Cânticos do mesmo Sal-A Poesia de José do Carmo Francisco

Balada da Calçada do Combro

A Rua de todos os dias

Onde eu ia quatro vezes

E as noites mais sombrias

Demoravam como meses

Polícia à porta da Escola

A proteger as meninas

O amor era uma esmola

Pedida noutras esquinas

Poço dos Negros abaixo

Em cima era o Calhariz

Na memória que eu acho

Tudo é escuro e infeliz

Havia a guerra e o medo

Estava perto a inspecção

Um poema era segredo

Na Escola Veiga Beirão

Ao sábado até à uma

O trabalho continua

A bica de alta espuma

Espera por mim na rua

Manhã de segunda-feira

Vinte e oito na pendura

Uma vida verdadeira

Não se vive em ditadura

Nos cafés ao fim do dia

Os boatos são notícias

Falar é uma teimosia

À paisana são polícias

«Suplemento literário»

Quinta-feira nos jornais

Via o tempo ao contrário

Onde os sonhos eram reais

Passam já quarenta anos

Sobre mim sobre a calçada

Fora estes mitos urbanos

Parece que não houve nada

Excepto talvez a ternura

Que se gastou em excesso

A calçada é uma gravura

Mas virada do avesso

Onde até eu sou presente

Na multidão disfarçado

Estou no lugar da frente

Assim vou a todo o lado

Numa porta de Livraria

Vi Bocage em imagem

Na paragem da alegria

Acabou esta viagem

José do Carmo Francisco, poeta

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