
Há pouco mais de vinte anos Bruno Latour publicou um famoso ensaio anunciando que a crítica literária tinha perdido o gás. Seguiu-se um debate internacional, particularmente no mundo anglófono.
Numa das mais interessantes intervenções nesse debate, Colin Vanderburg escreveu recentemente um muito oportuno ensaio em que a dada altura afirma:
À medida que os estudos literários perdem importância pública, que os departamentos de literatura diminuem de tamanho, que as licenciaturas em literatura declinam em número, as críticas dirigidas à sociedade aumentam de intensidade.
[…]
Não estamos a mudar o mundo. Qualquer indivíduo que já emergiu de uma conferência académica de vários dias reconhecerá a verdade: quando se põe o sol sobre resmas de programas amarrotados, quando o pessoal auxiliar aspira a alcatifa, a gente dirige-se à estação de autocarros ou ao aeroporto interrogando-se sobre que para quê e para quem se fez tudo aquilo. As nossas alternativas ecológicas, os nossos arquivos de resistência, as nossas epistemologias de insurgência – o que fazem, exceto serem um modo de vida para cada vez menos pessoas?[1]
Na verdade, o mal não está na literatura nem na sua crítica. A literatura sempre de algum modo refletiu a sociedade em que surgiu. O problema, que já na altura era pressentido por espíritos intuitivos mais atentos, hoje é bem mais sério e profundo, como tão lucidamente explanou James Marriott num brilhante ensaio acabado de publicar, intitulado: “The dawn of the post-literature society and the end of civilization” – A aurora da sociedade pós-literária e o fim da civilização”[2].
O título será talvez demasiado pessimista se não mesmo catastrófico, porém o recheio do ensaio é uma bem fundamentada análise da situação atual, vinte anos depois do escrito de Bruno Latour que referi a principiar esta comunicação. O artigo abre com uma epígrafe de Neil Postman: “George Orwell tinha medo de quem bania livros. Aldous Huxley tinha mais medo era de não haver razão para se banir os livros pois ninguém os queria ler.[3]
Marriott começa o seu texto evocando o século XVIII quando teve início a grande revolução da leitura. O livro tornou-se popular já que cada vez mais gente era alfabetizada e queria ler. O que é frequentemente referido como “a revolução da leitura” permitiu uma democratização da informação sem precedentes. Recorda que, na Inglaterra, na primeira década do século XVIII, foram publicados 6 000 livros e, na última década já só se publicaram 56 000. Mais de um milhão de livros surgiu na Alemanha nesse mesmo século. Mas – lembra Marriott – estamos agora a entrar numa contra-revolução pois, trezentos anos depois do início dessa prodigiosa revolução, os livros estão a morrer. Nos EUA, continua ele, a queda de leitura de livros nas últimas duas décadas foi de 40% e, no Reino Unido, 1/3 dos leitores adultos deixou de ler livros. As estatísticas sobre a leitura entre as crianças apontam para os números mais baixos de sempre. Alexandre Larman recorda que as tiragens que antigamente atingiam as dezenas e mesmo centenas de milhar de exemplares agora só por sorte alcançam os cinco mil.
Mas o problema não se restringe ao mundo anglófono. Os índices de leitura têm diminuído na maioria dos países desenvolvidos, segundo um relatório da OCDE de 2024.
Devo confessar que, até me aposentar há pouco mais de um ano, não tive razão de queixa dos meus alunos na Brown, mas as universidades de elite não são necessariamente a regra. E quando converso com professores universitários portugueses ouço confissões desoladoras sobre os baixíssimos, quase inexistentes níveis de leitura dos atuais estudantes, se bem que em Portugal a leitura nunca trivesse sido um hábito generalizado, mesmo entre universitários.
