
A História habituou-se a falar de cima. Elevou a voz, afinou o vocabulário, cercou-se de método e erudição. Nesse movimento afastou-se daquilo que dizia querer compreender e relatar, a vida vivida. Tornou-se um discurso vertical sobre o passado, quando deveria ser uma escuta horizontal do humano. Confundiu rigor com distanciamento e autoridade com verdade. Como se a complexidade da existência e da vida dos povos pudesse caber em cronologias, datas, genealogias, sucessões dinásticas, e episódios escolhidos para legitimar uma ideia de grandeza.
Ao organizar o tempo em linhas retas e progressivas, a História ignorou que os processos são cíclicos, instáveis, feitos de tentativas, recuos e adaptações. A biologia sabe-o bem. Nenhum organismo evolui por triunfo contínuo. Sobrevive por erro, cooperação e resiliência. As sociedades humanas não são diferentes. No entanto, a narrativa histórica preferiu os espetaculares momentos de rutura, as guerras, conquistas, fundações. E numa retórica de vitória, silenciou os ritmos lentos do trabalho, do cuidado, da transmissão oral, da subsistência quotidiana. Escolheu os vencedores como medida do real e tratou o comum como mero ruído ou pano de fundo. Essa escolha não é inocente. Ao transformar o passado em épica, a História tornou-se cúmplice do poder. E foi assim, que a História trocou a observação pela ornamentação do discurso, a dúvida pela autoridade instituída, a pergunta pela versão encerrada e transmissível. Esqueceu-se que o conhecimento só começa quando abdica da reverência e aceita confrontar-se com o que desmente os seus próprios relatos. E que nenhum saber é legítimo se não estiver disposto a escutar aquilo que foi silenciado porque não servia a ordem instalada.
Talvez por isso, África tenha sido, durante séculos, empurrada para fora da História. O berço da humanidade, onde surgiram as primeiras ferramentas, as primeiras formas de arte simbólica, os primeiros sistemas complexos de organização social, as primeiras religiões, foi reduzido a prólogo ou nota de rodapé. Em seu lugar, os compêndios ergueram uma genealogia confortável onde constam gregos, persas, romanos. Como se a ciência, a matemática, a astronomia ou a medicina tivessem brotado, subitamente no Mediterrâneo, desligadas de milénios de saber africano. Esta amputação não é apenas uma injustiça académica. Revela uma violência simbólica que empobrece a compreensão do humano e reforça hierarquias que ainda hoje moldam o mundo.
Reaproximar a História da vida dos povos exige uma mudança profunda de atitude. Não basta acrescentar novos capítulos ou nomes esquecidos. É preciso alterar o olhar. Trocar a obsessão pelo acontecimento excecional por rigorosa atenção aos processos longos. Integrar saberes da antropologia, da arqueologia, da biologia, da climatologia, e da memória oral. Levar a sério as ilusões, os medos e as esperanças das comunidades, não como folclore, mas como dados históricos. Reconhecer que as casas que ruíram sem registo, as migrações anónimas, as resistências silenciosas e as crenças quotidianas dizem mais sobre uma época do que reinados, tratados e batalhas.
Uma História mais consentânea com a vida será necessariamente mais humilde. Aceitará o erro, a revisão constante, a incompletude. Não se apresentará como narrativa definitiva, mas como processo aberto de interpretação. Aproximar-se-á mais da ciência do que da literatura do poder, sem abdicar da linguagem, mas recusando o ornamento vazio que afasta em vez de esclarecer.
Num arquipélago como os Açores, onde a História se construiu à margem dos grandes centros e longe das narrativas triunfais, esta reflexão não é exercício abstrato. Aqui, durante mais de quinhentos anos, viveu-se o isolamento, a travessia incerta, a escassez persistente e a adaptação como regra de sobrevivência. A vida raramente se fez de feitos heróicos ou de gestas memoráveis. Fez-se de comunidade, de espera, de trabalho reiterado, de soluções inventadas no limite, de emigração, do sofrimento indizível de um povo que aprendeu cedo que resistir é um ato coletivo e silencioso, sabendo desde sempre que a continuidade da vida depende mais da cooperação do que da glória. Mais da resiliência do que da conquista. Talvez seja precisamente a partir destas ilhas periféricas, esquecidas, tantas vezes subtraídas à História, que se possa exigir uma forma de escrever o passado menos monumental, menos celebratória, menos submissa ao poder. Uma História capaz de reconhecer o valor dos anónimos, das falhas e repetições, de medos e das esperanças que sustentaram estas comunidades isoladas no meio do Atlântico.
Só uma História que reconheça a fragilidade humana como matéria fundadora, e certos eventos históricos como erro a não repetir, poderá aspirar a tocar a verdade viva que proclama perseguir. Porque a verdade histórica não se constrói a partir de abstrações triunfais nem de discursos elevados, mas daquilo que persiste quando tudo o resto falha. O corpo de quem trabalha. A comunidade que resiste à opressão. A inteligência coletiva que aprende a sobreviver.
Foram as camadas populares que, em silêncio e continuidade, fizeram a História, enquanto outros a fixaram por escrito de forma enviesada, procurando afastar o povo do reconhecimento do poder de constituir memória através da experiência acumulada. A escrita da História nunca foi neutra, teve e tem como objetivo fragmentar consciências, para dissolver o coletivo em episódios dispersos, naturalizando as desigualdades como se fossem destino. Assim, a História real nunca pertenceu aos que a proclamam dos púlpitos do poder. É obra de gentes anónimas, de mãos sem assinatura, de vidas que não cabem em genealogias ilustres. São elas que sustentam o tempo longo, resistindo à violência das rupturas impostas. Que fazem do quotidiano um exercício contínuo de sobrevivência e criação. Mesmo quando silenciado e excluído da nomeação oficial, é o povo quem continua a produzir História. A sua épica não é a do triunfo imediato nem a da vitória espetacular. É a épica da duração, da permanência contra o desgaste, da insistência ética contra a opressão. Não se funda na conquista nem no sangue das guerras glorificadas, mas na capacidade de permanecer, de transmitir, de cuidar e de reconstruir. É nessa persistência coletiva, discreta e irredutível, que a História encontra a sua verdadeira grandeza. E é aí, longe da retórica do poder e das academias elitistas, que se revela a verdade exigente a proclamar que o futuro só se abre quando o povo reconhece em si mesmo o sujeito da História que sempre foi.
Só uma História que confirme a fragilidade humana como substância constitutiva, e não como anomalia a corrigir, poderá aproximar-se da verdade viva que declara perseguir. Essa verdade nunca se deixou fixar nos grandes discursos nem em compêndios normativos, porque não nasce da abstração, mas da experiência concreta e partilhada. Habita o modo como os povos organizam a vida, estabelecem vínculos de cuidado e constroem uma ética da sobrevivência e da justiça. É dessa ética, paciente, coletiva e historicamente situada, que emerge qualquer horizonte real de libertação, capaz de orientar as sociedades para formas mais justas e pacíficas de convivência.
Todo o progresso que se pretenda legítimo depende, em última instância, do reconhecimento dessa condição comum e de uma relação equilibrada com a Natureza, entendida não como recurso a explorar, mas como matriz viva da própria história humana.
Henrique Levy, poeta e romancista.
No Diário Insular, José Lourenço — diretor.
