A PIDE PELO OLHAR DE CASTANHEIRA por TELMO R. NUNES

“Histórias da PIDE Quando Salazar Mandava” é o mais recente livro de José Pedro Castanheira, o mesmo autor, entre outros, de “Os Últimos do Estado Novo” (Tinta da China, 2023) ou “Volta Aos Açores Em Quinze Dias” (Tinta da China, 2022).

Neste volume, o jornalista do Expresso, agora aposentado, reúne seis das inúmeras reportagens que produziu sobre a PIDE/DGS, ao longo da sua riquíssima carreira jornalística. São histórias que contextualizam informação que, muitas vezes, nos chega dispersa e avulsa e, por isso, são de leitura muito recomendada. Ademais, é um texto extremamente interessante, com um valor histórico enorme e que resgata do esquecimento episódios absolutamente incríveis, alguns dignos de guião cinematográfico!

Pese embora a coesão textual que perpassa as seis narrativas que compõem este volume, assim como a constância da qualidade de escrita a que já nos habituou o autor, não quero deixar de destacar as reportagens sobre a vergonhosa detenção e consequente prisão de Calouste Gulbenkian, o homem mais rico do mundo, durante o seu refúgio em Portugal, por agentes da então chamada PVDE, (designação antecessora de PIDE), decorria o ano de 1942. Um episódio que envergonhou o país a nível internacional e, por isso, ocultado de quase todos os registos de então.

A segunda reportagem que me merece especial destaque refere-se à postura e conduta do Presidente Craveiro Lopes ante os poderes instalados. Foi uma descoberta interessante e, sobretudo, um acentuar da impressão que já tinha de Salazar e das suas políticas.

Por último, a minha predileta, a reportagem sobre a atuação do ex inspetor da PIDE Rosa Casaco, o seu envolvimento na morte do General Humberto Delgado e a forma como José Pedro Castanheira, um jornalista, conseguiu contactar o ex operacional da PIDE, agendar um encontro e entrevistar um homem que, há vinte e quatro anos, era procurado pela Interpol. A reportagem saiu no Expresso em duas edições consecutivas e o impacto que teve foi de tal forma estrondoso, que todos acusaram as diferentes polícias de incompetência e lassidão. Os ecos deste trabalho notável do jornalista do Expresso fizeram com que as autoridades reforçassem o seu empenho, o que redundou na captura de Casaco, dois meses depois da publicação da primeira parte da reportagem.

Para além destas, há ainda a dramática história de D. Eurico Dias Nogueira, Bispo no Niassa, em Moçambique, constantemente vigiado pela PIDE, a história do Crime de Belas, perpetrado por nomes grados da cultura portuguesa e ainda a reportagem da inesperada e não menos arrojada visita de Ievtuchenku, um poeta russo, que se deslocou a Portugal em 1967, a convite de Snu Abacassis, a sua editora em Portugal, e responsável pela Dom Quixote.

A boa notícia é que este é o volume um, pelo que tudo indica que, em breve, teremos um novo conjunto de narrativas tão peculiares como as que agora reveem a luz dos escaparates, reunidas num segundo volume.

Está de parabéns o autor por mais este excelente trabalho, que vem confirmar que o jornalismo sério, empenhado e livre ainda faz a diferença, mesmo à distância de mais de meio século dos factos narrados.

José Pedro Castanheira, “Histórias da PIDE Quando Salazar Mandava”, Tinta da China, 2025.

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