Letras dos Açores por José do Carmo Francisco (escritor)

Belarmino RamosCancela d´Água e outras memórias

Além de professor, Belarmino Ramos (n.1954) é conhecido como actor de Teatro (Grupo Alpendre de Angra do Heroísmo e Grupo O Arco de São Jorge) e de Cinema (Balada do Atlântico, O Barco e o Sonho, Mau tempo no Canal, Crónica de Gente Esquecida ou Gente Feliz com Lágrimas – entre outras séries televisivas) além de realizador de programas radiofónicos e autor de quatro livros. Este livro recente tem 98 páginas e está organizado em seis blocos narrativos: A matança do porco, A tosquia, Escola Primária, A eira do avô, o ciclo do milho e A cozedura do pão de milho. Uma vasta equipa (André Ramos, Pedro Aguiar, Alexandra Ramos e Adriano Ramos) organizou o volume que teve o apoio da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo. Num estilo sóbrio, solene e sereno, nem eufórico nem magoado, este trabalho integra seis memórias e organiza-se entre um cânone literário de gabarito (Raul Brandão, Vitorino Nemésio) e um registo (digamos) mais popular onde se pode ler uma frase como «Para palhoco não te falta nada» – página 83. A narrativa simples mas nunca simplista oscila entre o registo sentimental na memória da mãe do autor (Maria Helena Machado) como na página 91: «Se fores Domingo à missa/vai para um lugar que te veja/não faças andar meus olhos/em leilão pela igreja». Um outro registo pode ser lido na página 97 num texto pleno de rigor e de elementos antropológicos, como se fosse (e é na verdade) um trabalho de campo: «A vida era dura. Na nossa casa não havia dinheiro. Os ganhos eram poucos. Valiam-nos as coisas da casa: os ovos, o leite, o pão e todos os produtos hortícolas. Da venda só trazíamos petróleo, açúcar e sabão, muitas vezes a troco de uma dúzia de ovos. Os temperos (cravinho, baga, canela, noz- moscada, pimenta…) só eram comprados para o dia da matança do porco.» Dedicado à memória do pai do autor, este livro é uma viagem em seis etapas à memória revisitada do tempo da década de cinquenta do século XX na Ilha de São Jorge – Açores.

   

Agradecemos o apoio da Luso-American Education Foundation

Leave a comment