
“… mas acho que tudo isto é porque a vida é sempre o resultado de uma persistente dialética, em que os contrários estão sempre em luta”. (pág. 98)
“O perímetro das nossas vidas era escasso, mas nele estava contido o universo”. (pág. 237)
A ilha do Pico é o atlas do escritor Manuel Tomás, que se esmera no cultivo da língua de Camões. Purista e escrevendo sempre no melhor vernáculo, ele nunca embarcou em semióticas da diegese do texto, e às escritas barrocas e gongóricas sempre disse não. E, com olhar atento, mão certeira e capacidade descritiva, continua a escrever a sua (e nossa) memória insular, numa escrita de evocação, caracterizada pela fluidez e frescura narrativas.
Daí a revisitação que, de há muito, este autor vem empreendendo à geografia sentimental, afetiva e humana do Pico, ilha que lhe deu berço. De resto, Pico e Faial estão no epicentro do seu percurso de aprendizagem da vida, ele que é defensor da “Comunidade do Canal”, na feliz expressão de Tomás Duarte, ou seja, uma relação histórica entre as ilhas do Faial e do Pico, uma permuta de afetos, uma identidade de pertença a um mesmo lugar, a uma mesma cultura, a um mesmo imaginário.
É precisamente na distância próxima destas duas ilhas, são nestes dois mundos matriciais e míticos (a vivência picarota e a vivência faialense) que reside o universo temático de Manuel Tomás, sendo que também as ilhas de São Miguel e Terceira fazem parte do seu imaginário afetivo.
Em As raparigas lá da minha rua (Companhia das Ilhas, 2025), a sua obra mais recente, Manuel Tomás, dá-nos a conhecer, de forma afirmada e autobiográfica, retalhos vivenciais dos seus verdes anos (anos 50/60 do século XX). Isto é, ele evoca, recria e (re)perceciona a sua infância, de forma naturalista, impressionista e com inegável sinceridade. São memórias iniciáticas do despertar para a vida, para o mundo e para o conhecimento das coisas, em ambiente rural e ruralizado e num tempo de muitas dificuldades, carestias e penúrias. É, acima de tudo, a memória maior da relação, inocente e fascinada, do autor com os outros – familiares, amigos e vizinhos, que surgem do fundo dos tempos como uma aparição de ternura no meio das ruínas da vida.
Assumindo-se como protagonista narrador, e numa assumida intertextualidade com o poema “As raparigas lá de casa”, de Emanuel Félix, Manuel Tomás, em As raparigas lá da minha rua, lembra essas saudosas raparigas que marcaram a sua meninice (eram 13!), ele que foi criado na escola da rua e do largo. Mas também nas errâncias do mar: com memória navegante, (d)escreve, de forma notável, as navegações, com bom ou mau tempo no Canal, das lanchas Espalamaca, Calheta e Velas, ou dos barcos de cabotagem Terra Alta, Espírito Santo e Santo Amaro. Mas também as viagens nos navios da Insulana – Carvalho Araújo, Lima, Cedros e Ponta Delgada.

Ao longo das 327 páginas do livro, o narrador interioriza as regras da vida, recorda eventos naquela fase em que as fantasias e as ilusões da infância ainda se não perderam no confronto com a realidade: rememora pessoas, coisas e acontecimentos que lhe povoam o imaginário, recordando bons tempos que não foram necessariamente tempos bons, dadas as circunstâncias da época a que se reporta a obra em análise: uma época marcada por um profundo mal-estar português, isto é, o subdesenvolvimento, a pobreza, a intolerância e todas as chagas sociais, políticas e culturais do Estado Novo.
Todas as pessoas que atravessamAs raparigas lá da minha rua têm em comum a busca da sobrevivência e da felicidade possível, num tempo em que o trabalho era muito duro e intenso. Gente muito humana, temerária e audaciosa – assim são as gentes do Pico – que estabelecem entre si profundos laços de solidariedade, fraternidade, cumplicidade e generosidade.
Acionando os retroativos da memória, o autor, com extraordinário poder de evocação e de pormenorização, fala de ritos e rituais que marcaram tempos idos. E, com sentido crítico e uns salpicos de ironia, vai tecendo considerações sobre acontecimentos pretéritos, comparando-os com situações dos nossos dias. E, aqui e ali, vai fazendo um sério ajuste de contas: com situações mal resolvidas e com alguns familiares (pelo mundo repartidos) menos amados…
Está, nesta obra, tudo o que à iniciação insular e num contexto de época diz respeito: as primeiras cabeçadas na vida, os primeiros amores (inconfessados e desencontrados), as primeiras brincadeiras, aventuras e peripécias, as topadas nos caminhos, os beliscões da mãe, os castigos do pai, as reguadas do professor, os primeiros cigarros fumados às escondidas, as festas profanas e religiosas, o pecado, o medo e a vergonha associados à religião católica (não é impunemente que se passou pelos bancos do seminário…), as crendices, as tradições, usos e costumes (por exemplo, as vindimas, o Natal, a matança do porco, a descasca de milho, o Dia do Corno, etc., (havendo a salientar aqui um interesse de ordem etnográfica), as rivalidades, as bisbilhotices, as invejas, os ressentimentos… E tudo isto no registo mais sentido de uma escrita pessoalíssima e profundamente humana.
Na distância do tempo, há o Vulcão dos Capelinhos, as cartas de chamada, o êxodo emigratório e o “sonho americano”. A ausência, a saudade e a solidão… Sonhos e desejos, partidas e regressos, alegrias e dúvidas, afetos e nostalgias, esperanças e deceções, o bem e o mal, o tempo e o porvir, a vida e a morte… E, pelo meio, abundam as sinestesias: o aroma da caldeirada, o cheiro dos junquilhos e das flores de incenso, o sabor dos figos de bico-de-mel e das amoras maduras…
Como forma de ilustrar o acima exposto, cada capítulo de As raparigas lá da minha rua abre com significativas citações de vários autores, a que não é alheio a formação literária de Manuel Tomás. E, nesta matéria, gostei particularmente dos dois últimos capítulos do livro. Numa espécie de inquérito ao subconsciente, há uma súbita mudança de narrativa e de narrador. E é de antologia a descrição da iniciação sexual do autor/ narrador…
Uma coisa é certa: a leitura deste livro despertou em mim uma imediata adesão afetiva. Porque são narrativas íntimas e apetecíveis, envoltas em atmosferas familiares que resultam de experiências humanas profundamente vividas e intimamente sentidas. E porque são escritas com os olhos da memória.
Victor Rui Dores, poeta
Livro publicado pela Companhia das Ilhas
