
“Sombras do Atlântico” é o título do romance histórico de Luís Mendonça, no qual o investigador e historiador entrelaça a ficção com dados recolhidos ao longo de anos de estudo sobre a emigração açoriana para o Brasil (tema que já explorara em anteriores obras de carácter mais científico). Em entrevista ao ‘Correio dos Açores’, Mendonça explica as razões, as dinâmicas e a dura realidade vivida pelo povo açoriano que, entre os séculos XVIII e XIX, partia rumo ao território brasileiro.
Correio dos Açores – Quais foram as principais razões que levaram tantos açorianos a arriscar a travessia do Atlântico, em direcção ao Brasil?
Luís Mendonça (historiador e investigador) – Em relação a esse assunto, não há propriamente unanimidade entre os autores e os investigadores. Assim, enquanto alguns autores e investigadores insistiam em valorizar factores de ordem psicológica, por exemplo, espírito de aventura, desejos de viajar, ambição de riqueza, imitação dos que partiam, outros estavam muito mais inclinados a reconhecer que as condições socioeconómicas do arquipélago assumiam-se como o principal motivo para que milhares de açorianos procurassem a sorte do outro lado do Atlântico. Aliás, é esse o nosso ponto de vista.
Se quisermos ser mais precisos, podemos distinguir razões de natureza estrutural e razões de natureza conjuntural. Relativamente a razões de natureza estrutural, podemos enumerar a má distribuição da propriedade, as profundas desigualdades entre nobres e camponeses, as dificuldades de subsistência/sobrevivência da grande maioria da população açoriana e a pressão demográfica.
Só para dar um exemplo: em 1807, o Juiz de Fora de Ponta Delgada, ao constatar que as populações da ilha eram bastante arraigadas ao meio que as vira nascer, afirmava que só uma forte causa as compelia à emigração. Essa urgente causa era, sem dúvida, a fome, dizia ele: “Quem poderá Deus num país onde o seu trabalho, todas as suas forças, não são bastantes para granjear o necessário mantimento para a sua vida?”.
Podemos ainda acrescentar outros aspectos, como a persistência de processos de cultivo rotineiros, a grande extensão de terrenos incultos, o elevado preço das rendas no caso dos rendeiros, o desejo de fugir ao serviço militar, que fomentava muito a emigração clandestina, e também as escassas alternativas no sector industrial.
Em relação às causas conjunturais, podemos colocar aqui os cataclismos naturais, a sucessão de maus anos agrícolas, a crise que afectou drasticamente certas culturas dominantes na época, no século XIX, como a vinha em algumas ilhas e a laranja noutras.
Muitos viam o Brasil como uma terra de oportunidades. Esta visão correspondia à realidade?
O Brasil, mesmo após se ter tornado independente, continuou a ser, de facto, o destino preferencial da emigração açoriana, e era visto como a terra de todas as oportunidades, como um verdadeiro “El Dorado”, não só para os açorianos, mas também para os portugueses em geral.
É sobejamente conhecida a figura dos “brasileiros”, que eram portugueses que partiam para o Brasil numa situação quase incógnita e, depois de alguns anos de permanência, regressavam a Portugal ricos ou remediados. Mandavam erguer as suas casas apalaçadas, compravam terras e outros imóveis e ainda se entregavam a obras de filantropia, alimentando assim o mito do enriquecimento fácil no Brasil. E não se pode, de facto, minimizar o efeito que muitos emigrantes bem-sucedidos exerciam sobre familiares e amigos, estimulando-os a seguir o mesmo caminho. Acontece que isso era apenas a ponta do iceberg.
Na verdade, a grande maioria dos açorianos eram ludibriados, ainda nas ilhas, pela figura dos engajadores, indivíduos supostamente respeitáveis que percorriam as localidades para angariar homens com promessas ilusórias de enriquecimento fácil no Brasil, ajudando-os inclusivamente a evadir-se das ilhas, frequentemente de forma clandestina.
O facto é que o grosso desses emigrantes se destinava prioritariamente a substituir os escravos nas rudes fainas agrícolas, em condições de trabalho muito degradantes e desgastantes. Daí que a imprensa local e regional falasse da existência do “tráfico de escravatura branca”, para expressar a ideia de que muitos migrantes iam para o Brasil sujeitar-se a trabalhar nas roças de café, com contratos de trabalho longos e assinados de forma forçada, em condições muito precárias e até desumanas, privados temporariamente da sua liberdade, situação agravada pelo facto de muitos deles serem analfabetos e facilmente manipulados.
Portanto, havia, de facto, uma grande discrepância entre a idealização do que esperavam no Brasil e a realidade que encontravam (embora alguns conseguissem realizar os seus encantos).
No que toca aos dias de hoje, existem marcas visíveis desta presença açoriana no Brasil?
Estas marcas são sobretudo visíveis no sul do Brasil, na sequência da grande migração açoriana para Santa Catarina e Rio Grande de São Pedro (agora Rio Grande do Sul), em meados do século XVIII, que permitiu o povoamento daquele vasto território e a fundação de diversas povoações, e que não podia deixar de imprimir marcas, não obstante a passagem do tempo. Marcas visíveis na arquitetura das casas, mas também nas tradições culturais e religiosas.
Convém salientar também que as diversas Casas dos Açores, presentes em muitas cidades dessas regiões, ou até mesmo no Rio de Janeiro, onde existe uma importante comunidade de origem açoriana claramente vinda das ilhas do Grupo Central (Terceira, São Jorge e Graciosa), têm sido determinantes para manter bem viva a açorianidade no Brasil.
Em relação à sua obra “Sombras do Atlântico”, o que o inspirou a escrever a mesma e como foi o processo de investigação?
O livro teve como grande suporte as investigações que eu já tinha efectuado no âmbito da emigração açoriana, nomeadamente o livro que publiquei em 2024 e um outro que publiquei em 2002, em que já reunira bastante informação sobre a migração açoriana para o Brasil. Todavia, como é sabido, o romance histórico obriga-nos a sair da nossa zona de conforto, de um registo a que já estamos, de certa maneira, habituados.
Se o livro histórico tem muito mais ciência do que arte, já o romance histórico, se calhar, tem mais arte do que ciência. É preciso criar uma narrativa, introduzir personagens, descrevê-las fisicamente e psicologicamente, recriar cenários, improvisar ambientes, improvisar diálogos. Mas, apesar de tudo, a minha tentativa de escrever um romance histórico prende-se com a grande admiração que tenho pelo género literário: um género que permite preencher vazios e silêncios para os quais a história, por vezes, ainda não encontrou respostas; permite estabelecer novas pontes entre o passado e o presente; permite conferir maior humanismo à história, mesmo que recorrendo a personagens fictícias; permite até atrair leitores mais avessos à história científica; e permite, no fundo, proporcionar uma forma diferenciada de realçar a realidade.
José Henrique Andrade, jornalista no Correio dos Açores-Natalino Viveiros-director
