Notas de Leitura por José do Carmo Francisco

Nuno Costa Santos novo livro

Amor em chávena fria

Com o subtítulo de «Histórias do melancómico», este novo livro de Nuno Costa Santos (n.1974) com a edição Letras Lavadas, foto de Vitorino Coragem, capa e desenhos de Paulo Fernandes, notas de contracapa de Hugo Tiago e Pilar Gutierrez, tem 169  páginas e deve o título ao texto da página 49: «Rogério enganou-se e em vez de pedir café pediu amor. O funcionário perguntou. – Mas quer amor curto, pingado, escorrido, duplo ou carioca de limão? Como Rogério ficou baralhado e nada disse, o amor acabou por ser servido em chávena fria. E amor em chávena fria era o que Rogério estava habituado com Laurinda. Tomou logo um CRF para esquecer». O livro abre com uma citação de Ruy Belo (1933-1978) e parece seguir a ideia de Santos Fernando (1927-1975) para quem «o humor é uma lágrima entre parêntesis» em paralelo com Jacinto Baptista (1926-1993) para quem «o jornalista é o historiador do quotidiano». A própria palavra melancómico integra uma dupla inscrição – o melancólico e o cómico. Tal como Irene Lisboa (1892-1958) com a figura de Adelina ou Raul Brandão (1867-1930) com a Candidinha, Nuno Costa Santos faz nestes contos curtos (ou poemas em prosa), uma cartografia dum Bairro que é, afinal, o Mundo. Mundo esse onde nunca se pode confundir (Mário de Carvalho dixit) género humano com Manuel Germano. O Bairro é um todo – a sua geografia, o seu território e a sua população; o mesmo é dizer «paisagem e povoamento» como escreve Carlos de Oliveira (1921-1981) o escritor para quem Portugal é «um país de escritores e camponeses abandonados». Neste caso as figuras que desfilam nas páginas são Octávio, Maria José, Armando, Dona Berlinda, José Júlio, Marília, Márcio, Josefina, André Carlos, Genovevo, Bruno, Rashid, Jaime, Rogério, Carlitos, Flávio, Rafael, Tobias, Mário, Júlia, Afonso Murteira, Rui, Joana, Firmino, Dona Ausenda e Jaime – entre outros. Os habitantes do Bairro vivem o seu tempo entre as lágrimas e o sangue pisado. Mas não só; há muita alegria teimosa qie se levanta no meio desta geografia, desta espécie de Feira Popular. A propósito o lançamento deste livro aconteceu num restaurante da Avenida 5 de Outubro , do outro lado da Feira Popular onde a esquadra da PSP era chefiada pelo pai de José Saramago (1922-2010) – o subchefe Sousa. Isto anda tudo ligado como escreveu Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004).

José do Carmo Francisco, escritor          

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