
“O livro é a grande memória dos séculos. Se os livros desaparecessem, desapareceria a História e, seguramente, o homem.” (Jorge Luís Borges)
Meu Caríssimo amigo Manuel Tomás
Ex.ma Sr.ª Presidente da Câmara
Caro público minha Gente
Colegas da Mesa
Nada é por acaso.
Creio que os nomes definem a personalidade da pessoa. E o seu não foge à regra.
A onomástica do seu nome tudo diz: Manuel “Deus está contigo”, pois só os filhos de Deus são crisóstomos (bocas de ouro). Tomás “gémeo” que nasceu do mesmo parto que outrem. E esse outro que contigo nasceu é a Montanha, essa força telúrica genética que te incendeia de amor. Amor por Ela, pela tua Mãe, Mulher, em sentido denotativo e conotativo.
Sobre “AS RAPARIGAS LÁ DA MINHA RUA”
“A única história que temos é a nossa e ela não nos pertence.” Cito (José Ortega Y Gasset).
Tenho a certeza de que o Manuel Dutra Pequenino é hoje um picaroto feliz e realizado a viver em Lisboa. Conseguiu que o seu pedido feito por telefone fosse atendido. “Escreves sempre tanta coisa e nunca escreves sobre a nossa Rua de Cima.” (…) “Gostava de ler uma crónica tua sobre a nossa rua, sobre quem lá vivia e o que lá havia” …(…)…“Sentei-me ao computador e escrevi de rajada um texto a que dei o título de «As raparigas lá da minha rua»”…(…)…“Oxalá ele (Manuel Pereira Pequenino) goste!”
Claro que gostou e muito.
Entre a rua e a Montanha, entre o passado e a memória, a geografia emocional de um tempo insubstituível, celebração da identidade e da vida comunitária picarota como existia em tempos numa analepse de beleza e sensibilidade, numa tela naif de palavras pintadas com cores vivas (e cinzento a sua cor preferida) que Manuel Tomás já nos habituou em outras obras, não fosse ele pintor excessivo.
“AS RAPARIGAS LÁ DA MINHA RUA”, um testemunho vivido numa infância passada na Rua de Cima do lugar das Sete Cidades calcorreada em outros locais limítrofes da Madalena do Pico e não só, entre casas de pedra e cal, balcões de entrada, de vigia ou de esconderijo de encontros clandestinos que os maroiços e os tufos de incensos libertavam nas marés do Verão, figueiras e pinheiros nos silêncios densos da emigração. Tributo à vida colectiva e familiar, onde se aprendia tudo muito cedo, com alegrias e risos e alguns castigos aos inocentes atrevimentos e curiosidades à mistura, os cigarros escondidos no cerrado-atrás-de-casa, os segredos partilhados ao portão. Os cheiros das vindimas e do mar constituíam a maior atracção a que o autor não resistiu como fiel admirador do verdelho e das lanchas da travessia do Canal, apaixonando-se mais por uma de nome Espalamaca que por tanto amor o faz sofrer.
O narrador – espelho do autor – escreve mesmo a sua biografia a partir de uma urgência afectiva e ética, dando corpo e voz a algo que não deve desaparecer, mas permanecer vital.
O Título do Livro
“Peço licença ao poeta Emanuel Félix. E ele dá-ma, por isso repito o seu admirável verso, modificando-o um pouco: – Como eu amei as raparigas lá da minha rua!”
denuncia o seu centro gravitacional: as raparigas, as amigas, as meninas da infância do autor, os seus primeiros amores. Mais do que personagens são presenças carinhosas. O autor não escreve apenas sobre elas, mas com elas e por vezes para elas – um tributo à Mulher. Amou tanto, tanto a sua mãe, que a queria só para si… e as raparigas lá da sua rua: “Quando era muito pequeno queria que minha mãe me pertencesse completamente e só a mim.” …(…)…“Tinha de dizer a toda a gente que amei as raparigas lá da minha rua! E ainda as amo!…(…)…E quero estar sempre lá! Sempre!”
Uma Rua Que é o Mundo Inteiro
A Rua de Cima assume um papel mitológico. O útero do mundo, onde tudo começa e para onde tudo regressa. Nela cabe o mundo todo.
