ENTRE AS LUZES E AS SOMBRAS DA PALAVRA

Leituras de Teresa Martins Marques e a Beleza da Crítica como Criação

Há livros que não se limitam a ser lidos: respiram connosco, interpelam-nos, obrigam-nos a abrandar o passo para que possamos ouvir as suas múltiplas vozes. Leituras Poliédricas, de Teresa Martins Marques, é um desses livros. Desde o título, inscreve-se uma metáfora daquilo que a literatura é — um corpo feito de luz e sombra, um diamante com faces diversas, em que cada olhar revela um brilho diferente.

Não é apenas um volume de crítica literária; é uma declaração de amor à palavra e uma prova de que ler é também reescrever. Cada ensaio aqui reunido é mais do que análise: é gesto criador, comentário que se transforma em poema, reflexão que se converte em viagem. A autora coloca-se no mesmo plano da obra que lê, não como quem a domina, mas como quem a acompanha, fiel à convicção de que a leitura é sempre diálogo e nunca posse. A sua escrita lembra-nos que o ato de ler é também o ato de deixar que a obra nos leia, que a palavra nos devolva a nós próprios. Logo nos textos iniciais, como “Sobre o rosto” e “Infinito pessoal”, Teresa Martins Marques afirma a sua visão da crítica: uma arte que ilumina apenas fragmentos, reconhecendo a impossibilidade de abarcar o todo. A imagem do poliedro é a mais justa: cada leitura abre uma face, mas outras permanecem ocultas, à espera de novos gestos de interpretação. A humildade de admitir que não há leitura total é, afinal, o que torna este livro tão generoso.

É o contrário da crítica dogmática que pretende encerrar significados: Teresa Martins Marques prefere a liberdade da incompletude, a consciência de que toda a leitura é provisória, aberta, em permanente diálogo com outras leituras futuras. A sua prosa faz lembrar, neste sentido, as lições de críticos norte-americanos como Edmund Wilson ou Harold Bloom, que também viam a crítica como uma forma de criação e de resposta estética, mais do que como ciência exacta. Wilson dizia que o crítico deve ser antes de mais um ensaísta, alguém que se expõe no que escreve; Bloom insistia no carácter visionário e até mesmo poético da crítica. Teresa Martins Marques, segue estes passos, mas com uma marca pessoal: a atenção ao detalhe, a delicadeza de quem lê poesia até nas entrelinhas da narrativa.

Em “A literatura e a folhagem”, a autora convoca Homero e a tradição clássica para refletir sobre a perenidade da palavra escrita. Como as folhas das árvores que caem e renascem, também os textos são continuamente esquecidos e ressuscitados, apropriados por novos leitores e novas gerações. A literatura é essa árvore perene que nunca cessa de dar folhas, de se renovar, de se recompor, mesmo quando parece seca.

No ensaio “O binómio de Newton e a Vénus de Milo”, ciência e arte são postas em diálogo: a matemática surge como gesto criador, a arte como cálculo secreto, mostrando que o pensamento humano não vive de compartimentos estanques, mas de passagens subterrâneas. Lê-se este ensaio quase como se fosse um poema filosófico: nele, o rigor das ideias matemáticas encontra-se com a sensualidade das formas artísticas.

Um dos aspectos mais fascinantes de Leituras Poliédricas é a maneira como dissolve fronteiras. Maria Lúcia Lepecki, no prefácio, observa justamente que Teresa Martins Marques lê a poesia como quem lê narrativa e a narrativa como quem lê poesia. Essa dupla inversão dá origem a um discurso crítico de rara sensibilidade, que sabe captar não só o que as palavras dizem, mas também o que murmuram, o que sugerem, o que insinuam no silêncio entre linhas. Não se trata de explicar friamente os textos, mas de os fazer pulsar de novo no espaço da crítica. As leituras de autores são testemunho dessa capacidade de renovação.

Cesário Verde, posto em diálogo com Camões, revela-se não apenas como herdeiro de uma tradição épica, mas também como transgressor que cria outra forma de olhar a cidade e a vida moderna. Gomes Leal é recuperado da margem para o centro, visto como poeta da inquietação, da rebeldia, da tensão entre o divino e o satânico.

Raul Brandão surge iluminado pelo expressionismo e pela densidade existencial que faz da paisagem uma personagem viva, uma presença que respira e sofre. José Régio é apresentado no seu combate interior entre fé e dúvida, tradição e modernidade, num gesto crítico que não esquece a dimensão espiritual da sua obra.

José Rodrigues Miguéis recebe uma leitura atenta às personagens femininas, mostrando como o escritor ultrapassa estereótipos e cria figuras densas, complexas, resistentes. Rosa Lobato de Faria é defendida contra a simplificação que a catalogava como “autora light”, revelando a profundidade e a delicadeza da sua ficção.

Teolinda Gersão aparece como voz que oscila entre o real e o onírico, refazendo o quotidiano em imagens quase surreais. Eugénio Lisboa é lido como crítico que dialoga com o mundo, um parente intelectual que Teresa Martins Marques reconhece como próximo. Ana Marques Gastão é posta em diálogo com Paula Rego, numa leitura interartística em que poesia e pintura se cruzam, revelando a força do feminino e a energia de um imaginário partilhado.

