
O ciclo “Diálogos contra a Maré”, promovido pela Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro e pelo Seminário de Angra do Heroísmo, prossegue no próximo 14 de janeiro, pelas 20h00 (13h00 na Califórnia e em Vancouver e 16h00 na Costa Leste dos EUA e do Canadá) , com o seu sexto encontro, dedicado ao legado social do Papa Francisco. A sessão terá lugar no auditório da Biblioteca e reunirá Avelino Santos, Carlos Correia, José de Almeida, Júlio Rocha e Nuno Martins, num diálogo plural sobre um pontificado que redefiniu, no interior e fora da Igreja, as relações entre ética, justiça social e responsabilidade coletiva.
Mais do que um evento de comentário histórico, este encontro inscreve-se numa linha de pensamento que recusa a leitura celebratória ou monumental do poder. O legado social de Francisco — marcado pela atenção aos pobres, à dignidade do trabalho, à crise ambiental e às periferias humanas e geográficas — convoca uma reflexão que ultrapassa o espaço religioso e interpela diretamente os campos cultural, político e civilizacional. É nesse cruzamento que Diálogos contra a Maré afirma a sua relevância: como espaço de escuta crítica num tempo em que o ruído tende a substituir o pensamento.
Realizado em formato presencial, com entrada livre, o encontro também será gravado e transmitido online, reforçando sua vocação pública e seu compromisso com a democratização do acesso ao pensamento crítico. Esta dimensão ganha especial relevo através da transmissão simultânea para os Estados Unidos, ao abrigo de um acordo entre a Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro e o Portuguese Beyond Borders Institute (PBBI), da California State University, Fresno. O acordo foi formalizado entre os diretores José Avelino Santos e Diniz Borges, consolidando uma ponte ativa entre os Açores e a diáspora académica e cultural portuguesa na América do Norte.
Este gesto institucional tem um alcance que vai além da logística da transmissão. Permite que estudantes dos cursos de Língua e Cultura Portuguesas e a comunidade luso-americana em geral contactem com uma produção cultural açoriana que não se limita às expressões mais visíveis ou popularmente reconhecidas da identidade insular. Ao chegar à diáspora sob a forma de debate intelectual, reflexão ética e pensamento crítico, os Açores afirmam-se como espaço de produção cultural contemporânea, capaz de intervir nas grandes questões do mundo, e não apenas como repositório de memória, tradição ou folclore.
Num contexto diaspórico frequentemente marcado por representações redutoras da cultura de origem, iniciativas como esta são fundamentais para ampliar o horizonte simbólico das novas gerações. Estas iniciativas demonstram que a cultura açoriana não vive apenas da festa ou da evocação nostálgica, mas também da capacidade de pensar, interrogar e dialogar com o presente, nas ilhas e no mundo. Ao integrar estes debates nos espaços universitários e comunitários da Califórnia, o PBBI reforça a ideia de que a língua portuguesa e as culturas atlânticas são ferramentas vivas de formação crítica e de pertença plural.
O Papa Francisco (Jorge Mario Bergoglio), 266.º líder da Igreja Católica, exerceu o seu pontificado entre 2013 e 2025, sendo o primeiro Papa das Américas, do Hemisfério Sul, e o primeiro jesuíta a assumir o cargo. O seu pensamento social — profundamente atento às fragilidades humanas e às estruturas de exclusão — oferece um ponto de partida fértil para uma reflexão que, partindo das ilhas, se projeta num diálogo global.
Ao articular território, pensamento e diáspora, Diálogos contra a Maré confirma que os Açores culturais podem — e devem — circular para além do local e do imediato. Não como espetáculo identitário, mas como lugar de produção de sentido. É nessa travessia, discreta, mas consistente, que a cultura insular se afirma como interlocutora do mundo contemporâneo.
