Apresentação “Os Pássaros de Dóidóia”

            Aceitei com muito orgulho este convite para vos apresentar “Os Pássaros de Dóidóia”, mas tenho de fazer uma declaração de interesses inicial: confesso-vos que não serei a pessoa certa, porque tenho uma admiração enorme pelo Henrique Levy, tanto pela pessoa extraordinária que é, como pela sua escrita e pelo seu brilhante percurso literário. E isso condiciona muito o que vos irei dizer, pelo que apelo à vossa compreensão.

            Perante a escrita do Henrique, os dias aparecem sem avisar e ele consegue, pelo recurso a uma habilidade só sua, levar-nos a subir aquela colina mágica dos sonhos. Dá-nos vontade de agarrar a sua mão e não a largarao longo das páginas, parando apenas por momentos para contemplarmos os olhos de deserto do autor, ao som do vento quente, sobretudo quando nos obriga a nunca desistirmos perante a terra orgulhosa.

Esta obra é, assim, uma notável jornada pelas emoções, pelas raízes, pelos seus espaços e visões, onde a vida se mistura com as palavras em momentos oceânicos. Tal como a mágoa dos tempos não se mede, o amor à história da nossa terra nunca se perde. 

E sobressai a salvaguarda intransigente daqueles que são os seus pilares supremos: um irrepreensível sentido de humanidade, a defesa da liberdade, a elevação do ser humano, a transcendência da lusofonia num hino entoado sem fim e a perícia da combinação de sabedorias em benefício de uma cultura comum que nos torna quem somos. Sem barreiras.

            É realmente um privilégio estarmos aqui com o Henrique Levy, no local certo e à hora certa. Poucos têm essa sorte, não pela inacessibilidade do autor, mas pela enorme escassez de seres humanos assim.

            O Henrique nunca esquece as suas referências e as suas terras, por isso, permitam-me salientar alguns pormenores d’ “Os Pássaros de Dóidóia”, com o cuidado de o fazer sem revelar quaisquer segredos a desvendar apenas pelos leitores. Mas não posso mesmo deixar de os realçar.

            Um pormenor muito interessante reside nos nomes das personagens, fiquem atentos a isso. Cada nome é meticulosamente escolhido e traz consigo uma história incrível, quase permitindo um novo livro acerca desses detalhes.

            Outro, está na presença ocasional e arrepiante de uma divindade temporal que tudo condiciona. Ou não, porque ela própria se delicia na ambiguidade, deixando o livre-arbítrio surgir ao sabor das opções humanas.

            O que nos leva ao denominador comum, transversal, desta obra. O permanente grito pela Liberdade. Corporizada no mote dado pelos pássaros e não só, no desejo, no amor, correspondido ou não, e na luta pela igualdade. De repente, sem esperarmos, as aves tornam-se na mais intensa metáfora que só este maravilhoso talento do Henrique consegue alcançar.

            Por fim, Dódóia. Que personagem, Henrique. Idealista, sobrevivente num espaço e tempo indefinidos, habilmente deixados à interpretação do leitor, com uma força, intensidade e visão inigualáveis, entregando-se à Natureza e ao mundo em prol de valores superiores, tudo fazendo para o tornar mais justo e equilibrado. Confrontada perante interesses diferentes, nunca hesita na melhor opção, a escolha pelos outros.

            Terei, por isso, de fazer outra consideração. Ao ambicionar a mudança da sua comunidade, da sua terra, dos seus princípios, derrubando injustiças, preconceitos e desigualdades, Dódóia transforma-se numa verdadeira autarca naquele território.

            Como sou eleito local em Cascais há mais de 25 anos, respeito muito quem vive nesta vontade inabalável de tornar a nossa terra cada vez melhor. E lembrei-me, inclusive, de algumas lições vindas do Antigo Regime. Até às reformas de Mouzinho da Silveira, as câmaras municipais funcionavam como tribunais de primeira instância, com jurisdição sobre praticamente todas as matérias, e a aplicação do Direito era realizada pelos presidentes de câmara, tornando-se num verdadeiro símbolo de autonomia local. Em 1532 existiam 762 municípios no nosso país, em 1834 ascendiam a 816, o que contrasta muito com a nossa realidade atual de 308 municípios.

            E sem eleições, obviamente. Os cargos eram atribuídos aos homens-bons da terra, na certeza de que seriam os melhores e mais bem preparados para realizar os desejos, as ambições e os anseios da população, correspondendo aos sonhos que estão por cumprir.

            E tu és um homem bom, Henrique. Imerso nessa tua humanidade transcendente, não abdicas de nenhum princípio ou dos valores essenciais da liberdade, igualdade e fraternidade, os certos, assim como de um respeito absoluto pelo próximo, na luta pelo rumo certo da história.

            Em tempos de incertezas, de corpos estranhos à democracia que entram nas instituições e sobem nas sondagens, historicamente em terreno fértil após pandemias mundiais, precisamos mesmo de uma luz que nos guie.

            E colocas Dódóia a ensinar-nos que nunca se deve escolher como líder quem gosta mais do poder do que do povo.

            A literatura, tal como a política, é sobre as pessoas, implica preocuparmo-nos com as pessoas,cuidar das pessoas. Ah, se o mundo fosse governado por poetas…

            Como vês, Henrique, não sou a pessoa certa para este momento, mas a uma manifestação de coragem como a tua, temos de responder presente.

            Obrigado por nos trazeres o elemento transformador da esperança no ser humano e mereces, por isso,a nossa profunda gratidão.

            Muito obrigado a todos.

Alexandre Faria, escritor

3 de outubro de 2025

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