
Isidro Espínola foi meu colega no primeiro andar da Rua Áurea, nº 110; ele na Contabilidade e eu no Departamento de Estrangeiros do BPA. Às segundas-feiras ele era um dos espreitadores do jornal A BOLA na secretária do senhor Morais. O formato ainda era o «broad sheet». Um dia alguém lhe perguntou porque não comprava o jornal; respondeu «Não traz notícias do meu Clube, o Angústias». À segunda-feira só havia espaço para as três divisões principais, dos torneios regionais só davam os resultados e das Ilhas nem isso. Foi sempre um bom companheiro: competente, cordial e generoso, ensinou-me a manusear o Diário Analítico. Estávamos perto um do outro: ele era o primeiro da Contabilidade, eu era o último da Exportação. Nem sequer havia a porta a separar os dois serviços. Quando alguém pretendia brincar contando a história do açoriano a quem os amigos deram a notícia da morte do pai, um valentão (À Zé, tê pai morrê. Quem matou ê? Foi Dê. Foi traiçã, cara à cara nã era home pra ê) ele dizia: «Nós na Horta não falamos assim». Isidro Espínola emigrou para os EUA e juntou-se à família nuclear numa agência de viagens. Em Abril de 1972 entrei no Serviço Militar e deixei de saber dele. Mais tarde li em A BOLA uma crónica louvando o seu trabalho de recuperação das malas da comitiva do SLB em digressão pela Califórnia. Ele andou nos vários aeroportos e trouxe na sua carrinha as malas perdidas. Foi uma festa. Lembrei-o neste caso de os jornais ingleses terem escrito Goncalves em vez de Gonçalves. Isidro Espínola nos EUA escreveu várias cartas à máquina e resolveu o problema fazendo retroceder o carreto e colocando uma vírgula em cima do cê.
José do Carmo Francisco, escritor
