Daqui e dali, agora e antes V por Paula de Sousa Lima

Viagem de lazer… e não só – Cabo Verde

Viajamos sempre – ou, por outras palavras, estamos sempre em viagem, seja ela a mais longa ou mais curta deslocação espacial, do local onde fazemos lar até paragens longínquas ou desse mesmo local até ao café da esquina, seja ela um constante movimento da nossa mente, que tanto nos leva a pequenas mutações diárias como a imensos alongamentos daquilo que fomos. Conquanto se me afigure de maior interesse este segundo tipo de viagem, não tem sido ele objeto das crónicas que aqui apresento. Por outro lado, se considerar que a viagem física, pressupondo deslocação geográfica, implica também movimento/transformação da mente, concluirei nunca me ter afastado desse tipo de viagem – caracterizador do que somos enquanto espécie.

Ora pode uma viagem, tal outra qualquer atividade humana, ser mais ou menos enriquecedora do ponto de vista cultural e mental. E pode também uma viagem ser apenas de lazer, do mais básico gozo de comer, beber e placidamente saborear um ambiente aprazível. Pode uma viagem ser apenas isto, e pode isto ser suficiente, pois o direito a nada fazer é inalienável, parece-me – de resto, já os Antigos valorizavam o ócio como húmus de criatividade. Veio a identificar-se preguiça e ócio, coisa muito desacertada, e tomou este má fama; por via dela, entendem as gentes que só é digno o trabalho diligentemente afincado e enormemente produtivo – ai, que erro, que disparate, que falta de amor à vida.

Tudo o que até aqui digo teve, muito provavelmente, a sua origem nas reflexões que me sobrevieram numa das mais prazerosas viagens que fiz, e foi ela a Cabo Verde. Tratou-se de uma viagem sem qualquer intento que se afastasse do mais puro ócio. Nenhum objetivo a ela presidiu que não fosse deixar para atrás os chuviscos quase constantes e a temperatura a arrepiar as carnes para ir ao encontro do calor, fugir à tirania do relógio para dormir até o corpo querer, pôr de lado tarefas domésticas e afins para encontrar cama feita e comida pronta, muita e boa. Isto e um mar a ofertar-se, ameno, sem que houvesse hora para nele entrar e dele sair. Dessa viagem que relato fazer? Pouco mais do que dizer que foi tal como se pensou que seria. Dias longos de puro e completo prazer dos sentidos; a mente quase aquietada, que quieta nunca fica, mas, pelo menos, posta num quase remanso, o que é bom; algures no peito instalada a sensação de que a vida é simples e quase a certeza de que o Éden não ficou para sempre trancado, com espadas de fogo à entrada, sem que humanos pés o tornassem a pisar.

Alienação, poderão dizer. Num ou noutro momento também, com ancestral sentimento de culpa, o pensei. O mar, porém, ali tão perto e tão benigno, escorraçava esse sentimento de culpa. E os passeios sob uma lua tão densa de luminosidade ensinavam que não há só dor e que não seremos precipitados nas chamas infernais se, durante uma semana, nos dermos à preguiça – ou, preferivelmente, ao ócio. Correndo o risco de banalizar este texto, direi que uma viagem tal esta é de extrema utilidade, mesmo fundamental, para “recarregar baterias”. Dela, se mais não se trouxer além de uns panos coloridos, umas pulseiras de conchas, uns pequenos quadros a óleo com motivos locais e a pele mais morena, emergirá, mesmo que sub-reptícia e impercetivelmente, uma sensação de plenitude por nos termos aproximado de nós mesmos, isto é, por termos posto cobro, durante a mansidão dum tempo como suspenso, a quanto nos enreda na sequência dos dias desassossegados que vivemos por ser necessário que os vivamos.

Regressei a casa certa de que havia de voltar a Cabo Verde. E voltei. Já não foi só por puro lazer, dado ter participado num encontro literário. Este proporcionou-me uma valiosa viagem cultural, assim muito me ensinou sobre a realidade, nem sempre paradisíaca, de Cabo Verde. Foi, pois, esta segunda viagem ao mesmo local diversa da primeira – mais completa, mais viagem, passe o pleonasmo. Saí da minha ilha, conheci – não só no seu esplendor, mas outrossim nas suas misérias – outra ilha, outra(s) realidade(s); viajei geográfica e mentalmente. Usando novamente um cliché, direi que esta segunda viagem a Cabo Verde me “enriqueceu”. Não deixei, no entanto, de, nos intervalos das incursões literárias e sociais, reencontrar o meu local de lazer: deitada ociosamente sobre a areia, rente à ternura do mar, experimentei, sem culpas, o tempo a aquietar-se ao ritmo da minha alma – plena só do prazer de sentir o Sol a deter-se mansamente sobre a minha pele.

Paula de Sousa Lima, escritora vive na ilha de São Miguel, Açores

Agradecemos à escritora Paula de Sousa Lima por autorizar que estes deliciosos textos sejam publicados nesta plataforma de artes e letras da Bruma Publications, parte do instituto PBBI da Universidade do Estado da Califórnia em Fresno. Estes textos serão publicados nesta plataforma em portugês, e posteriormente republicados também aqui em tradução.

Textos originalmente publicados no jornal Ilha Maior da Ilha do Pico, Manuel Tomás, director.

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