Voltando a James Marriott e ao seu deprimente ensaio, ele cita Walter Ong no seu livro Orality and Literacy, lembrando que um pensamento de lógica algo complexo não pode ocorrer sem leitura e escrita. Escreve Marriott:
É virtualmente impossível desenvolver um argumento lógico pormenorizado no discurso espontâneo – perdemo-nos, vai-se-nos o fio da argumentação, contradizemo-nos e confundimos o nosso auditório tentando refrasear pontos ineptamente expressos.[4]
Escrevi e desenvolvi um ponto de vista semelhante num texto que me foi solicitado pelo Presidente do Supremo Tribunal da Justiça para uma revista por ele recentemente fundada, e que incluí depois n meu livro Diálogos Lusitanos[5]; mas prefiro trazer para aqui uma voz mais autorizada do que a minha. Volto a citar Marriott:
À medida que poder e conhecimento se concentram nas esferas mais altas da sociedade, um público dividido, desinformado e zangado, carece de meios para compreender, analisar e criticar ou alterar o que está acontecendo. Em vez disso, cada vez mais as pessoas se deixam impressionar pelo tipo de apelos altamente emocionais, carismáticos e místicos, que constituiram o fundamento do poder na era anterior à literacia.[6]
Todo este pessimismo que grassa nos circuitos mais intelectuais dos EUA reproduz-se na Europa onde não faltam autores ecoando esses receios, documentando com dados empíricos o que se vai passando do lado de cá. Este sentimento não tem, todavia, a ver apenas com livros, mas com o mal-estar generalizado que se instaurou no Ocidente e que tem múltiplas, se bem que convergentes, origens.
A revolução da informática está a transformar o mundo a uma velocidade e dimensão nunca vistas. Está hoje sendo abalada nos seus alicerces a antiga e, durante séculos estabelecida, convicção iluminista de que a razão aos poucos contruiria sólidas estruturas que assegurariam o funcionamento democrático de instituições destinadas a garantir o cumprimento das leis criadas pelo estado de direito, permitindo a todos os cidadãos o espaço suficiente para exercerem as suas liberdades. O exemplo mais preocupante é o dos Estados Unidos, pois habituámo-nos a ver nesse país um farol e um campo de experimentação inovador. Costumávamos vê-lo como uma espécie de cadinho monumental que, dada a sua maior mistura de etnias e credos religiosos e políticos, criara estruturas capazes de aos poucos abrandar conflitos e proporcionar soluções, assentes em legislação apropriada que o direito comum permite facilmente integrar e assimilar no seu sistema.
Não é mais assim. Até os Estados Unidos, onde aliás surgiram as maiores descobertas tecnológicas dos últimos cinquenta anos, nomeadamente em matéria de informática, foram surpreendidos por novidades nunca alguma vez previstas na sua Constituição, a primeira no mundo a tornar realidade o estado moderno. Chegámos à explosão total da liberdade do indivíduo, que tem agora ao seu alcance uma variedade de meios de expressar os seus pontos de vista; o espaço público tornou-se uma selva como nunca vislumbrou Thomas Hobbes, nem nenhum dos pensadores que contribuiram para as ideias estruturantes da modernidade. Cada ser humano com acesso a meios informáticos passou a ser um superhomem nietszcheano, sentindo-se no direito de propalar as suas verdades sem ter de fazê-las passar pelo crivo estabelecido de qualquer tipo de controlo. Tudo virou opinião e o espaço público fez-se centro de uma algazarra anódina, descontrolada e mesmo violenta, sem ninguém parecer ter autoridade para regulá-la.
É todo este contexto cultural (no sentido antropológico) que reduziu cada um dos grandes autores de ideias e dos grandes criadores literários a apenas mais uma voz tão válida como a de qualquer energúmeno ignorante e analfabeto. Estranhamente, quase só no desporto se aceita a existência de elites com base no talento, e os salários descomunais a ele correspondentes. Em todos as outras esferas sociais, qualquer hierarquia de valores e regras é posta em causa. É por isso também que nos últimos tempos Shakespeare e Camões, Dante, Fernando Pessoa, Cervantes ou Flaubert passaram de repente a valer tanto como qualquer escriba que consegue publicar um livro. Aliás, a edição de livros tornou-se outra banalidade democrática acessível a qualquer um. As esmeradas regras de edição desenvolvidas e estabelecidas ao longo de séculos também são rejeitadas, melhor dito, ignoradas, porque muitos autores nem sabem da existência delas e pensam que publicar um livro é apenas uma questão de imprimir palavras em folhas de papel, encaderná-las e pô-las à venda.
Mas não vejo que esse seja o problema maior. Para mim ele consiste no facto de atualmente os leitores se perderem no mar de lixo disponibilizado n Internet e tornando-lhes difícil – impossível mesmo – selecionar o que na verdade tem valor. Desperdiçam imenso tempo descobrindo por si próprios que muitas das leituras que fizeram não valiam a pena. Isso no melhor do casos porque o mais normal é ficarem eles próprios perdidos no meio de babilónica confusão. É a famosa lei de Gresham – a moeda má deita fora a moeda boa. Muito livro bom se afoga no meio do mar imenso de tanta escrita que não interessa ou interessa muito pouco.
