
Se, com poucas exceções, cada vez mais o “ofício” da escrita está marcado por um forte mercantilismo, ao ponto de o escritor ser promovido e se autopromover tal fosse vendedor de um qualquer bem, não necessariamente cultural, equiparável mesmo a um “famoso” ou a um influencer, o caso de Artur Veríssimo é um dos que mais contraria esta tendência. Avesso a publicidade ruidosa, a exposição pessoal pública, recatado, discreto, este autor poderá passar despercebido aos menos atentos. E, no entanto, trata-se de um dos mais importantes criadores literários açorianos, cuja produção vem do século XX e se afirma no século XXI.
Artur Veríssimo é, com efeito, autor de um conjunto razoavelmente extenso de obras literárias de feição narrativa, desde Uma pedra no sapato e A serpente está escondida na relva (ambas de 1988) até O encantador de viúvas e outras histórias (esta de 2025), passando por Rapariga celta sentada num javali e A felicidade das coisas imperfeitas, estas duas últimas já lançadas no século XXI, sendo que o romance A felicidade das coisas imperfeitas se afirma, incontestavelmente, como um dos mais originais e bem estruturados livros que os Açores viram nascer nos últimos tempos, sobre o qual muito se poderia dizer e muito pouco se disse – pelo meu silêncio, penitencio-me. Agora, Artur Veríssimo surge com um conjunto de contos a que chamou O encantador de viúvas e outras histórias, que não deixarei cair no olvido.
Num livro de dimensões reduzidas, cuja apresentação exterior (capa) é tão discreta como o seu autor, mas igualmente original e aprazível ao olhar, com a chancela da Húmus, Artur Veríssimo apresenta-nos um conjunto de doze contos (“Só os açorianos se beijam no vão da escada”, “A vida amorosa de Baltazar Peixe-rei”, “A tentação do romeiro”, “Perguntas que trazem bullying no bico”, “Sono breve”, “O encantador de viúvas”, “Quando os homens ladram”, “O pintor e o poeta”, “A carta”, “Não me envergonhes diante do doutor!…”, “O mar é importante para a navegação” e “A última viagem”), que cumprem exemplarmente a “vocação” de conto, enquanto narrativa curta e concisa, que se centra num episódio e que, preferencialmente, apresenta um final inesperado. Estes contos, de facto, para além de escritos num Português muito escorreito e a que não falta novidade estética, para além de, quando oportuno, mimetizarem falares regionais, assentam em princípios que os tornam exemplares e de qualidade inquestionável, dado apresentarem situações do quotidiano, mas igualmente (ou mais) inusitadas, desconcertantes, imprevisíveis, surpreendentes (sobretudo nos finais dos contos), a que se junta, como se o resto não bastasse, uma dose de inteligente humor, marca distintiva deste autor de exceção.

Passando a cada conto, que não explorarei senão brevemente, tendo em conta a tipologia deste texto, direi, antes de mais, que todos merecem ser mais “dissecados” do que aqui serão, pois vale cada um como pequena obra-prima. O espaço de que disponho, todavia, é limitado, logo limitar-me-ei a dizer aquilo que se me afigura mais relevante, pedindo desculpa pela escassez a que reduzo os contos de Artur Veríssimo.
Logo no primeiro, “Só os açorianos se beijam no vão da escada”, vamos deparar-nos com uma lógica que contraria a lógica dita normal e com uma personagem deveras interessante, a tia Georgina, que tem como passatempo observar o que se passa no vão da escada – e o que aí se passar é uma história de amor entre um casal de coreanos, daí o narrador afirmar “trata-se de um título equivocado”. Este conto é um dos que mais convoca o desconcerto e o inusitado. Já “A vida amorosa de Baltazar Peixe-rei” nos coloca perante o que se usa chamar uma ménge à trois, que, não obstante os desconcertos, em que o Artur é exímio, promete ter um final feliz, o que se vem a mostrar ainda mais desconcertante. “A tentação do romeiro” toma, quiçá, um tom mais sério, pois assenta no desejo carnal de um homem de fé por uma jovem que encontra e de quem foge para proteger os seus princípios morais, procurando-a depois, sempre sem sucesso, isto enquanto se inspira em A Arte de Amar, de Ovídio, obra esta que protagoniza, ironicamente, o fim do conto. “Perguntas que trazem bullying no bico” é, eventualmente, o conto mais declaradamente humorístico do livro, pois relata os traumas que se formam na mente de uma jovem enquanto aluna de professores que, segundo ela, são agentes de bullying, sendo seu sonho, quando já profissional de enfermagem, deles vingar-se – e, no final, estará um de tais professores em situação para ser alvo da vingança, o que convoca uma boa dose de humor. “Sono breve” afirma-se pela oposição à maioria dos outros contos, pois relata um curto episódio, passado num breve tempo, em que um homem deseja a mulher sem que possa satisfazer o seu desejo. Em meu entender, este curto texto tem algo de onírico e de sensual, até mesmo de lírico. “O encantador de viúvas” encontra-se a meio da obra, dando-lhe o nome. Não creio que seja por acaso, pois apresenta uma história muito bem urdida, cujo protagonista, sendo um sedutor “profissional” (de viúvas, a que deixa felizes), passará por situações deveras embaraçosa, aqui se patenteando, de forma conclusiva, o humor de Artur Veríssimo. “Quando os homens ladram” traz-nos uma desconcertante história sobre alguém que tem o desejo de contar uma história (ou de a escrever), passando por vicissitudes várias até lhe descobrir o final, este, como os outros finais dos contos do Artur, desconcertante. “O pintor e o poeta” põe em cena personagens que tiveram vida real aqui nos Açores, sendo figuras reconhecidas da arte feita nas ilhas açorianas, nomeadamente Domingos Rebelo (o pintor) e Armando Côrtes-Rodrigues (o poeta), e desenvolve, embora concisamente, um interessante diálogo entre os dois artistas micaelenses, que, obviamente, nunca teve lugar na vida real, mas que faz todo o sentido, ou seja, a situação criada pelo narrador, bastante inusitada, dá realismo, embora um realismo subversivo, ao referido diálogo. “A carta” é, possivelmente, o mais complexo de todos os contos deste conjunto, aquele que é dividido em partes e que convoca mais personagem. Também é o mais desconcertante. “Não me envergonhes diante do doutor!…”, pelo contrário, põe em cena uma situação muito simples, mas que é desconfortável para uma das personagens. O seu desfecho é deveras humorístico, assim como inesperado. “O mar é importante para a navegação” divide-se em duas partes, relacionadas pela presença de personagens da mesma família e pela sua relação com o mar, não sendo esta aquela que, bulolicamente, surge com mais frequência na literatura açoriana. “A última viagem” é um conto de construção bastante complexa, onde emerge algo a mais no todo do livro: um profundo lirismo, embora este já se anuncie no conto “Sono breve”.
Assim, de forma necessariamente reduzida, talvez mesmo algo redutora, como já havia enunciado, dou por terminada a minha apreciação deste novo livro de Artur Veríssimo, a qual, em qualidade, fica bastante aquém, certamente, do livro – que não merece senão rasgados elogios, conforme confirmará, estou certa, qualquer leitor habituado a boa literatura. Torna-se, contudo, claro neste meu exíguo texto, creio, que O encantador de viúvas e outras histórias, para além do que tem de inusitado, inesperado, desconcertante, humorístico, também se apresenta bastante diversificado, coisa tal que é sempre aprazível, pois torna a leitura aliciante. E é este, indubitavelmente, um livro aliciante.

Paula de Sousa Lima, escritora
Açoriano Oriental de 28-07-2025
