
As vésperas de um Ano Novo são sempre momentos muito especiais.
Momentos de um planeta em mudança em que nos pomos a interrogar qual será o nosso destino no meio das máquinas pensantes que nos rodeiam. Ou podemos ainda resvalar para a esperança interrogada de este nosso planeta Terra deixar de ser regulado pela continuidade das leis antiquadas de há séculos.
Pois foi precisamente em relação a esta última interrogação que tive um sonho, um sonho que quero partilhar convosco.
Sonhei que os atlantes da nossa velha Atlântida, reunidos em assembleia extraordinária lá no fundo das águas e das profundezas terráqueas, ouviam intressadíssimos, dois Papas que falavam nas suas costumadas homilias: o Papa católico, apostólico e romano, Leão XIV. E o Papa atlante (sem mais adjetivos que o qualifiquem).
Mas atenção que não era um simples “falar”da paciência conformada de quem haveria de ter, um dia, como recompensa a bem aventuranaça do céu. Esse seria o que ouvíríamos da boca de Leão XIV. Era bem outro o “falar”do Papa atlante, cheio de inovação e de novidade :
__ Caros irmãos, a Igreja de que somos membros ainda vai a tempo. Sim, ainda vai a tempo de acabar com o patriarcado e a injustiça que ele tem vindo a espalhar.
E, sem deixar que Leão XIV o interrompesse, continua:
_Irmão, nós bem sabemos que dentre estes três grupos religiosos de judeus, cristãos e islâmicos, nós cristãos fomos os que mais pusemos em prática um equilíbrio social em relação à mulher. Olhemos para os islâmicos e o seu Corão! E mesmo os judeus: que fizeram eles para dignificar a condição das mulheres da sua Bíblia hebraica? Mas sim, nós cristãos, ainda não fizemos o suficiente. E por isso, hoje em dia há quem diga que a igreja católica ainda é uma das responsáveis pela discriminação de género. Temos que fazer muito mais!
_ Com certeza . Olhemos só para a Bíblia! Tanto a Bíblia hebraica como o Antigo Testamento são a prova disso. Sempre negaram à mulher um papel relevante. Bem pelo contrário: a começar por Eva, a mulher sempre esteve na origem do mal ou, quando muito, tem um papel apagado. Mas pode dizer-se que isso, embora devagar, tem vindo a mudar, acrescenta Leão XIV. Não nos esqueçamos que, com a Nova Aliança trazida por Jesus Cristo, a Bíblia já é muito diferente e não maltrata a mulher….
Quem diria que além dos Papas outros lhes seguiriam o exemplo? Eis que um daqueles que fazia parte do séquito do Papa atlante, se sente na obrigação de também intervir:
_Ora, ora. Tenhamos presente o que o Deus cristão diz: Deus fez primeiro o homem, a mulher nasceu de uma costela dele. Daqui se deduzindo, como é óbvio, ser inferior a ele. É este machismo bem patente que incorpora a ideologia patriarcal e que tem vigorado até aos nossos dias.
_É por isso que um Pierre Chaumette afirma todo convencido :”a Natureza disse à mulher: sê mulher. Os cuidados da infância, as coisas do lar, as diversas preocupações da maternidade, eis as suas tarefas”, intervém uma das mulheres atlantes.
_Ou ainda: “a feminilidade é uma espécie de infância contínua; o papael desse ser puramente afetivo é o de esposa e dona de casa”, acrescenta alguém, citando A. Comte
_É assim que se vai mostrando o caminho às mulheres do mundo lá de fora porque, como muito bem diz Simone B., “para o homem a sua presença neste mundo é um facto indiscutível e um direito, enquanto que a da mulher é um simples acidente, um bem-aventurado acidente”.
E, com o silêncio a pairar intocável, parecia que tinha sido tudo dito.
Mas não, longe disso. Há quem ainda diga:
_ Enquanto se fizerem códigos de leis sempre desfavoráveis à mulher, como têm sido os códigos de direito canónico, românico e germânico, tudo continuará na mesma. E mesmo assim, quantas vezes se ignora deliberadamente a lei…
Os Papas já não têm voz, agora que até as mulheres atlantes também intervèm, todos a concordar que em nenhuma época a mulher impôs as suas próprias leis.
E agora que estão lançados:
_E que dizer do Deus masculino? Sim, tanto os cristãos, como os judeus e os islâmicos são monoteistas e têm o seu Deus masculino. Só nas culturas que os antecederam aparecem as Deusas ( sinal de que naqueles tempos as mulheres talvez fossem mais valorizadas ?).
_ Há sempre uma preferência chocante pelo masculino. Até na Trindade: Pai,. Filho, Espírito Santo, que em boa verdade deveria ser Mãe, Filho, Espírito Santo.
_ De acordo. Pois não será a mãe o símbolo do amor por excelência?
_É bem evidente a discriminação da mulher através dos tempos, concorda alguém. Mas manda a verdade que se diga que ainda existem uns poucos a dizer pela boca de um Claudel que “A mulher não é a repetição inútil do homem. É a mulher que mantém a vida, enquanto o homem lhe prolonga o impulso com os seus atos”.
_Também há quem ache que a mulher é “algo tão estranho e tão complexo que nenhum predicado consegue exprimi-lo”(Kirkegaard).
Aqui chegados, nenhum dos Papas ousa pisar terreno desconhecido. Que se entendam os laicos. Que, às vezes, até propositadamente complicam tudo.
Mas que não se diga nunca que o Papa-atlante concorda com a exploração da mulher quando ela ganha menos que o homem a fazer trabalho igual. Ou que, mesmo com mais habilitações, lhe sejam negados lugares de topo e de chefia. E deseja veementemente que, no mundo lá de fora, não seja apenas “pelo vigor do seu espírito que algumas mulheres se ergam acima da vulgaridade”.
Nesta altura fui acordada pelo ruidoso bater de panelas dos meus vizinhos que, junto com o estrondo dos foguetes, as luzes e o alarido lá de fora , anunciavam a despedida do Ano velho, substituído pelo novo Ano de 2026. Bem vindo!
MARIA LUÍSA SOARES, ESCRITORA
31-XII-2025