É claro que o que acima disse se aplica não apenas à literatura mas a todas as áreas do saber, das ciências à história e às humanidades em geral. A literatura não é um ciência, todavia tem uma abrangência que inclui todas as áreas. Não lhe assiste, porém, qualquer obrigatoriedade de se subjugar ao real, como acontece na ciências, nem sequer quando se dedica a temas históricos. Daí dever ser considerada arte em vez de ciência, sendo os seus critérios de ordem estética, em vez de epistemológica. Mas ela inclui em regra doses fortes de ciências sociais, sobretudo de psicologia e sociologia, bem como de ética, visto aflorar constantemente questões de valor, muito embora tudo seja inteiramente dependente das subjetividades do/a autor/a e dos leitores e leitoras. A literatura abarca o todo e sempre foi usada como um veículo de intervenção no debate sobre as grandes questões da vida humana. Os grandes escritores foram indiscutivelmente fontes preclaras de reflexão sobre o humano e a humanidade, precisamente porque não se limitam à esfera do empiricamente mensurável ou quantificável. Não me canso de repetir – venho fazendo isso há décadas nas minhas aulas e intervenções públicas orais e escritas – que aprendemos mais sobre os seres humanos nas peças de Shakespeare do que em muitos livros de ciências sociais (escrevi sobre isso, por exemplo, no meu De Marx a Darwin – a desconfiança das ideologias, 2009), porque aquele génio agarrou pelo cerne questões humanas que por completo transcendem as esferas da ciência. Nas suas obras, os grandes autores sempre ofereceram pistas valiosas para os leitores aprenderem e refletirem sobre a sociedade. Mesmo Sócrates e Platão ainda têm imenso a ensinar-nos. Leia-se por exemplo o recentíssimo livro de Donald J. Robertson How to think like Socrates. Ancient Philosophy as a way of life in the modern world (New York: St. Martin’s Press, 2024). Os não-anglófonos que prefiram autores franceses poderão encontrar valor equivalente no livro de André Comte-Sponville, Petit Traité des Grandes Vertus (Paris: PUF, 1999). Obviamente que tenho consciência de ter abruptamente saltado da literatura para a filosofia, porém não mudei de comprimento de onda. Os grandes autores continuam atualíssimos porque os seres humanos, no que os define como tal, não mudaram. As grandes questões humanas são, no seu âmago, as mesmas de há dois mil anos; apenas se complexificaram. Veja-se as obras de Shakespeare, Cervantes, Charles Dickens, Eça de Queirós, Camões, Flaubert, Dostoievski, para referir apenas alguns clássicos em vez de outros mais modernos e contemporâneos. A velha questão sobre como medir a superior ou inferior validade entre a literatura e as ciências sociais não tem resposta. Há simplesmente gostos ou preferências. Há leitores que se sentem mais em sintonia com a literatura, incluindo a poesia, enquanto outros se identificam mais com o registo da história, da filosofia e das ciências. Mas as questões nucleares emergem nessas várias áreas das Humanidades.
É tempo de deixar estas considerações genéricas e centrar-me mais no nosso universo açoriano. Dizia atrás que foi a alteração da cultura moderna (uso sempre cultura no sentido antropológico, isto é, referindo os nossos modos de ser e agir) que reduziu o papel da literatura retirando-lhe a importância que durante séculos teve na formação das mentalidades e na criação de valores que regeram e ainda regem as nossas sociedades.
Não me sinto tão negativo como alguns dos autores que citei no início desta minha intervenção. Vejo com bons olhos a profusão de livros editados nos Açores. Se eles se publicam é porque há compradores e, naturalmente, leitores também. Obviamente que as tiragens são muito menores do que as de outrora (o fenómeno é geral: na década de 60 uma edição portuguesa normal era de 3000 exemplares; hoje dificilmente atinge os 1000). E como as pessoas têm cada vez menos tempo porque passam muitas horas nas redes sociais, resta-lhes poucas ocasiões para ler e, quando o fazem, com frequência se entretêm com livros de importância secundária. Mas vou deixar de lado as lamentações do género das que fazem os padres na igreja queixando-se dos que lá não vão. O público que aqui veio está interessado em livros e em literatura e por isso não vou cair nesse desajuste de incidir a atenção nos que não partilham desse gosto. Por isso, na sequência da ideia atrás esboçada de que a literatura reflete a cultura mas também reflete sobre a cultura de uma sociedade e funciona como veículo para aprofundamento dos valores da sociedade em que ela surge, vou terminar esta minha divagação sobre o estado do mundo com algumas considerações sobre a literatura açoriana – ou, se preferirem, a nossa literatura – e a sua importância para refletirmos e entendermos melhor a sociedade em que vivemos.
