
O Vulcão dos Capelinhos constituiu o acontecimento que mais marcou a história do Faial e dos Açores do século XX, e foi um marco importante no conhecimento destas ilhas além-fronteiras. Poderemos mesmo dizer que, para todos os efeitos, há um antes e há um depois de Capelinhos.
Durante treze meses, entre 27 de setembro de 1957 e 24 de outubro de 1958, o Vulcão dos Capelinhos esteve ativo e andou nas bocas do mundo. Cientistas, jornalistas, cineastas e fotógrafos de todas as proveniências vieram cá parar: duas prestigiadas revistas, a “National Geographic Magazine” e “Paris Match” descobriram os Açores a partir de Capelinhos e ofereceram ao mundo inteiro espetaculares imagens do Faial a cores; a Rádio Televisão Portuguesa realizou , nesta ilha, a sua primeira grande reportagem do exterior, reportagem essa que haveria de tornar famosas as palavras do então governador civil, dr. Freitas Pimentel, que, referindo-se ao facto do Faial, em consequência da erupção de Capelinhos ter crescido 2.50 km2, afirmou: “Sou o único governador que, após os Descobrimentos, fez aumentar o território nacional”.
Falamos de um Vulcão que foi, a todos os níveis, sui generis: o único do mundo que, até hoje, foi observado, estudado e interpretado desde o seu início até ao seu adormecimento. Sui generis devido ao seu fácil acesso, com farol, estrada e telefone. Um Vulcão que trouxe ao de cima o melhor da solidariedade humana, num tempo em que a religião falava mais alto do que a ciência. Como esquecer aquelas imagens, a preto e branco e a sépia, de populações percorrendo caminhos com coroas do Espírito Santo implorando misericórdia divina?
Seguiu-se o êxodo emigratório para os Estados Unidos da América e, posteriormente Canadá, o que causou uma diminuição drástica na população faialense. Lá longe, os nossos emigrantes criaram raízes e família, nunca deixando de sonhar com um possível regresso à terra natal.
O que não foi notícia nos jornais foi o desaire das 25 famílias faialenses que, mercê de diligências feitas junto do gabinete de Salazar, emigraram para Moçambique, fixando-se em Limpopo, mais propriamente no Colonato de Gaza, no vale do rio Limpopo, numa iniciativa que não teve continuidade. Tudo correu mal. A começar pela viagem no navio “Lima” que, devido a sucessivas avarias, em vez dos habituais 8 dias de viagem para Lisboa, levou 15 dias de penosas arrelias. Seguiu-se a viagem para África, no navio “Niassa”, com a duração de 21 dias.
A estada dos faialenses em Limpopo foi extraordinariamente difícil. Contrariamente ao verificado no continente americano, em Moçambique os faialenses não encontraram nem acolhimento nem ajuda. Ficaram, pura e simplesmente, entregues a si próprios e à sua sorte. E como se isto não bastasse, o clima era terrível, com temperaturas a rondar os 40 graus, as terras – as “machambas” – eram inóspitas, o trabalho duríssimo (lavoura, colheita de algodão e cultivo de milho, feijão e batatas) e, vivendo em condições muito difíceis, os nossos emigrantes acabaram por regressar todos à ilha do Faial, sendo que alguns deles emigraram posteriormente para as Américas de promessas e abundâncias…
Como escreveu Nemésio, somos um “povo embarcadiço”. O açoriano encontrou sempre na errância a sua forma de perseguir caminhos de felicidade e sonho.
Victor Rui Dores, escritor
