Por mares nunca dantes…Natividade Ribeiro


Rosas a Sul e o cão

A escrita é uma coisa engraçadíssima. Co­meça por qualquer pretexto: ideia, cena observada, pensamento, cenário, via­gem… E, muitas vezes, não sabemos para onde nos levam. Escrevemos as primeiras palavras. Pensamos que elas estão sem fôlego. Mas continuamos a escrever, mes­mo não gostando do já escrito. Fechamos o caderno dos manuscritos. Abandonamos a caneta. Sentimos secura. Noutro mo­mento, voltamos às frases e, de repente, vêm associações e mais associações. Não deixamos que desapareçam e escrevemos freneticamente. Não podemos deixar que desapareçam. Acaba por nascer um texto, um poema de que gostamos. Aprendemos que devemos registar sempre as primeiras ideias. Se não elas esfumam-se, e nada feito. Perderam-se por entre brumas den­sas. Resta esperar por outras.

E assim começaram estas “Rosas a Sul e o cão”.

Sempre que vou ao Algarve em visita ao meu filho, pela viagem, revivo o ema­ravilhamento dos primeiros olhares, de quando, nos idos anos setenta, vim para o continente frequentar a Universidade de Letras de Lisboa.

Percorrer quilómetros e quilómetros de estrada, olhar um céu azul quase sem­pre sem nuvens, tão contrário ao nevoei­ro cerrado, tantas vezes a fazer duvidar da existência da própria Ilha; avistar em fascínio as planícies douradas do Alente­jo, surgindo como um lugar infinito, pelo contraste com o horizonte apertado da Ilha, onde encontrava esta infinitude no mar, apelando à viagem; a serra algarvia de vegetação bravia, o mar calmo, os ex­tensos areais de areia fina também dou­rada.

Na última viagem ao Algarve, naveguei por estas rosas a sul…

O cão também crescera muito. Não foram só as rosas vermelhas, tão seme­lhantes às rosas do Espírito Santo de São Miguel, minha Ilha. Não era um dálmata, mas tinha manchas pretas, umas peque­nas e outras muito grandes a matizar o pelo branco. Com os dias a anunciarem a vinda de grande calor, o cão ladrava e ga­nia mais do que o habitual, pressentindo fosse o que fosse que pressentisse. A dona acalmava-o com palavras doces. Ditas bai­xinho.

Naquele domingo, depois do filho, a nora e o neto se terem ido embora e o cão ter passado uma tarde tranquila em famí­lia, apareceu uma vizinha com a filha dos seus seis ou sete anos, para aproveitarem o silêncio de fim de tarde, num exterior onde não passam carros, quase um jardim privado, ladeado por pinheiros, magnó­lias, palmeiras, flores silvestres. O cão la­drava fortemente à cavaqueira entre elas e a dona. Esta chamava-lhe à atenção de forma assertiva, a que o cão não obedecia.

– Este cão pensa que é dono de vocês. – E o cão continuava a ladrar. – Este cão parece não querer perceber que não é uma pessoa. E, no entanto, o cão debruçava­-se, habitualmente, à varanda, colocando sobre o parapeito de metal as patas dian­teiras. Verticalmente observava plantas e flores. E eu via no olhar uma melancolia serena. Um olhar de poeta. Estaria a fazer algum poema?

A tarde foi-se entregando à noite. A vizi­nha e a filha foram-se embora. A dona do cão voltou ao silêncio de mulher que vive sozinha, só com o seu cão que conseguia acalmar com palavras doces. Ditas baixi­nho. E o cão talvez se sentisse mesmo uma pessoa.

Quanto a mim, aproveitei a luz boa da manhã e da tarde daquele domingo para fotografar as exuberantes rosas verme­lhas, como as do Espírito Santo, que cir­cundavam os canteiros da esquina de uma banda de prédios de rés do chão e primeiro andar.

E sobre as rosas vermelhas, à chegada à casa do Sul, escrevi:

Há três meses as roseiras foram profundamente podadas

Ao despedir-me do breve tempo

que lhes dedico, pensei se teriam forças

de fazer nascer novas rosas.

Ei-las, as rosas, garridas, generosas

prontas a perderem pétalas, abrirem pétalas

à curta vida, curta viagem.

In Ilha Maior, Manuel Tomás, director.

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