“Universal voices, diasporic echoes—words reaching for peace across all horizons.”
“Vozes universais, ecos diaspóricos — palavras a alcançar a paz em todos os horizontes.”

A Última Margem: Um Cântico pela Paz
Hoje, o mundo acorda como quem segura um vaso de cristal em mãos trémulas. A paz é esse vaso frágil, onde cabem todas as sementes do futuro, e que, se cair, não se recompõe. Somos jardineiros de um campo devastado e temos apenas este instante para lançar as sementes certas: as da ternura, da compaixão, do diálogo. O tempo é um rio que não espera; a cada segundo nascem guerras, e a cada segundo pode nascer também a reconciliação. É urgente escolher o lado da vida, porque o horizonte da paz não é apenas promessa distante — é o único caminho que nos resta, e nele pulsa ainda a esperança, teimosa como uma flor que insiste em romper o asfalto da violência.
Neste dia, 21 de setembro, o mundo inclina-se para diante, num gesto de esperança, como quem segura a respiração à espera de um milagre: a paz. A bandeira desse sonho agita-se tenuemente entre as ruínas da guerra, nos corredores do poder, no coração ferido de povos divididos. António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, lembrou hoje que “o nosso mundo em guerra clama por paz… Vidas estão a ser despedaçadas, infâncias extintas, a dignidade humana descartada. Temos de silenciar as armas. Pôr fim ao sofrimento. Construir pontes. E criar estabilidade e prosperidade”. Estas palavras chegam como trovão numa tempestade antiga demais. São apelo e lamento. Pois a guerra é escultora cruel: talha cicatrizes na terra, grava memórias em chamas, despedaça casas, transforma vizinhos em estranhos, irmãos em inimigos. Em seu nome, perde-se mais do que vidas; perde-se confiança, perde-se a promessa delicada do convívio.
Onde caem bombas, não se segue o silêncio, seguem-se gritos, poeira, sangue, exílio, orfandade. Cidades outrora cheias de riso tornam-se mausoléus de arrependimento. Sementes queimadas, rios envenenados, histórias apagadas. A guerra não apenas tira: rouba também o futuro, arranca-o das mãos de crianças ainda sem palavras. Mas existe outra guerra, menos visível e não menos letal: a guerra dentro das nações, entre ideologias, entre cidadãos. É o ódio sussurrado, a mentira repetida, a palavra usada como lâmina, a desumanização do outro. Quando uma sociedade ousa chamar menos humano a quem nasceu diferente, a paz começa a morrer.
Oscar Arias Sánchez, prémio Nobel da Paz, recordou que “a paz consiste, em grande parte, no facto de a desejarmos com toda a alma”. É um desejo que precisa de ser alimentado como quem guarda um fogo. Elie Wiesel, sobrevivente e também Nobel, deixou a advertência: “a guerra não deixa vencedores, apenas vítimas. A humanidade precisa de paz mais do que nunca, pois o nosso planeta inteiro corre o risco da destruição total”. E Martin Luther King Jr., ecoando a força da não-violência, lembrava que esta “não é passividade estéril, mas uma força moral poderosa, capaz de gerar transformação social”. São vozes que se juntam ao coro de um clamor antigo: a paz é urgente, a paz é possível, mas a paz exige coragem.
A poesia sempre testemunhou esse anseio. Maya Angelou escreveu: “a palavra é Paz. É agora alta. É mais alta do que a explosão das bombas”. Sara Teasdale, por seu lado, via na própria natureza uma indiferença dolorosa: “um dia virão as chuvas suaves e o cheiro da terra… e ninguém saberá da guerra, ninguém se importará quando tudo terminar”. Os versos não negam a devastação, mas recordam que há um espaço possível onde a paz se torna mais sonora do que as armas, mais persistente do que o medo.
Se a guerra lá fora despedaça terras, a guerra cá dentro desfaz intimidades. Quando palavras se transformam em projéteis, quando a raiva germina e floresce em ódio, quando metade de um país declara a outra metade traidora, a paz é sitiada a partir de dentro. Nos Estados Unidos, como em outros lugares, levantam-se vozes que semeiam divisão, que gritam “nós” contra “eles”, que alimentam rancor e transformam o medo em política. Não há balas, mas há feridas: laços quebrados, confiança corroída, uma guerra de palavras que se converte em guerra de almas.
O que precisa de acontecer é claro. Os conflitos têm de cessar, tanto os que incendeiam fronteiras como os que rasgam comunidades. É preciso parar guerras não apenas com tratados e armas silenciadas, mas também com corações desarmados. António Guterres apelou a que se combata o racismo, a desumanização e a desinformação, e a que se fale a linguagem do respeito. Não se trata de esperar pela paz como quem espera pela chuva: trata-se de semeá-la, regá-la, protegê-la contra os ventos da discórdia.
Imaginemos a paz como um mar suave ao amanhecer: céu lilás, ondas a sussurrar na areia, sem explosões, sem sirenes, apenas o sopro do vento e gaivotas ao longe. Risos de crianças sem medo, rostos desanuviados. Mãos que se apertam, para lá de fronteiras, para lá das diferenças. Que a paz seja a luz que nem a raiva consegue apagar.