Para mim, mas sou suspeito, os capítulos mais belos são aqueles que mergulham nos imaginários insulares. Vitorino Nemésio surge pela imagem do milhafre, símbolo de liberdade e pertença; Onésimo Teotónio Almeida é lido através dos contos e das crónicas que articulam humor, memória e diáspora; João de Melo transforma a experiência açoriana em ficção universal, cruzando infância, guerra e emigração; Fernando Aires resgata no seu memorialismo vozes e vidas que resistem à erosão do tempo; Adelaide Freitas e Vamberto Freitas acrescentam a dimensão crítica e ensaística, alargando a literatura açoriana a diálogos transatlânticos e à experiência luso-americana. Nestes ensaios percebe-se como a insularidade, longe de ser limite, é uma abertura: o arquipélago funciona como metáfora da pluralidade, lugar onde memória e futuro se encontram. Aqui, Teresa Martins Marques lembra-nos críticos americanos como Susan Sontag, que via a literatura como um espaço de resistência e de imaginação, capaz de atravessar fronteiras geográficas e existenciais.

A beleza da escrita de Teresa Martins Marques reside em nunca separar o rigor da emoção. A sua crítica pensa e sente ao mesmo tempo, rejeitando a ilusão de neutralidade. Toda a crítica, lembra-nos, é também autobiográfica. E por isso a sua voz não se esconde: assume-se, atravessa o texto, vibra em cada frase. Os ensaios que escreve são comentários no sentido mais alto do termo: prolongamentos da obra lida, novas vozes que a acompanham, novos caminhos que se abrem a partir dela. Esta atitude, de resto, aproxima-a de George Steiner, outro crítico de dimensão universal, que também insistia na responsabilidade ética e estética da leitura. Como Steiner, Teresa Martins Marques acredita que a literatura nos convoca não só intelectualmente, mas existencialmente, que ler é sempre uma forma de responder à vida. No final, o livro é ele próprio um poliedro. Cada ensaio é uma face que reflete uma parte da literatura portuguesa, seja ela clássica ou contemporânea, continental ou insular, poética ou narrativa. O conjunto é prova de que a crítica pode ser ato de rigor e liberdade, de pensamento e de criação.

Teresa Martins Marques confirma-se aqui como ensaísta singular: versátil, lúcida, apaixonada. A sua escrita não se contenta em analisar; procura interrogar, abrir caminhos, redescobrir sentidos. Lemos o livro não apenas para conhecer melhor os autores, mas para aprender de novo a ler. E talvez seja esta a lição maior de Leituras Poliédricas: a crítica não é apenas sobre a literatura, é sobre a vida. Como as gaivotas da canção Ilhas de Bruma, que regressam sempre à terra depois de longos voos, também a crítica de Teresa Martins Marques nos lembra que a leitura é um regresso constante ao essencial: à palavra, à memória, à imaginação que resiste. A sua obra é uma casa aberta, cheia de janelas por onde entra a luz, onde o leitor é convidado a sentar-se e a descobrir que cada face do poliedro guarda um segredo.

Este livro inscreve-se numa colecção especial coordenada por Vamberto Freitas, crítico literário que há décadas se dedica a iluminar os caminhos da literatura portuguesa, e em particular da açoriana e da diáspora. Esta colecção, publicada pelas Letras Lavadas, reúne géneros diversos, vozes de várias gerações e estilos plurais, criando uma tapeçaria única no panorama editorial do arquipélago. É uma autêntica pérola, um tesouro que confirma como os Açores podem ser centro e não apenas margem, lugar de encontro e não de isolamento. Só mesmo Vamberto Freitas, com a sua sensibilidade rara, o seu rigor e a sua paixão pelo ofício da crítica, poderia orientar uma colecção desta magnitude, capaz de unir o rigor académico ao sopro criador, a memória ao futuro, a insularidade à universalidade. Ler estes volumes é, também, testemunhar o trabalho paciente e luminoso de um dos grandes mediadores da nossa literatura contemporânea.

Escrevo estas linhas com a ousadia de quem é apenas, nas palavras de Eugénio de Andrade, “um inábil aprendiz da vida”. Sei que este livro mereceria um ensaio muito mais longo, mais elaborado, mais perfeito. Mas não podia deixar de escrever sobre ele, nem deixar de agradecer a Teresa Martins Marques por esta caminhada pela literatura, guiada pela mão de uma das mais iluminadas vozes da crítica portuguesa. Leituras Poliédricas é mais do que uma obra de crítica: é uma viagem à essência da leitura, uma celebração da beleza infinita das palavras. E é também um espelho onde nos vemos a nós próprios como leitores. Cada página abre-se como uma janela para o vasto mar da literatura, mas também como um espelho de cristal onde reconhecemos a nossa própria sede de sentido. Neste poliedro feito de ensaios, a luz incide de forma desigual, criando sombras e claridades — tal como a vida. Ler Teresa Martins Marques é aprender que a crítica pode ser canto e claridade, que cada palavra é uma pedra que ressoa no rio do tempo, que cada autor estudado é uma estrela numa constelação maior. Assim, ao fechar o livro, não o encerramos: levamo-lo connosco como quem leva um mapa incompleto, uma bússola que aponta não para um destino, mas para a infinidade dos caminhos.

Leituras Poliédricas é o convite para aceitar o inacabado, o fragmento, o brilho que se renova em cada leitura. E, talvez, é também a lembrança de que todos somos viajantes na grande travessia da linguagem, todos poliedros por dentro, todos palavras ainda por escrever.

Diniz Borges

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