O espaço físico da rua converte-se num espaço simbólico: é o lugar da infância, da formação, da vivência com a natureza e com os outros. Um espaço-escola onde se aprende a olhar, a sentir, a amar e a viver.
As suas fronteiras não são definidas pela geografia, mas pela saudade e pelo amor. Tal como a rua, também o canal entre o Pico e o Faial deixa de ser uma via marítima para se converter num espaço de iniciação, de separação, de desejo e sobretudo de regresso. Manuel Tomás demonstra como, numa ilha, o mundo é feito de ilhas. E como, mesmo ao partir, nunca se parte totalmente. “Eu não regressei, embora de lá nunca tenha saído verdadeiramente”, diz-nos. Essa dualidade entre presença e ausência, entre partida e permanência, marca toda esta obra.

A Escrita como Reconstrução do Vivido
Escrever, para Manuel Tomás, constitui um acto de reconstrução. Cada capítulo é uma janela aberta sobre um fragmento da memória, um esforço para capturar a verdade da experiência. Como Elena Ferrante sugere na epígrafe escolhida para o livro, toda a escrita carrega uma dose de ficção na medida em que essa ficção é o modo de aceder à verdade emocional dos factos. “Recordar é viver outra vez e a escrita literária leva a ficção a contar a verdade quer esta seja quer não seja. Ainda há algum erotismo, como queria Umberto Eco.” Lê-se na contracapa.
Como diz António Gala, “O amor perfeito é uma amizade com momentos eróticos” ao queManuel Tomás não lhe é indiferente. “NO TANQUE DA TUA AVÓ UMA SURPREENDENTE MULHER” sente-se “Deitar o fogo ao chão e incendiar o grito”
A infância retratada, simultaneamente dura e terna; a solidariedade entre vizinhos; as festas, do Espírito Santo, de São Mateus, da segunda-feira do Espírito Santo Festa Grande na Criação Velha, terra de sua bisavó e de Martins Garcia (que nos legou uma “extraordinária obra literária imortal”), de Santa Maria Madalena; as travessias de lancha para o Faial e mais tarde nos barcos para São Miguel e Terceira; os dias da matança do porco, as vindimas, O DIA DO AJUTAMENTO, GATOS E MAIS GATOS E UMA GATINHA AMERICANA eoutras, tantas e tantas odisseias (que deixo em aberto para aguçar o apetite dos leitores) revelam uma paixão pela beleza dos gestos simples.
Ri e chorei, vivi e aprendi mais de Antropologia do que em toda essa disciplina estudada, ao embrenhar-me neste livro deslumbrante.
Uma leitura que nos prende como lapa à pedra, Manuel Tomás mistura com mestria o lirismo e a crueza, a ternura e o humor, a pureza e o erotismo, num estilo único, profundamente humano e vibrante, povoado de reflexões justas, despido de conceitos e preconceitos, de fanatismos e proselitismos, sempre com saudade e alguma melancolia à mistura: “Só um salgueiro tresmalhado chora um limão para oxidar o pensamento, na margem de um derradeiro sentimento. Rima consoante a maré.”
Finalmente,
“AS RAPARIGAS LÁ DA MINHA RUA” mais do que um livro, uma Antologia de contos a perdurar na História. Uma deliciosa Epopeia Picarota a degustar “com o célebre e histórico verdelho do Pico”. A tal obra que faltava ao nosso espólio Literário.
Montanha-Vinha-Canal, umatrilogia genética de Manuel Tomás – seiva vernácula reforçada pela do drago que lhe corre nas veias. Escritor de carácter atento de tempo lento, não fosse ele também professor e jornalista fundador do jornal Ilha Maior e poeta seguidor-sentido de Almeida Firmino.
“Já tinha começado a emigrar para outra ilha, para a ilha grande, que a maior, vim a sabê-lo muito mais tarde, essa era a minha:
Ilha Maior no sonho e na desgraça / sempre a acenar a quem ao longe passa” …/…/…
Admiro-te tanto, Manuel Tomás. A melhor e mais autêntica forma de te amar e respeitar é ler-te e exprimir o que nos vai na alma, e naquilo que a vista alcança.
Muito obrigada meu amigo.
Raquel André Machado, poeta
Texto apresentado no lançamento do livro na ilha do Pico.