Os Açores são, de há muito, um lugar muito especial no espaço português produzindo uma percentagem elevada de escritores e livros, fenómeno reconhecido pelas pessoas do exterior devidamente informadas. Temos uma plêiade de escritores que nos tem oferecido uma panóplia de obras, muitas delas deveras estimulantes e resistentes ao tempo, autênticos clássicos. São os nossos clássicos.
A propósito de clássicos e de leituras, permitam-me que abra um parênteses para expressar o meu entusiasmo e admiração pela magnífico trabalho no campo da leitura que na Terceira há vinte anos vem sendo levado a cabo por Miguel Monjardino, que todas as semanas conversa sobre clássicos gregos (sobretudo teatro) – em tradução, está visto – com quatro turmas de 16 alunos de idade entre os 13 e 17 anos. Esse trabalho verdadeiramente notável e inovador mereceria ser mais conhecido e replicado, se bem que não seja fácil fazê-lo, pois não nascem todos os dias idealistas como Miguel Monjardino.
Volto aos nossos clássicos açorianos. Há duas décadas, José Manuel Rebelo, então presidente da Casa dos Açores do Norte, no Porto, elaborou um inquérito que enviou a várias pessoas e ao qual eu respondi. Oobjetivo era obter alguma bibliografia açoriana de modo a fornecê-la aos leitores dela desconhecedores mas eventualmente interessados[7]. Transformei o inquérito a meu modo, formulando as perguntas de modo a servirem melhor os meus objetivos e estruturei a minha reação como se a responder aos mais variados tipos de gostos e interesses.
1. «Não gosto de romances mas gosto de ler livros sobre os Açores»:
As Ilhas Desconhecidas. Notas e paisagens de Raul Brandão
Corsário das Ilhas de Vitorino Nemésio
2. “Gosto de literatura, mas da que fala da vida de antigamente nos Açores”:
Pastorais do Mosteiro e Gente das Ilhas de Nunes da Rosa
Contos e Narrativas de Florêncio Terra
3. “Não gosto de literatura mas gosto de saber coisas antigas sobre os Açores”:
Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra
4. “Mas seria capaz de ler uma história da literature dos Açores”:
Então leia os estudos introdutórios de Eduíno de Jesus às obras de Armando Côrtes-Rodrigues, Madalena Férin e António Moreno.
5. “Gosto de livros sobre coisas antigas, mas não romances”:
Voz de Longe de Armando Côrtes-Rodrigues
Etnologia dos Açores (2 vols.), de Carreiro da Costa
6. “Gosto de romances e contos, mas sobre São Miguel”:
Raiz Comovida e Grito em Chamas de Cristóvão de Aguiar
Gente Feliz com Lágrimas e O Meu Mundo Não É Deste Reino de João de Melo
Grande Ilha Fechada e Sobre a Verdade das Coisas de Daniel de Sá
O Barco e o Sonho de Manuel Ferreira
7. “Gosto de romances e contos, mas quero conhecer a vida nas outras ilhas”:
Pedras Negras e Mar pela Proa de Dias de Melo
Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio
A Fome de José Martins Garcia
todos os mencionados em 1)
8. “De literatura só gosto de poesia, mas gosto de poesia que tenha algo a ver com os Açores”:
Pão Verde e Eu Fui ao Pico, Piquei-me de Álamo Oliveira
Almas Cativas de Roberto de Mesquita
A Ilha e o Mundo de Pedro da Silveira
Ilíada de Vasco Pereira da Costa
Na Distância deste Tempo de Marcolino Candeias
Grande parte da poesia de Urbano Betencourt
9. “Leria poesia açoriana só se não falasse de nuvens nem de mar e basalto:
A Viagem Possível de Emanuel Félix
Sonetos (quase todos) de Antero de Quental
A Deusa da Chuva de Eduardo Bettencourt Pinto
quase tudo de Emanuel Jorge Botelho e de Natália Correia
A poesia de Eduíno de Jesus reunida no volume Signos do silêncio.
