O Verbo e o Vento: A Metafísica da Palavra em Infinito sem Nome de Carlos Enes

Antes de haver escrita, houve o sopro — e antes do sopro, a vibração da luz que ainda não conhecia o nome das coisas. É desse fulgor inaugural, desse murmúrio entre o ser e o verbo, que emerge Infinito sem Nome, de Carlos Enes: um livro em que a palavra não descreve, mas recria o instante primordial da criação. Aqui, o verbo é maré e cada verso é uma onda que revela o rosto secreto do tempo. Nele, o poeta não só escreve, mas respira; e o leitor, ao segui-lo, entra num espaço de transfiguração, onde o rumor das falésias converte-se em melodia, o corpo em templo do instante, o amor em pássaro que se inclina sobre o abismo para medir o infinito. Há uma música subterrânea nesta escrita, feita de luzes oblíquas e brumas açorianas, em que o real e o sonho se entrelaçam como raízes de uma mesma árvore cósmica. Ler este livro é escutar o mundo antes da queda — quando o sal do mar ainda guardava, intacta, a memória do primeiro verbo.

Desde o primeiro poema, “Navegar à Bolina”, o leitor é convidado a participar de uma travessia tanto interior quanto cósmica. O mar, o corpo e o tempo dissolvem-se numa mesma substância verbal: a respiração do ser. A linguagem, em Enes, não é um instrumento — é matéria viva, orgânica, pulsante. Cada verso parece escrito com o fôlego do vento e o rumor do Atlântico, onde o poeta não contempla o mundo de fora, mas o recria a partir de dentro.

O título “Infinito sem Nome” em si, é uma confissão e um paradoxo. É a tentativa de nomear o inominável, de alcançar o instante anterior à linguagem. Carlos Enes escreve por dentro de um silêncio primordial, tal como Emily Dickinson, quando dizia que “a verdade deve ofuscar-se, como o relâmpago se disfarça na nuvem.” Há, em ambos, a consciência de que o absoluto só se revela por desvio — pela metáfora, pelo murmúrio, pela elipse.

No poema “Apenas e Só”, Carlos Enes escreve: “Tanta letra / tanta letra e o nome / continua por inventar.”  O poeta reconhece o limite da palavra e, ao mesmo tempo, o seu poder de invenção. Assim como Dickinson fez do recolhimento uma revolução da linguagem, Enes faz do silêncio um laboratório de transcendência. Ambos trabalham a partir do invisível — não para descrevê-lo, mas para o sugerir.

A busca do infinito em Carlos Enes também se aproxima da de Wallace Stevens, que fez da imaginação a forma suprema de ordem no caos. O seu “Amar o Mar” poderia dialogar com o poema “The Idea of Order at Key West”: em ambos, o mar é mais do que natureza — é consciência. Quando Enes escreve “onde a terra acaba e o amor começa”, a fronteira entre o humano e o divino dissolve-se, como se o poema fosse o lugar onde o real se refaz em visão. A “ideia de ordem” de Stevens encontra eco na “ideia de infinito” de Enes — ambos poetas do equilíbrio entre o espírito e a matéria, entre a razão estética e o espanto metafísico.

A presença do mar em Infinito sem Nome não é paisagem — é destino. O mar é corpo e verbo, é memória e travessia. “Amar o Mar” e “Carne Viva” revelam que o oceano também é carne aberta, dor, eros e expiação. O amor surge como força de regeneração e de naufrágio, simultaneamente. Em “Magia dos Dedos”, a sensualidade é o alicerce da revelação: “Arranco os ponteiros do relógio. / Nas tuas garras o sopro da eternidade.”  O gesto erótico é um gesto metafísico — o tempo é suspenso, e a carne torna-se sopro. A poesia de Enes vive dessa tensão entre o físico e o espiritual, entre o corpo que deseja e a alma que procura nomear o indizível. Neste ponto, o poeta aproxima-se do lirismo confessional e cósmico de Walt Whitman, que viu o corpo como extensão da alma e o amor como revelação divina. Tal como Whitman, Carlos Enes escreve “com o rumor do sangue”, celebrando o humano como templo da eternidade: “o corpo é templo do instante”. Ambos compreendem que a poesia é o espaço onde o sagrado se mistura ao profano, onde o corpo não se opõe ao espírito, antes, pelo contrário, encarna-o.

