Daqui e dali, agora e antes VI por Paula de Sousa Lima

Viagem da alma no tempo e no espaço – Roma

Roma, uma cidade mítica, à qual ninguém, creio, é indiferente – ou quase ninguém, pois há sempre aqueles que de tudo se alheiam, não sendo capazes de ir além do restrito espaço da sua rua, literal ou metafórica. Mesmo sem se ter em conta Roma tal ela foi ou é, esta cidade anda nas bocas de muitos, em variadas expressões: “(…) é como ir a Roma e não ver o Papa.”, “Todos os caminhos vão dar a Roma.”, “Quem tem boca vai a Roma.”, “Roma e Pavia não se fizeram num dia.” Estes adágios deixam bem patente o relevo que a urbe tem na cultura ocidental, talvez mais como referência fossilizada do que como real presença.

De Roma também se diz ser a “cidade eterna” – diz-se, penso, por dizer, porque se ouviu dizer, porque, afinal, a cidade de Júlio César, dos malvados Nero e Calígula, da promíscua Messalina e da pérfida Agripina, de Horácio e de Cícero, de tantos outros que a História reteve, ainda é um marco importante. Foi-o sempre para mim – e permitam-me que faça a confissão de ter escolhido estudar Latim, tinha quinze anos, para saber como falavam as gentes nos tempos áureos daquela magnífica cidade, gentes que só eu conhecia dos filmes, mas que tão verdadeiras me pareciam, tal como a cidade também só dos filmes conhecia, mas também tão autêntica se me afigurava. Bem depressa o Latim de Cícero me torturou quase tanto quanto as maldades de Nero arrasaram os cristãos e quase a própria cidade, mas isso é assunto que aqui tem pouco relevo.

Esperei anos e anos, décadas e décadas até realizar a viagem que já fizera através dos filmes – e das páginas dos livros, traduzindo arduamente o Latim. Muitas vezes se diz que quem muito sonha facilmente se dececiona, pois o sonho erigido é esboroado pela realidade, esta nunca tão excelsa como aquilo que os sonhos constroem. Não foi o caso de Roma. Apesar de já não estarem lá, vi as gentes da mais magnífica das cidades: vi patrícios e matronas e plebe e gladiadores, ouvi as palavras com que estes saudavam o imperador e os urros excitados da plebe, aspirei o odor do sangue a empapar a arena. E isto porque o Coliseu, apesar de algumas mazelas que o tempo e a guerra sempre trazem, ainda se ergue imponentemente grandioso. E igualmente porque há outras ruínas “a céu aberto” que me fizeram viajar no tempo, interagir com o passado, quando homens e mulheres caminhavam pelas ruas da cidade, se concentravam junto dos templos e dos espaços de lazer, falando um Latim mais acessível do que o de Cícero.

Não é só desse passado que fala Roma. Nela há o tempo dos palácios e templos faustosos de épocas mais recentes, mas, ainda assim, já de saudosa distância. Esses dizem-nos da glória do Renascimento com pedra ou tinta erigida. E quem não sente a alma engrandecer ante as relíquias dos Museus do Vaticano ou ante a Fontana de Trevi? Mas foi exatamente junto da famosa fonte que, insidiosamente, se instalou o outro lado de Roma, esse lado a que nenhum tempo e espaço se furtam. Não imaginei patrícios nem matronas nem plebe ruidosa nem gladiadores intrépidos, vi, claramente vistos (perdoe-se-me o roubo das palavras a Camões), um homem e uma mulher, sentados em tábuas com rodinhas (espécie de skates miseráveis), avançando com o movimento de um braço e uma mão, enquanto o outro braço e a outra mão se estendiam à caridade, e as pernas defuntas, quase extravasadas das tábuas, inertes, tolhidas, informes, feridas, repugnantes. Disse-me o meu marido que eram criaturas “acolhidas” por máfias que as punham a render nas ruas, pois sempre o turista quer aliviar algum remorso depositando um ou dois euros na mão estendida dos aleijões. Pode render milhares de euros por mês ou até por semana – avançou. – Assim como tu deste, todos dão, os mafiosos sabem muito.

E eu fiquei sem saber nada. Ocorreu-me o Papa, na varanda sobre a praça de S. Pedro, a abençoar a imensa multidão que ali se concentra, e essa gente miserável sem conseguir sequer chegar à dita praça – não eram abençoados, por isso ali estavam, assim, como seres não humanos por inteiro, sequer em pequena parte. Párias, aleijões. Gente que serve para que quem é escorreito e afortunado apaziguem a consciência, depondo-lhes um euro ou dois nas mãos estendidas. Gente tão oposta ao fulgor da cidade e cujos andrajos tanto contrastam com as calças e as camisas de linho claro dos romanos do século XXI. Gente que me deixou uma espécie de espinho cravado na alma deslumbrada pelo esplendor da cidade eterna – feita, afinal, como todas, de alarmantes contrastes.

Paula de Sousa Lima, escritora

Lagoa, S. Miguel, Açores

Este texto foi publicado originalmente no jornal Ilha Maior na ilha do Pico, Açores.

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