10. “De literatura, só gosto de diários”:
Era Uma Vez o Tempo de Fernando Aires
Relação de Bordo de Cristóvão de Aguiar
11. “Só lerei escritores açorianos se não escreverem sobre os Açores”:
Lugar de Massacre e Contrabando Original de José Martins Garcia
Autópsia de um Mar de Ruínas de João de Melo
Até Hoje de Álamo Oliveira
Braço Tatuado de Cristóvão de Aguiar
Se não se refere apenas a ficcionistas, experimente, por exemplo, as crónicas de Mário Mesquita: A Regra da Instabilidade.
12. “Haverá livros açorianos que falem da emigração?”
Quase todos. Já não gosto de chocolates e Mar e Tudo de José Francisco Costa
13. “Só gosto de livros de viagens”:
Além dos apontados em 1):
Das Velas de Lona às Asas de Alumínio de Dias de Melo
Viagem ao Contrário de Manuel Ferreira Duarte
14. “Só gosto de poesia simples”:
Antologias de Manuel Augusto de Amaral e de Armando Côrtes-Rodrigues
Festa Redonda de Vitorino Nemésio
Do Tempo e de Mim e Ilha em Terra de João Teixeira de Medeiros
15. “Preciso de livros que me ajudem a perceber a literatura açoriana”:
O Imaginário dos Escritores Açorianos e Mar Cavado de Vamberto Freitas
Urbano Bettencourt, O Gosto das Palavras I e II
A escrita crítica de Victor Rui Dores, infelizmente ainda dispersa
De propósito não atualizei a lista. Por um lado, evito ferir suscetibilidades. Por outro, os livros mais recentes são frequentemente referidos nos meios de comunicação. Portanto, prefiro aproveitar esta oportunidade para mencionar estes nossos clássicos que ajudaram a formatar o imaginário açoriano. Herdámos esse património e devemos mantê-lo vivo na nossa conversação cultural porque eles ajudam-nos a compreender o presente e por isso não podem ser esquecidos por uma sociedade como a nossa que se preza de resistir aos abusos do mundo moderno e defender os valores do passado que vale a pena manter e transmitir aos jovens e ao futuro que eles estão construindo para si e para os seus descendentes. Muita da literatura que hoje se produz nos Açores continua, aliás, essa nossa tradição de refletir a nossa sociedade e por isso deve ser lida, divulgada e discutida no nosso quotidiano. Uma cultura viva não pode deixar de fazê-lo.
Portanto, Literatura e Sociedade, não sendo sinónimos, são irmãs-siameses. Uma não pode viver separada da outra. Pelo menos foi isso que tentei demonstrar cumprindo o pedido que me foi feito e cingindo-me a ele.
Muito obrigado pela vossa presença e atenção.
* Texto lido na abertura do IV Encontro Literário, patrocinado pela Câmara Municipal de Ponta Delgada e coordenado por Pedro Paulo Câmara, realizado no Centro Natália Correia, Fajã de Baixo, S. Miguel, Açores, a 9 de outubro de 2025.
[1] “Crise en abyme, Quiet please: critics at work”, Issue 50: Harsh Realm, Spring 2025 (https://www.nplusonemag.com/issue-50/reviews/crise-en-abyme/) Esta e todas as subsequentes traduções de textos ingleses são da responsabilidade de Leonor Simas-Almeida, a quem agradeço a colaboração.
[2] Culture Capital, 19 de setembro de 2025 (https://jmarriott.substack.com/p/the-dawn-of-the-post-literate-society-aa1)
[3] No seu livro Amusing Ourselves to Death.
[4] Culture Capital, 19 de setembro de 2025
[5] “Ideias claras e distintas (cada vez mais caras e extintas)”, in Diálogos Lusitanos com Portugal à distância.Lisboa: Quetzal, 2024, pp. 19-38.
[6] Culture Capital, 19 de setembro de 2025.
[7] Casa dos Açores da Nova Inglaterra – Boletim Informativo, n. 10 (2001), p. 6-7. Inclui essa lista no meu livro Minima Azorica. O Meu Mundo É Deste Reino. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2014, pp. 211-213.
