já é território norte-americano. Entre 1981 e 1982 cumpri lá  serviço militar obrigatório como alferes. E posso garantir que a Base é portuguesa, mas quem lá manda são os americanos…

Avizinham-se tempos difíceis e envoltos em perigos assombrosos. Como combater a corrupção, a judicialização da política, a politização da justiça, e tantas outras desgraças que andam por aí à solta?…

A guerra na Ucrânia não tem fim à vista… Os esforços diplomáticos para pôr termo a este conflito armado têm sido infrutíferos, o cessar-fogo não acontece e a paz tarda em chegar. Indignados e impotentes, vamos assistindo, diariamente na televisão, à infame destruição de zonas habitacionais num dramático requiem de violência, sofrimento e morte.  Massacres contínuos e continuados.  Atrocidades brutais contra civis.

Perante esta banalização do mal, e num tempo marcado por muitos ruídos e dissonâncias, eu, que sou um pessimista com esperança, vou perdendo toda e qualquer ilusão. O mundo precisa de paz. A NATO está em agonia. A Europa está enfraquecida e Portugal necessita, urgentemente, de um acordo de regime em matéria de saúde, educação, justiça e segurança social.

Infelizmente, os nossos valores culturais continuam muito cristalizados no passado: o que é difícil não é aderirmos a ideias novas, o que é difícil é libertarmo-nos das ideias velhas…   

                                           Victor Rui Dores, poeta

Filamentos is a bilingual arts and letters platform where diaspora and origin speak to one another—and to the wider world—through shared cultural inquiry and creativity, lived diasporic experience, and common humanistic values.

Filamentos é uma plataforma bilíngue de artes e letras onde diáspora e origem dialogam entre si — e com o mundo — através da partilha da investigação e da criação, da experiência diaspórica vivida e de valores humanistas comuns.

Leave a comment