Sem acordo por José do Carmo Francisco

Em resumo 02

«Nem num livro de instruções das máquinas de lavar roupa é possível uniformizar o português» – dizia o meu amigo Fernando Venâncio (1944-2025) professor em Amsterdam para além de romancista, cronista, crítico literário e publicista. Lembro que li uma crónica de Rubem Braga (1913-1990) com diferenças entre o português de Portugal e o do Brasil. Havia a serraria e a serração, o pronto-socorro e o Banco de Urgência, o escanteio e o canto, o zagueiro e o quarto defesa, o banheiro e a casa de banho. Até no nome há diferenças: em Portugal escreve-se Ruben. Lembro o livro de Erskine Caldwell editado em 2025 (Portugal) por Leonardo Freitas («Toda a longa noite») como se estivéssemos no Brasil em 1942. Lá surgem palavras insólitas como estrada de ferro, hitleristas, tchecos, poloneses, caminhão, fuzis, inspetor, moça, Moscou, roça, coletiva, chícara, tomar, cachorra, ajudar-lhe, tratores, você, faze, úmidos e rastro. O título do livro é «All night long» com tradução de Vera de Gusmão e a edição da Dois Mundos. Quando tive que elaborar a nota de leitura de um livro de Luiz Fagundes Duarte sobre Natália Correia, deparei-me com o facto de as cidades de Setúbal e de Pequim surgirem em caixa baixa. Perguntei a um amigo que me disse: «Nessa editora são fundamentalistas». Acabei por citar o poema como surgiu quando foi publicado, porque, com ou sem acordo, eu nunca escreverei nomes de cidades com caixa baixa. Tal como nunca escreverei tecto sem «c» pois tecto sem «c» é o masculino de teta. Já agora fica o poema: «Nasce-se em Setúbal/Nasce-se em Pequim/Eu sou dos Açores/Mas não é assim/A gente só nasce/Quando somos nós /Que temos as dores».

José do Carmo Francisco, escritor  

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