Neste Dia Mundial da Paz, o mundo encontra-se numa encruzilhada. Um caminho leva ao abismo da fratura; o outro, a um horizonte sereno. O apelo é universal, mas começa no singular: em cada coração, em cada gesto, em cada palavra. Não podemos esperar que a paz seja apenas decretada em tratados. A paz manifesta-se na forma como falamos uns com os outros, na maneira como preferimos abrir portas em vez de erguer muros, na escolha de amar o vizinho — mesmo quando o vizinho parece outro.
Silenciemos as armas. Cuidemos das feridas. Construamos as pontes. Porque onde houver paz, haverá esperança. E pela esperança, vivemos.
Diniz Borges
Um Horizonte Sereno
Hoje escrevemos pela paz — vozes universais, ecos diaspóricos, palavras a atravessar oceanos em direção a um horizonte de justiça, compaixão e esperança.

The Last Shore: A Song for Peace
Today, the world awoke as if holding a crystal vase in trembling hands. Peace is that fragile vessel, carrying within it all the seeds of the future, and if it falls, it cannot be restored. We are gardeners of a devastated field, and we have only this instant to sow the right seeds: tenderness, compassion, dialogue. Time is a river that does not wait; every second, wars are born, and every second, reconciliation may also arise. It is urgent to choose the side of life, because the horizon of peace is not merely a distant promise—it is the only path that remains, and within it still pulses hope, stubborn as a flower that insists on breaking through the asphalt of violence.
On this 21st of September, the world leaned forward in a gesture of hope, as if holding its breath in expectation of a miracle: peace. The flag of this dream fluttered faintly among the ruins of war, in the corridors of power, in the wounded hearts of divided peoples. António Guterres, Secretary-General of the United Nations, reminded us that “our warring world is crying out for peace… Lives are being ripped apart, childhoods extinguished, and human dignity discarded. We must silence the guns. End the suffering. Build bridges. And create stability and prosperity.” His words arrived like thunder in a storm that has raged for too long. They were both a call and a lament. For war is a cruel sculptor: it carves scars into the land, engraves memories in flames, shatters homes, turns neighbors into strangers, and brothers and sisters into foes. In its name, more than lives are lost; trust is broken, and the delicate promise of community is undone.
Where bombs fall, silence does not follow—only cries, dust, blood, exile, and orphanhood. Cities once alive with laughter become mausoleums of regret. War does not simply take; it robs the future, snatching it from the hands of children who have not yet spoken their first words. But there is another war, less visible and no less lethal: the war within nations, among ideologies, among citizens. It is whispered hate, repeated lies, words used as blades, the dehumanization of the other. When a society dares to call someone less human simply for being different, peace begins to die.
Oscar Arias Sánchez, Nobel Peace Prize laureate, reminded us that “peace consists, very largely, in the fact of desiring it with all one’s soul.” Such desire must be tended like a flame. Elie Wiesel, survivor and Nobel laureate, warned: “War leaves no victors, only victims. Mankind needs peace more than ever, for our entire planet… is in danger of total destruction.” And Martin Luther King Jr., echoing the strength of nonviolence, insisted that it “is not sterile passivity, but a powerful moral force which makes for social transformation.” These voices joined together in an ancient chorus: peace is urgent, peace is possible, but peace demands courage.
Poetry, too, has always testified to this longing. Maya Angelou declared, “The word is Peace. It is loud now. It is louder than the explosion of bombs.” Sara Teasdale, with painful clarity, foresaw: “There will come soft rains and the smell of the ground… And not one will know of the war, not one / Will care at last when it is done.” These verses do not deny devastation; they remind us that peace, once born, can be louder than guns, more persistent than fear.
If war abroad shatters lands, war at home unravels intimacy. When words turn into projectiles, when anger grows and blossoms into hatred, when half a country declares the other half traitors, peace is besieged from within. In the United States, as in other places, voices rise to sow division, shouting “us” against “them,” feeding rancor, transforming fear into policy. There may be no bullets, yet there are wounds: broken bonds, eroded trust, a war of words that becomes a war of souls.
What must happen is clear. Conflicts must cease, both those that ignite borders and those that tear apart communities. Wars must end not only through treaties and silenced weapons but also through disarmed hearts. António Guterres has urged us to confront racism, dehumanization, and disinformation, and to speak the language of respect. It is not a matter of waiting for peace as one waits for rain; it is a matter of sowing it, watering it, protecting it from the winds of discord.
Imagine peace as a gentle sea at dawn: a lilac sky, waves whispering on the shore, no explosions, no sirens, only the gentle breath of wind and the cries of gulls overhead. The laughter of children unafraid, unshadowed faces. Hands joined across borders, across differences. Let peace be the light that anger cannot extinguish.
On this International Day of Peace, the world stood at a crossroads. One path led deeper into fracture; the other, toward a serene horizon. The call was universal, yet it began in the singular: in every heart, in every gesture, in every word. Peace cannot wait to be declared in treaties alone. Peace manifests itself in the way we speak to one another, in the choice to open doors rather than build walls, in the decision to love the neighbor, especially when the neighbor is different than we are.
Let us silence the guns. Tend the wounds. Build the bridges. For where there is peace, there is hope. And for hope, we live.
Diniz Borges
A Serene Horizon
Today we write for peace—universal voices, diasporic echoes, words crossing oceans toward a horizon of justice, compassion, and hope.
