
É recorrente nas redes sociais a circulação de uma publicação viral que compara de forma simplista o legado do Estado Novo e da Democracia na construção de aeroportos em Portugal. Segundo esta narrativa, o Estado Novo teria construído três aeroportos sem fundos comunitários, enquanto a Democracia, mesmo com apoio da União Europeia, teria apenas produzido estudos e uma maquete. Esta visão, além de redutora, ignora a complexidade histórica e os desafios enfrentados por ambos os regimes.
Na realidade, o Estado Novo foi responsável pela fundação da rede principal de aeroportos civis, incluindo Lisboa, Porto, Faro, Santa Maria, Porto Santo, Funchal e Horta. Contudo, a rapidez e centralização das decisões trouxeram problemas estruturais e de segurança, como a crise de capacidade da Portela e a pista curta do Funchal, que exigiram intervenções dispendiosas e urgentes nas décadas seguintes.
A Democracia, por sua vez, concentrou-se na modernização, expansão e correção dessas falhas, destacando-se obras como a extensão da pista da Madeira, a conversão da base aérea de Beja para uso civil e a expansão da rede regional nos Açores. Apesar dos avanços, a Democracia revelou uma paralisia estratégica na execução de grandes projetos, especialmente o Novo Aeroporto de Lisboa, que permanece desde 1969 em estudos e reversões políticas.
Assim, a publicação viral é enganadora e um mero slogan propagandístico dos saudosos do Estado Novo. De facto, o desenvolvimento aeroportuário português é reflexo das prioridades e limitações de dois sistemas políticos distintos: o Estado Novo foi marcado pela fundação rápida, mas deixou vulnerabilidades; a Democracia modernizou e mitigou riscos, mas não conseguiu concretizar projetos estruturantes.
A falha em resolver o problema da Portela, cuja limitação estrutural foi identificada quase imediatamente após a sua criação, permanece como o maior desafio do país nesta área, simbolizando a dificuldade de Portugal em tomar e sustentar decisões estratégicas de longo prazo. Esse é o verdadeiro problema e desafio nacional cujo debate, naturalmente, não motiva os que sonham com o regresso à ditadura salazarista.