Como leitor da poesia americana, vejo em Carlos Enes uma densidade emocional que me recorda James Baldwin, sobretudo na forma como o desejo e a memória se convertem em resistência à morte e à ausência. Baldwin, ao escrever sobre o amor e o exílio, dizia que “o amor revela o terrível desejo de sobreviver”.  Em Enes, o amor é também sobrevivência — contra o tempo, contra o esquecimento, contra a solidão que habita o humano.

Em Infinito sem Nome, o poema também é pintura. O olhar do poeta é pictórico, como se as palavras fossem pigmentos à procura de luz. Em “Pela Mão de Miró”, “Grito Surreal” e “Cegueira Petrificada”, Enes constrói uma estética de metamorfoses: o verbo pinta, o som molda, a imagem respira. A sua poesia está mais próxima da tela do que da página — as cores têm textura, o silêncio tem volume. Tal como Stevens via, na imaginação, uma “força suprema de redenção”, Enes usa a imagem como meio de conhecimento. Quando escreve, em “Carne Viva”, “as feridas de água salgada levam / uma eternidade a sarar”, o verso torna-se um quadro expressionista, uma pintura de sal e dor, em que a memória é o pincel do tempo.

A memória, aliás, é uma das forças centrais da obra. Em “Herança Indivisa”, o poeta procura “abrir a porta da serventia” e atravessar “a barreira do medo”. Cada lembrança é uma travessia interior — não para regressar ao passado, mas para resgatar a essência do vivido.

O desassossego que atravessa Infinito sem Nome é da mesma natureza espiritual que se encontra em Dickinson e Baldwin: é a inquietação de quem ama a vida e, por isso, a interroga. Em “Inquietação”, Enes escreve: “Ouço noite e dia / o eco de uma voz / amaciada em vinho do Porto.”  O vinho torna-se símbolo do tempo que adoça e corrói — metáfora da voz poética que procura redenção no excesso e na lucidez.  Há uma ética subterrânea nestes versos. Em “Pendão da Liberdade” e “Despodor das Sotainas”, o poeta denuncia o medo, a censura, o abuso — e converte o poema em libertação. Como Baldwin, que via na palavra a última trincheira da dignidade humana, Enes faz da poesia um gesto de verdade. A liberdade, aqui, é mais do que política: é uma forma de pureza moral.  Em “A Ilha”, último poema do livro, o poeta conclui a viagem: “Ilha / medida do eu quando me dispo do outro.”  A ilha é o ser reencontrado, o espaço da solidão essencial. O mar, outrora fronteira, é agora espelho. O infinito deixa de ser busca — torna-se presença.

A linguagem poética de Carlos Enes oscila entre o esplendor barroco e a precisão minimalista. Há versos de densidade imagética (“voz quente, rouca, cheiro de castanha assada”) e outros de transparência zen (“Um véu de tule celestial / cobre o teu corpo”). Essa alternância entre o excesso e o silêncio ecoa o movimento do mar — ora revolto, ora sereno. O poeta escreve como quem compõe uma sinfonia de elementos: fogo, sal, vento, sombra. O ritmo é musical, próximo do ritmo de Whitman, mas também do verso contido de Dickinson. Essa convivência entre amplitude e intimismo cria uma tensão que é a própria alma da obra — uma “metafísica do murmúrio”.  Ao ler Infinito sem Nome, sentimos que cada poema é uma janela para o invisível, um instante de epifania. Stevens teria dito que a imaginação é a única forma de ver — Enes parece responder que o amor é a única forma de existir.

Infinito sem Nome é uma travessia do ser pela linguagem. Carlos Enes navega com o timão do sonho e o vento do real, recriando a comunhão entre o humano e o cósmico, entre o verbo e o silêncio. O livro é, simultaneamente, oração e maré, revelação e naufrágio.

Como Dickinson, Enes escreve à beira do invisível; como Stevens, pensa a linguagem como forma de conhecimento; como Whitman, celebra o corpo como templo da eternidade; e como Baldwin, ama o humano apesar de sua ferida. O resultado é uma poesia que não se contenta em nomear, bem pelo contrário, deseja renomear o mundo.  “Só a paixão conhece / o paradeiro deste infinito sem nome.”

E talvez seja esta a última lição: o infinito não se explica, respira-se. Quando o livro se fecha, o leitor permanece à deriva — não perdido, mas purificado —, com o sal do verbo nos lábios e o vento do ser no peito. Porque, em Carlos Enes, o infinito tem rosto: o rosto da palavra que se lembra de ter sido luz.

Diniz Borges

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