A Liturgia do Verbo: Vasco Pereira da Costa e a Tradição Humanista da Poesia Açoriana

“No princípio era o verbo, e o verbo ainda canta — mesmo quando os deuses se calam.”
— Vasco Pereira da Costa, Cantata e Outros Poemas

A poesia é o primeiro gesto da consciência — o sopro inaugural que ergueu o homem das trevas e o ensinou a nomear o invisível. Antes de templos e leis, antes da própria razão, houve o ritmo e o assombro: um coração que se fez palavra. Rodeado de relâmpagos e abismos, o ser humano pronunciou o mundo para o salvar do silêncio. Desde então, o poema é o seu rito de permanência — a forma pela qual resiste à extinção da alma. Irreverente por essência, a poesia desafia o mutismo dos deuses e o cálculo das máquinas. É a alquimia que transmuta a ferida em forma, o caos em harmonia, a dor em sentido. Bela, porque revela; sagrada, porque consola; insurgente, porque recusa a rendição ao banal. Sem ela, o homem perderia o dom de se reconhecer no espelho do tempo e o poder de se interrogar diante do mistério da existência.

A poesia é a liturgia laica do verbo — a chama que arde entre o real e o sonho, entre o abismo e o anúncio. É o último território da liberdade, o fio de ouro que impede a humanidade de sucumbir ao ruído e à barbárie. Quando tudo se degrada — a fé, a política, a moral, a própria linguagem —, resta ainda o poema: casa e clarão, abrigo e epifania. Precisamos dela porque nela respiramos a dignidade do espanto. Só a poesia recorda que existir é uma forma de celebrar. E é nesse espaço sagrado — onde o verbo se eleva à altitude da consciência — que Vasco Pereira da Costa ergue a sua Cantata, oferenda de um homem que, ao nomear o mundo, o redime pela beleza.

Há títulos que, em si, já são um manifesto. Cantata e Outros Poemas é um deles: uma obra em três movimentos, como se a voz poética seguisse a partitura de um rito profano, em que a música do mundo se confunde com a música interior. A cantata, herdeira da tradição barroca, é aqui metáfora da condição humana — alternando recitativos e silêncios, árias e ruídos, a harmonia da razão e a desordem do sentimento. O poeta constrói, assim, uma liturgia laica, um canto que se ergue das ruínas do quotidiano para celebrar a persistência da beleza. Num tempo em que o ruído suplanta a melodia, Vasco Pereira da Costa devolve à poesia o seu caráter cerimonial — um lugar de escuta e resistência. Como em todas as cantatas, há uma tensão entre a fé e a dúvida, o humano e o divino, o mar e o verbo.

Para Vasco Pereira da Costa, a poesia não é ornamento, é sobrevivência. Num mundo corroído pela pressa e pela distração, o poeta refunda a linguagem como farol. No poema inaugural, “Erat Verbum”, escreve:

“Do verbum inicial e livre / nasce um verso libertino.”
É uma inversão teológica e política: o verbo não vem de Deus, mas do homem. A criação poética é o novo génesis; o poeta, o seu demiurgo insurgente. Noutro verso, afirma:
“Deus é uma impura partícula de matéria escura / deambulando na impudente energia / que arregoa as galáxias da poesia.”

Esta fusão entre o cósmico e o humano define a sua poética: uma busca constante de sentido no meio do caos. Homem de esquerda — mas da esquerda ética, não da esquerda decorativa —, Pereira da Costa escreve com a lucidez de quem entende que a justiça e a liberdade nascem do verbo, não do dogma. A sua poesia é solidária e subversiva: diz sem gritar, questiona sem catequizar, ilumina sem prometer.

O livro está dividido em três grandes movimentos — Materiais de Construção, Cantata e Outros Poemas —, que ecoam as fases da criação: génese, revelação e dispersão. Em Materiais de Construção, o poeta experimenta a linguagem como matéria viva, interrogando a origem da palavra e o seu poder de construir o real. Em “Poemagma”, afirma:

“Cada dia se consome no desenho / do incessante aceno às palavras despedidas.”
O poema é magma e oficina, tentativa e combustão. No belíssimo “O Mero”, o autor funde o eu com o mar:
“Desfoco-me no espelho do manso mar. Outro sou / no mar bravo para um debate sobre correntes.”

Segue-se a Cantata, o núcleo do livro, em que o tom se torna mais coral, filosófico e cívico. A voz do poeta é agora a de um cantor da comunidade, herdeiro do humanismo e da inquietação. Em “O Respiro da Ilha”, o arquipélago é o altar e o poema a oração:

“Colocando o plebano mais próximo da majestade divina / e enxotando a arrogância dos poderosos efémeros.”
Aqui, a poesia assume-se como ética. A ilha, mais do que paisagem, é consciência.

E quando o poeta viaja — como em “Yellowstone ao ritmo de Miles Davis” — leva consigo essa consciência insular e universal:

“Aqui cabem todas as religiões de todas as idades. / Aqui se nega o poder infindável de qualquer divindade.”
A viagem é contemplação e protesto; o olhar, instrumento de libertação.

A ilha é espelho de um mundo em trânsito permanente. Em “Angra da Alfândega à Praça”, o regresso à terra natal é melancolia lúcida:

“Regresso a casa. Assim seria se casa houvesse. Mas não!”
A memória é aqui um ato político: lembrar é resistir. E no “Hino à Ilha do Pico”, o Pico é a metáfora absoluta do verbo — o vulcão interior onde a linguagem arde:
“Ó montanha mulheril instável altiva sedutora! / Ó mãe dos picarotos…”
O poeta faz da insularidade uma categoria do espírito. A sua ilha não é isolamento, é ponto de partida — uma geografia ética e estética, onde a natureza é consciência e o mar é reflexão.

Vasco Pereira da Costa inscreve-se na linhagem dos poetas que transformam o íntimo em universal: Cavafy, Neruda, Sophia, Sena, Drummond, entre outros. Em todos eles, o verso é ato de lucidez e de amor. A sua “esquerda amarga”, como escreve, é a esquerda do desassossego, do pensamento e da justiça. Em “Crónica antiga da minha esquerda amarga”, recorda o tempo em que a revolta era uma forma de ternura:

“Da infância do pão e do suor / fizemos uma bandeira de esperança.”
Essa esperança — nunca ingénua — sustenta toda a sua poética: a crença de que a beleza é uma forma de resistência. É por isso que o poeta pode contemplar Varanasi, o caos sagrado, com serenidade e assombro:
“De todas as palavras apenas uma: o caos / que ordena a vida nas ruas e no rio / ainda que a morte confunda a vida.”
É nesse caos — humano, cósmico e social — que o poeta encontra o centro da sua liturgia.

Cantata e Outros Poemas integra-se exemplarmente na coleção coordenada por Vamberto Freitas para a Letras Lavadas. Poucos críticos possuem o rigor e a sensibilidade de Freitas: lê o arquipélago com o olhar do mundo e o mundo com o ouvido do arquipélago. A sua curadoria é uma forma de fidelidade: seleciona dez obras que definem o espírito da poesia açoriana contemporânea — uma poesia de pertença, mas nunca de clausura. Nesta constelação, Vasco Pereira da Costa é uma voz axial. O seu livro combina o sentido clássico da forma com a vibração ética do presente. É uma obra que pensa e sente, que canta e interroga. Uma cantata para o nosso tempo: coral, erudita, libertária.

No fim, Cantata e Outros Poemas é uma meditação sobre o verbo como salvação. Vasco Pereira da Costa devolve-nos o poder da linguagem num tempo em que o discurso se dissolveu em ruído. Ele escreve como quem ascende ao altar da palavra, oferecendo o verbo como comunhão:

“Vejo o velho… / eis o homem nu diante do espelho neutro e cru.”
Escrever é permanecer. O poema é o espelho da consciência — o lugar onde o homem e a matéria se reconciliam.

Em tempos de desânimo e saturação, esta extraordinária coletânea recorda-nos que a poesia continua a ser o sacramento mais puro da liberdade. Vasco Pereira da Costa ergue a sua voz não como profeta, mas como ofício — o ofício de cantar, de pensar, de manter o lume aceso entre as cinzas. E talvez seja isso, no fundo: que a poesia não passa, apenas muda de tom. Tal como o mar, ela regressa sempre, trazendo consigo as sílabas antigas da esperança. Cada verso de Vasco Pereira da Costa parece soprado pelas entranhas da ilha e pelas constelações do espírito — um eco entre o Atlântico e o absoluto.

A sua Cantata é mais do que um livro: é um rito de purificação, um coral em que o humano se redime por meio da linguagem. Nele, o tempo deixa de ser cronologia para tornar-se respiração. O poeta abre a ferida, mas dela faz música. E enquanto houver um leitor que oiça — mesmo em silêncio — a voz desse canto, a poesia continuará a cumprir o seu desígnio mais antigo: o de manter viva a alma da terra e acesa, contra todas as trevas, a luz do verbo.

Diniz Borges

Publicado no Atlântico Expresso, de Ponta Delgada, e no Diário Insular, de Angra do Heroísmo.

Podem encomendar o livro através da Letras Lavadas

https://www.letraslavadas.pt/cantata-e-outros-poemas-errantes/

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